‘Não somos mais explorados’, diz preso gay sobre ala especial em MT Resposta


A discriminação e a exploração sexual foram alguns motivos que levaram um reeducando homossexual, de 38 anos de idade, a deixar a ala masculina do Centro de Ressocialização de Cuiabá e passar a integrar a ala exclusiva para gays e travestis. “A falta de respeito é muito grande e vi que mudando de ala poderia assumir a minha verdadeira identidade. Aqui, não somos mais explorados”, declarou em entrevista ao G1. O espaço no presídio está em funcionamento há quase um ano e abriga atualmente 15 detentos. A ala dos homossexuais permite a separação dos que assumem esta orientação sexual ou quem tem identidade de gênero feminina dos demais presos.
O reeducando, que prefere não se identificar, relatou que foi preso por tráfico de drogas há quase um ano e ficou alguns meses cumprindo pena em cela masculina. “Era muito complicado. Não podia me vestir e nem colocar acessórios femininos. Era obrigado a usar roupas masculinas. Além disso, havia muita exploração sexual”, ressaltou. Por conta disso, o detento disse que pediu à coordenação do presídio para que fosse para a ala especial.

Ele foi aprovado na triagem realizada por psicólogos e atualmente participa do projeto “Resgatando a Dignidade”, que consiste em realizar trabalhos artesanais como a confecção de objetos de decoração em tecido e jornal. Os detentos também aprendem a fazer acessórios femininos, pintura em tela, trabalhos em madeira e customizar camisetas. O projeto é realizado pelo Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros, da Secretaria estadual de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh).

O preso gay conta que antes de ser preso trabalhava como cabeleireiro e viu no projeto a oportunidade de aprender novas coisas. “Sou cabeleireiro e hoje gosto muito de fazer enfeites, tapetes e trabalhos artesanais. É uma grande oportunidade que posso desenvolver quando sair daqui”, pontuou. Ele conta que trabalha no projeto pelo menos oito horas por dia e que já produziu mais de 15 tapetes feitos de retalhos. “Tento permanecer o máximo de tempo possível nos cursos oferecidos”.

Para outro preso homossexual, o curso voltado para a culinária e cozinha é o mais interessante. “Trabalhei como garçom, pizzaiolo e descobri o curso de cozinha. Aproveito o projeto para melhorar a performance”, brincou o detento. Ele relata ainda que foi casado por 10 anos e teve uma filha. No entanto, logo após a separação da esposa, assumiu sua orientação sexual.
Com 34 anos de idade e com 16 anos de condenação, o detento declarou que também ficou preso por cinco meses na ala masculina e passou por humilhações. “Não aguentava mais ser humilhado e discriminado pelo fato de ser gay. Por isso pedi para me mudarem de ala”, explicou.
Vendas
A equipe de reportagem do G1 teve acesso à ala e acompanhou o trabalho desenvolvido por eles, que recebem o benefício da redução de um dia na pena para cada três dias trabalhados. De acordo com a gerente da unidade prisional, Alvair Maria Barbosa, todo o material utilizado no trabalho realizado pelos presos foi doado por empresas privadas. O artesanato produzido pelos detentos homossexuais, segundo ela, é vendido nas feiras e eventos realizados pela Grande Cuiabá.
Espaço exclusivo
De acordo com a Sejudh, Mato Grosso é o segundo estado a criar o atendimento à comunidade carcerária LGBT e o primeiro a normatizar medidas protetivas como políticas públicas. Uma ala especial para o público LGBT já existe desde 2009 em um presídio de Belo Horizonte (MG).
Para a coordenadora regional do Centro de Referência LGBT, Cláudia Cristina Carvalho, a ideia é retirar os reeducandos homossexuais da situação de risco e de violência. Porém, garante que não há privilégio aos presos que integram a ala e nem que ocorra segregação. “Tratam-se de pessoas que já lutam contra a violência sexual e psicológica. Com esse espaço, eles podem ter a oportunidade de apresentar a sexualidade e não são mais obrigados a se vestir, por exemplo, como homens da forma como as outras alas masculinas exigem”, observou.

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