Se os gays querem se ver, precisam ir ao cinema Resposta

Domingo passado (20/03), li, estarrecido, uma crítica a respeito da novela “Ti-ti-ti”, que terminou em 19/03. O texto, escrito por uma famosa colunista de um dos maiores jornais do país, dizia que a discussão a respeito do beijo entre dois gays ou duas lésbicas, “além de surrada, parece uma guerra perdida”. Depois, a colunista ainda dizia que esse debate “surpreendentemente, também perdeu um pouco sua importância”, a partir do momento em que um casal de homossexuais foi tratado “como nunca antes um folhetim tinha feito”, segundo palavras da jornalsita. A julgar pelos comentários dos leitores dela e, também, pelo comunicado recente enviado pela Rede Globo à imprensa a respeito do tema, não é verdade. Isso, sem contar as palavras do autor Gilberto Braga que, antes de estrear a sua, “Insensato Coraçã” (Globo), prometia um núcleo gay, mas após o início da novela, foi taxativo: “Não vai ter beijo gay”, disse Gilberto, um gay assumido. Até um jornalista do “Guardian”, da Inglaterra, entrou na discussão a respeito do “beijo proibido, que o Brasil espera ver”.
Só sei que depois de ler a tal crítica, me deu vontade de deixar de lado as novelas, até que elas passem a retratar o mundo em que eu vivo de forma real. “Insensato Coração” é um exemplo negativo de como a homossexualidade vem sendo tratada: sob o viés, única e exclusivamente, da violência. No caso, a homofobia. É um ponto positivo? Claro! Mas gay também ama, sofre, sente e, claro, beija na boca! Até transa!
Parece, enfim, que estamos todos os LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgêneros) fadados a sermos retratados de maneira caricata ou pouco natural na teledramaturgia da TV brasileira. Por que insisto no assunto? Porque a novela é um poderoso veículo de comunicação, talvez o único capaz de, realmente, atingir todas as classes sociais e gerar uma discussão nacional sobre algum tema. Exemplos não faltam. Acontece que a teledramaturgia brasileira, de pelo menos uns dez anos pra cá, tem se mostrado conservadora. Na caretice atual, não há espaço para discussões mais ousadas a respeito de nada.
O cinema ainda me parece o lugar ideal para os LGBT se verem. Seja em filmes mais sérios ou em comédias leves, estamos lá. E somos retratados como seres humanos, com toda a complexidade de um heterossexual. Afinal, o que muda é a orientação sexual. No mais, somos todos iguais.
Correspondi ao meu desejo de apagar todos os capítulos que havia gravado – até para comentar aqui no blog – de “Insensato Coração”. Não vou mais assistir Isso aconteceu depois de eu ter ido ao cinema, no fim de semana passada.
O meu reencontro com o cinema – fiquei afastado das salas de cinema por um bom tempo, por questões pessoais – foi para assistir ao filme “O primeiro que disse”, com um amigo. O filme italiano conta a história de Tommaso que, após voltar de viagem, decide contar à família que é homossexual. Só que, para espanto de todos os familiares, em uma cena típica de família italiana (e, por que não dizer, de famílias brasileiras também), com todos os parentes à mesa, quem conta que é homossexual é Antonio, irmão de Tommaso.

Um escândalo acontece, com muito dramalhão e algumas risada em meio a um fato triste e, infelizmente, muito comum ainda: Vincenzo, o pai de Tommaso e Antonio, resolve expulsar o segundo de casa. Tommaso se acovarda e não sai do armário.
O filme trata – em meio a muitos clichês, é verdade – de questões profundas que envolvem o relacionamento entre um homossexual e a sua família. O diretor Ferzan Ozpetek, aliás, dedica o filme ao pai.
Em determinado momento do filme, os amigos de Tommaso – todos gays e bem pintosos – chegam da capital. A família parece não querer enxergar que são gays e nem que, com tantos amigos gays e outros indícios mostrados no filme, o Tommaso também é gay. Só quem parece compreender tudo – inclusive o Antonio – são a avó, que tem todo um passado que fez com que ela fosse mais tolerante e uma tia louca da família. A avó acaba se matando no final do filme. Ali, podemos ver a dor de alguns gays que, sem saber como lidar com a família, se perdem e, em muitos casos, se matam.
Já em espírito, a avó visita Tommaso, e em um diálogo comovente, diz nas entrelinhas que, é possível ser feliz, se assumir e ser bem resolvido de forma menos dramática do que foi com o seu irmão Antonio.
Aliás, vem do diálogo entre os irmãos, quando Antonio já havia se assumido, uma frase impactante que, talvez justifique todo o filme. Antonio, gay assumido, diz ao irmão Tommaso, gay enrustido: “Em nossa família começaram a roubar nossa dignidade”. E é justamente isso o que acontece em muitas famílias. O amor que sufoca e quer impor, moldar, reprimir, faz com que muitos percam as suas “dignidades”, os LGBT então…
Outro tema relevante é a respeito da dificuldade de se publicar um livro com conteúdo homoerótico na Itália (só lá?). Tommaso tem o seu livro recusado pela editora. Mas ele, sem desanimar, diz que continuará escrevendo.
O filme também aborda, superficialmente, o amor de uma heterosexual, Alba (Nicole Grimaudo), por um gay: Tommaso.
Apesar de eu ter escrito algumas vezes a palavra “dramático”, todos os temas são tratados de maneira leve, com muita comédia. Os clichês são justificáveis, para que o filme abranja vários tipos de público. Não tem nenhuma cena forte, que possa causar espanto. Aliás, se não me engano, o filme tem apenas uma cena de beijo gay. Vi casais de heterossexuais assistindo.
Saí da sessão feliz, com a certeza de que vi uma história sobre gays completa e não uma história conservadora, e moralista. Pude refletir sobre a minha vida, sobre o universo LGBT e conversar sobre isso com o meu amigo. Por enquanto, isso só é possível mesmo no cinema, em alguns casos em teatro e também na literatura. Na TV fechada é possível, com menos intensidade, alvo algumas exceções. Por isso, o melhor saída, por enquanto, é vermos menos TV aberta.

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