Ativistas fazem marcha fúnebre em São Paulo e ´enterram´ Programas de Aids 1

Protesto de ativistas

Vestidos de preto e num profundo silêncio, quebrado apenas quando alguns entoavam a marcha fúnebre, ativistas entraram na manhã desta sexta-feira, 30 de novembro, no prédio da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, na Av. Dr. Arnaldo, com uma coroa de flores simbolizando a morte dos programas governamentais de aids do Brasil. Os manifestantes seguiram pela Secretaria até sair pela porta da Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, onde houve um apitaço.

“Estamos aqui hoje (véspera do Dia Mundial de Luta contra Aids, 1º de dezembro) para exigir respostas mais eficazes das três esferas de governo contra a epidemia”, disse o Presidente do Fórum de ONG/Aids do estado de São Paulo, Rodrigo Pinheiro.

Para ele, que foi um dos principais organizadores do protesto, há um retrocesso nas políticas do País nas áreas da prevenção do HIV e assistência prestada aos doentes de aids. “Faltam profissionais de saúde, leitos especializados foram fechados e o governo federal se mostra conservador na implementação de campanhas de prevenção”, contou. “Aquela ideia de que moramos no país com o melhor Programa de Aids do mundo já era. Nossa mensagem neste protesto é de que aqui jaz o melhor programa de aids do mundo”, acrescentou.

O especialista em saúde pública e presidente do grupo Pela Vidda (Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids) de São Paulo, Mário Scheffer, lembrou que as manifestações das ONGs são históricas e servem para alertar a sociedade sobre a real situação da epidemia. “Neste ano, o protesto tem um sentido especial, pois há vários sinais de que houve paralisia e até incapacidade do País em responder aos novos casos de HIV. Esta não é uma epidemia controlada. Em algumas regiões do Brasil e em populações específicas há aumento do número de infecções”, comentou.

O representante, no estado de São Paulo, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+), Beto Volpe, critica a “banalização da aids”. Segundo Beto, a epidemia de HIV sofreu dois grandes preconceitos: a criação de grupos de risco e a ideia de cronificação da aids.

Protestto de Ativista 2

“Numa sociedade como a nossa em que sempre pega o que é mais conveniente, o HIV passou a ser considerado um risco apenas para os homossexuais, usuários de drogas e profissionais do sexo, mas não foi essa a reação da epidemia. Hoje, em algumas faixas etárias, como na população jovem, há registros de duas novas infecções em mulheres para cada uma em homem”, explicou. “E ao considerar a aids uma doença crônica, como fazem muitos governantes e médicos, corre-se o risco novamente de um descuido generalizado sobre o vírus. As pessoas tendem a pensar que ter aids é tudo bem”, acrescentou.

Com auto-falante, Beto alertou que as pessoas saudáveis também são vulneráveis à infecção do HIV, “que aids não é gripe” e criticou o que ele considera ser um desejo do governo de transferir o atendimento desta doença para as unidades básicas de saúde.

A manifestação reuniu cerca de 200 pessoas e contou com a participação do Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde (SindSAÚDE), Sindicato dos Comerciários de São Paulo e da União Geral dos Trabalhadores.

Secretário-adjunto diz a ativistas que não fechará os leitos do CRT

Depois do protesto, alguns ativistas foram recebidos pelo Secretário-adjunto do Estado da Saúde, José Manoel de Camargo Teixeira, e receberam a informação de que os leitos do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT) não serão fechados. José Manuel afirmou ainda que verbas do setor continuarão especificadas para o combate da aids, incluindo apoio à sociedade civil organizada.
Protesto e Ativista 3
Para Rodrigo Pinheiro, o encontro foi “muito protocolar”. Apesar das promessas, o presidente do Fórum de ONG/Aids do estado de São Paulo disse ter saído da reunião com a necessidade de ficar ainda “mais atento” sobre a possibilidade de fechamentos de leitos exclusivos para soropositivos. “O secretário-adjunto falou sobre a necessidade de discutirmos mais sobre como os leitos exclusivos para soropositivos estão sendo usados, o que nos deixa de alerta sobre o assunto”, explicou.

A coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, Maria Clara Gianna, esteve na reunião e respondeu a maioria das perguntas feitas pelos ativistas. Segundo ela, o debate acerca do uso dos leitos do CRT integra uma discussão maior envolvendo a racionalização dos leitos hospitalares de todo o estado. “O secretário afirmou que não há nenhuma intenção de fechar os leitos do CRT”, reforçou.

Durante a manifestação, Maria Clara estava na Secretaria de Estado da Saúde participando da reunião do Conselho Estadual da Saúde que aprovou o Plano de Ações e Metas (PAM) para as DST/Aids. Segundo ela, o tema HIV/aids entrará como pauta da primeira reunião de novos secretários municipais de saúde, em fevereiro de 2013. “Isso é muito bom, pois significa que este será um dos problemas de saúde a ser posto como prioritário pelo secretário estadual aos secretários municipal”, finalizou.

No estado de São Paulo foram notificados 217.390 casos de aids, entre 1980 a junho de 2012. Embora o patamar de novas infecções esteja estável e a taxa de óbito venha caindo, ainda morrem, em média, oito pessoas em decorrência de aids diariamente.

Nesta sexta-feira, o Programa Estadual de DST/Aids está realizando uma ação de testagem anti-HIV, das 9 horas às 16h, em parceria com o Instituto Clemente Ferreira, local onde ocorre a atividade (Rua da Consolação, 717, Centro, São Paulo). Pretende-se realizar 500 testes rápidos anti-HIV e a busca ativa de casos de tuberculose.

O Programa apoia ainda o Núcleo de Estudos para Prevenção da Aids (Nepaids-USP) no debate “Em Defesa da Resposta à Aids no Âmbito Do SUS: Uma Agenda de Pesquisa e para a Prevenção”, na Faculdade de Saúde Pública, e irá iluminar o CRT, a partir das 19h, com dois canhões de luz de cor vermelha para marcar o Dia Mundial de Luta contra a Aids.

Reportagem: Lucas Bonanno, da Agência de Notícias Aids

Um Comentário

  1. Realmente o Brasil poderia ter um programa de prevenção ainda melhor e tb não considero que a AIDS adquiriu teve seu status suavizado para um doença crônica, como o diabetes. Mas o Brasil continua sim com um dos melhores PROGRAMAS DE TRATAMENTO DE AIDS do mundo, principalmente se considerarmos a precariedade da saúde pública aqui com um todo. Nenhuma outra doença recebe igual rapidez e regularidade de tratamento absolutamente gratuito, características estas que, contrariando a desaceleração da epidemia, só ganharam modernidade e alcance ao longo dos anos.
    Considerei os depoimentos e imagens do ato bastante exageradas, mas entendo que a data permita este teor dramático e que seja dificil grupos organizados terem sua voz ouvida com um discurso menos vitimista. Podem parecer palavras duras, mas não digo isto como mais um alienado em sua zona de conforto distante desta realidade, mas como alguém que já perdeu mãe, namorado e melhor amigo para o vírus e é portador ha quase 2 décadas.

O que você acha disso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s