Como eu saí do armário: Danilo Rosa Gabriel 6

Danilo Rosa Gabriel

Danilo Rosa Gabriel

Eu poderia muito bem dizer que não sei como saí do armário. Ou então, dizer que não me lembro de um dia ter morado nele. Talvez o armário tenha sido o útero de minha mãe, e desde que de lá saí sou assumido para o mundo todo ver.

Meu nome é Danilo Rosa Gabriel e completo 20 anos no próximo dia 24 — por uma ironia do destino, talvez. Atualmente sou estudante calouro de comunicação social, nasci e cresci em Cabo Frio (RJ) e aos 18 anos fui morar em Niterói (RJ), onde resido até hoje.

+ Como eu saí do armário: Rafael Zveiter (criador do Entre Nós) 

Desde cedo, durante todo o meu crescimento, fui pressionado pela minha família a agir como homem. Talvez pelo fato de já perceberem esse meu prazeroso “desvio” da conduta, ou por estarem habituados com uma imagem de homem pré-concebida, dada de antemão. Minha voz, meus trejeitos e minha aparência — que eu, particularmente falando, nunca considerei uma anomalia — sempre geraram em todos com quem convivi um desconforto e talvez a sensação de constatarem uma certeza sobre a minha sexualidade. Digo isso com base nos olhares que lançavam e nas coisas que eu descobri que diziam sobre mim pelas costas e até mesmo na minha frente. Mas eu nunca havia pensado na minha sexualidade até os meus cruciais 15 anos.

A cidade onde cresci é relativamente pequena, minha família é do interior do ES e foi criada seguindo fielmente uma série de princípios cristãos de moral e boa conduta — mais tarde, aos 17, também me descobri ateu. Na escola, todos os anos, do ensino fundamental ao ensino médio, minha mãe travava uma batalha com as escolas em que estudei e com a Secretaria de Educação da cidade pra tentar defender seu filho dos insultos dos coleguinhas de classe. Devo confessar que eu sofria muito, mas com o tempo esse sofrimento se transformou em uma notável habilidade de ignorar o que os outros dizem e de ouvir apenas o que me convinha. Nesse sentido, posso dizer que saí do armário. Mas acho que nunca estive dentro dele. Posso dizer também que já tentei estar ao responder “não” à pergunta “Você é gay?”, mas sempre estive trancado do lado de fora.

Durante a minha adolescência, nunca consegui me relacionar com meninas e também com meninos. Isso porque nunca senti vontade. Nem ao menos olhava diferente pra eles, até os 15.

Considero como catalisador para o surgimento da minha sexualidade — recusando o termo transformação — um amigo que conheci assim que iniciei o ensino médio e que chamei de melhor amigo. Com nossas afinidades e características em comum, me acostumei com meu jeito, sem aquela sensação de estar desagradando a alguém. Minha maior dificuldade, vencida com a companhia dele, foi pronunciar a frase “Eu sou gay”. Dizer isso foi como vestir uma pele que me cabia perfeitamente, mas que estava revestida de insultos, palavrões, preconceitos e agressões, contra os quais eu um dia lutei e fugi. Minha aversão era à palavra gay — eu não sabia que era e estava aprendendo que sim. Simplesmente demorei a pronunciá-la, porque cresci assistindo condenações a isso. Mas pronunciei, COM TODAS AS LETRAS. Nesse momento consegui ganhar força e enfrentar o resto do mundo de cabeça erguida.

À minha mãe, só fui contar aos 18, depois que eu havia saído de casa e já estava na faculdade. Não que ela não soubesse, só fingia pra si mesma, acho. Foi em uma visita à casa dela. Estávamos em frente ao portão conversando e alguns meninos passaram e começaram a fazer piadas sobre mim. Ela, enfurecida, começou a discutir com esses meninos que tinham no máximo 14 anos. Pedi que ela parasse porque aquilo não ia levar a lugar nenhum. Depois que consegui acalmá-la contei tudo — resumido na frase que me acostumei a pronunciar sem problemas. Fiz isso como uma forma de tirar das costas dela a responsabilidade de defender um filho que já tinha aprendido a fazer isso sozinho. Senti que ela ficou decepcionada e isso me deixou com uma culpa desconfortável durante um tempo. Mas a aceitação veio. Só não sei se totalmente porque de vez em quando ela ainda solta algumas frases que tendem a me “por nos trilhos”, mas eu sei que não é culpa dela e sim de costumes e princípios com os quais ela cresceu. Ao resto da minha família nunca contei, mas está instaurada a política do Não pergunte, não fale (a mesma do exército norte-americano). Nunca perguntaram, mas se um dia fizerem eu contarei porque eles já sabem. Assim foi com minha irmã mais velha e mais nova — essas duas sabem tudo de mim.

Sempre vivi feliz comigo mesmo, e considero a descoberta da minha sexualidade um episódio pequeno na minha vida, dentre os vários que eu já vivi, justamente por considerar algo normal. Ao invés de lutar pra me assumir, hoje luto pra tentar desfazer esse conceito de homem como macho-alfa, justamente para também me instaurar como homem que sou, sem a necessidade de seguir padrões heteronormativos e uma séria de outras condutas impostas aos seres humanos. Isso porque o meu maior prazer sempre foi e sempre será DESVIAR A CONDUTA.

  1. bonita Historia Danilo, a vida é mesmo uma serie de descoberta e cada um de nós nos redescobrimos né verdade? parabéns pala coragem e pela forma que auto defesa que vc aprendeu a lidar. Felicidades

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