Laerte: “Fiz campanha eleitoral homofóbica” 1

Laerte é cartunista. Publica tiras no jornal Folha de S.Paulo. (Foto: Fábio Guinalz/Fotoarena/Folhapress)

Laerte, uma das personalidades mais engajadas e queridas do meio LGBT, travesti e bissexual, deu um depoimento corajoso à jornalista Thais Lazzeri, da revista Época. A cartunista se arrepende de ter feito material de campanha política ridicularizando os gays.

“Não tomo boas decisões. As coisas que deram certo foram fruto do acaso ou de eventos aleatórios. Eu me arrependo amargamente de algumas escolhas. Uma delas foi ter usado da homofobia numa campanha eleitoral.

“No começo dos anos 1980, eu e alguns amigos fundamos uma empresa para prestar serviços de assessoria de comunicação para campanha política. O movimento sindical estava fervendo. Fomos contratados pelos metalúrgicos da região do Grande ABC paulista e de São Paulo. Fazíamos jornais, folhetos de campanha salarial, prestávamos assessoria em diversos níveis, inclusive na época de eleições para a diretoria.

“A coordenação de São Paulo, que nos contratou, era feita pelo sindicalista Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão. Ela era muito hostilizada pela esquerda. Nas eleições do sindicato, a oposição organizou uma chapa para concorrer. O lema deles era ‘O gigante vai despertar’, querendo dizer que o sindicato precisava acordar, e eles fariam as mudanças necessárias.

“O gesto que lamento muito foi feito durante a apuração dos votos dessa eleição, quando a contagem mostrou que a diretoria para a qual trabalhávamos estava na frente. Abrimos um banner enorme que eu criei. Tive a ideia e o desenhei. Mostrava a figura de um gigante desmunhecando – em alusão ao personagem de nossos adversários. Era um gigante gay.

“Na hora, as pessoas envolvidas com nossa chapa acharam engraçado, ficaram debochando. A oposição, que já tinha feito muitas provocações e barbaridades, ficou enfurecida. No calor dos acontecimentos, meu sentido crítico baixou a quase zero. Não achei um problema. Passada a confusão, quem trabalhava comigo disse que aquela atitude foi ridícula.

“A consciência sobre aquele conteúdo só me veio anos depois. A responsabilidade foi inteiramente minha. Fui eu que pensei, bolei, propus e executei a campanha. E me arrependo de todas as formas. Foi ridículo, provocativo, despolitizado e homofóbico. Um exemplo de como transformar enfrentamento político em imaturidade.

“A questão da homofobia, na época tabu, hoje me toca. No correr dos anos, vim a me perceber e assumir como bissexual. Tenho a vivência da transgeneridade (inadequação do gênero ao comportamento social da pessoa), que me levou a uma expressão travesti. Ter feito aquele banner ganha ainda mais em amargura e arrependimento. Fui um idiota.

“Aprendi que esse tipo de golpe baixo não atrai simpatias nem acrescenta nada de positivo numa luta política. Em situações como essa, é preciso manter os termos do debate dentro do campo da argumentação e afastar as imbecilidades. Hoje, diante de um candidato que apele para a baixaria, procuraria denunciar e me afastar. Se ele tem valores que vão contra o que acredito, não merece meu voto.”

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