Jornalista fala sobre a transformação na vida dos gays nos EUA 1

766_hp1Na semana seguinte à eleição de Barack Obama para presidente, em 2008, fui a um festival de música na Universidade Estadual do Arizona, em Tempe. Por causa do Dia dos Veteranos, na terça-feira seguinte, era um fim de semana de festa na escola, e milhares de estudantes lotavam a rua principal. O evento central do festival foi longo. Por volta da meia-noite, saí com outro participante, o escritor e cineasta Paul Festa, em busca de algo para comer. O único lugar que encontramos foi um Jack in the Box, restaurante de uma rede de fast-food. Fizemos o pedido na janela do drive-thru. Havia um carro parado, com vários universitários dentro. Momentos depois, um segundo carro entrou no sentido contrário do drive-thru e freou cantando pneu. Um jovem visivelmente bêbado, alto e loiro, que se vestia tipicamente como um universitário, usava jeans e uma camiseta por cima de outra de manga comprida, saiu cambaleando do carro. Ele gritou: “Um vagabundo me chamou de bicha!”. O atendente entregou um milk-shake de morango para Paul. Trocamos olhares apreensivos enquanto o jovem continuava a gritar – Paul e eu somos gays. “Meus pais me criaram direito”, o loiro gritou para os estudantes no segundo carro, que, no fim, deduzimos, eram amigos dele. “E tenho orgulho de quem sou.” Paul e eu nos olhamos de novo, dessa vez espantados.

Nisso, um cara grandalhão e com cara de poucos amigos que usava um boné de beisebol virado para trás dobrou a esquina. Essa, evidentemente, era a pessoa que havia chamado o loiro de bicha. “Vou quebrar sua cara,” gritou o recém-chegado. Um amigo dele vinha atrás. Como a maioria dos homens gays, já fui chamado de bicha algumas vezes. Já vi amigos respondendo a homofóbicos. Mas nunca havia presenciado algo assim. “Como você se atreve?”, o jovem gritou. “Nossos antepassados vieram para este país para escapar de suas religiões e ser livres. Como você se atreve, imbecil? Você não sabe que esta é a terra das oportunidades iguais? Volte para a porcaria de Connecticut com seus dois carros e garagem!” O cara grandalhão encolheu-se diante do insulto semicoerente. Ele deu de ombros para o amigo, e eles saíram andando. O loiro foi tropeçando atrás deles por um ou dois minutos, aos berros: “Neste país, posso me casar COM QUEM EU QUISER! Porque agora há MUDANÇA neste país!”.

Tenho 44 anos e presenciei uma transformação impressionante na condição de homens e mulheres gays nos Estados Unidos. Quando nasci, relações homossexuais eram ilegais em todos os Estados, menos Illinois. Gays e lésbicas não podiam trabalhar no governo federal. Não havia nenhum político abertamente gay. Alguns homossexuais não assumidos ocupavam posições de poder, mas a tendência era eles tornarem as coisas ainda piores para seus semelhantes. Mesmo na imprensa liberal, a homossexualidade era desprezada. Na The New York Review of Books, o escritor Philip Roth censurou a “medonha retórica homossexual” do dramaturgo Edward Albee, e uma reportagem de capa da Time menosprezou o mundo gay descrevendo-o como um “substituto patético de segunda categoria para a realidade, uma fuga da vida, digna de pena”. O best-seller de 1969 do psiquiatra americano David Reuben, Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (Mas tinha medo de perguntar) – um livro que me lembro de folhear trêmulo na biblioteca –, dizia que, “se um homossexual que queira renunciar à homossexualidade encontrar um psiquiatra que saiba como curá-la, ele tem todas as chances de se tornar um heterossexual feliz e bem adaptado”.

TRANSFORMAÇÃOO crítico de música Alex Ross. “Celebridades assumidas e orgulhosas deixaram os heterossexuais americanos mais à vontade com quem pensa diferente” (Foto: Lisa Carpenter/The Guardian)

TRANSFORMAÇÃO
O crítico de música Alex Ross. “Celebridades assumidas e orgulhosas deixaram os heterossexuais americanos mais à vontade com quem pensa diferente” (Foto: Lisa Carpenter/The Guardian)

Na metade dos anos 1980, quando estava começando a aceitar minha sexualidade, alguns gays tinham cargos políticos, muitos Estados haviam derrubado leis antigas que criminalizavam a sodomia e diversas celebridades haviam se assumido. (A tenista campeã Martina Navratilova o fez, de forma memorável, em 1981.) Mas cruzadas antigays da direita religiosa ameaçavam fazer esse progresso retroceder. Em 1986, a Suprema Corte, em defesa da lei contra a sodomia na Geórgia, rejeitou o conceito de proteção constitucional à sexualidade gay como sendo, “na melhor das hipóteses, uma brincadeira”. A aids matava milhares de homens gays todo ano. A resposta inicial da administração Reagan – e da mídia tradicional – é bem resumida por uma coletiva de imprensa com Larry Speakes, o porta-voz da Casa Branca, em outubro de 1982:

Repórter: Larry, o presidente tem alguma reação ao anúncio (do) Centro de Controle de Doenças em Atlanta de que a aids agora é uma epidemia e há mais de 600 casos?
Speakes: O que é aids?
Repórter: Mais de um terço deles morreu. É conhecida como a “praga gay” (risos). Não, é mesmo. Quer dizer, é uma coisa bastante séria e uma a cada três pessoas contaminadas morre. E eu me pergunto, o presidente está ciente disso?
Speakes: Não tenho a doença. Você tem? (Risos.)

Quando Reagan falou pela primeira vez em detalhes sobre a aids, em maio de 1987, os mortos nos EUA passavam de 20 mil. O medo é o que mais lembro da minha primeira experiência sexual.

Hoje, os gays de certa idade podem se sentir como se tivessem saído de uma máquina do tempo cor-de-rosa. Foi a sensação que tive ao observar o jovem em Tempe. O casamento gay é legal em seis Estados e em Washington D.C. Gays podem servir no Exército sem esconder sua sexualidade. Vemos juízes, membros do Congresso, prefeitos (incluindo o prefeito de Tempe por quatro mandatos), estrelas de cinema e apresentadores de televisão abertamente gays. Personagens gays na televisão e no cinema estão quase irritantemente sempre presentes. A Suprema Corte, que finalmente anulou todas as leis contra a sodomia em 2003, começou a examinar a questão do casamento. E a campanha de 2012 mostrou que os republicanos não enxergam mais os gays como causadores de celeuma. O candidato deles à Presidência, Mitt Romney, derrotado em novembro, é contra o casamento gay, mas ele quase não mencionou o assunto nos últimos meses. Se 32 pessoas morressem hoje num assassinato em massa num bar gay, seria presumível que tanto Obama quanto Romney expressassem sua solidariedade às vítimas – mais do que que qualquer autoridade fez em Nova Orleans quando, em 1973, um incendiário pôs fogo no Upstairs Lounge, um bar que reunia o público homossexual.

A vida de um gay nos EUA não é livre de preocupações, especialmente fora de certas áreas nas grandes cidades. Apesar de a direita religiosa ter menos força política do que já teve, ela ainda pode causar incômodo. Em agosto, centenas de milhares de pessoas em todo o país fizeram fila para comprar sanduíches de frango para apoiar a Chick-fil-A, cuja fundação sem fins lucrativos já doou milhões de dólares para grupos antigay.

(Foto: AP)

(Foto: AP)

Uma explicação moderna para essa reviravolta é atribuí­da à cultura popular: celebridades assumidas e orgulhosas e seriados de TV com temática homossexual deixaram os americanos heterossexuais mais à vontade com seus vizinhos que pensam diferente. Quando, em maio, o vice-presidente, Joe Biden, declarou seu apoio ao casamento gay, levando Obama a fazer o mesmo, ele disse: “As coisas realmente começam a mudar… quando a cultura social muda. Acredito que Will & Grace provavelmente tenha contribuído mais para educar o público americano do que quase qualquer coisa que alguém tenha feito até agora”. Não muito tempo atrás, porém, Hollywood frequentemente retratava gays e lésbicas como tipos afetados e escandalosos, casos patéticos de suicídio e assassinos em série. Vito Russo documentou a prática em seu livro, The celluloid closet (O armário de celuloide, em tradução livre), de 1981. Dez anos depois, participei de uma manifestação organizada pela divisão de São Francisco da Queer Nation, organização de ativistas gays, contra o filme Instinto selvagem, que estava sendo filmado na cidade e cujo enredo contava a história de lésbicas assassinas. Minha carreira de ativista acabou ali, mas o protesto, assim como outros parecidos, trouxe progressos. Tardiamente, Hollywood parou de ensinar os Estados Unidos a terem medo da homossexualidade. A indústria do entretenimento, longe de ser quem abriu o caminho, adaptou-se a uma nova realidade social.

Pessoas tridimensionais são mais convincentes do que pessoas bidimensionais, como o vice-presidente Biden certamente sabe. No final, a grande mudança provavelmente chegou porque, todo ano, mais alguns milhares de pessoas faziam o difícil anúncio a sua família e aos amigos, derrubando imagens do folclore do desgosto. Meu principal momento político aconteceu quando escrevi longas cartas a meus amigos mais próximos, finalmente revelando o resto de mim. Numa, me assumi numa nota de rodapé na sétima página, em meio a citações pomposas, mas sinceras, de Wallace Stevens: A maior pobreza é não viver/Em um mundo físico, sentir que o desejo de alguém/É difícil demais de diferenciar do desespero. Harvey Milk, o ativista que se tornou o primeiro homossexual a ser eleito a um cargo público nos EUA, sempre disse que a revolução aconteceria assim: um jovem solitário por vez.

Fonte: Época

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