Futebol: onde os gays não têm vez, por Cristiano Ramos Resposta

Não existe meio mais escrachadamente homofóbico que o futebol. Nem mesmo o religioso. Porque, no universo boleiro, o preconceito não só é difundido, mas também maquiado. Sob a justificativa de apenas brincar com o tema, a espantosa maioria dos torcedores solta piadas das mais jocosas, comentários extremamente pejorativos, sejam dirigidos a torcedores rivais, a jogadores, árbitros, cartolas.

Esta será a última trincheira do machão brasileiro. Quando todas as outras áreas tolerarem a diversidade sexual (ainda que por força da lei, mesmo que sem concordarem), o futebol ainda estará aí para sujeito gozar à vontade (que sempre é muita) os homossexuais, fazendo de conta que isso incomoda ninguém, que é algo inofensivo.

Não se trata de gastar a coluna Na Diagonal com julgamentos morais, com apologia do politicamente correto levado à radicalidade. Interessa é refletir, fazer pensar sobre como o futebol – um dos inúmeros fenômenos-sociais-espelhos de nossa cultura – pode dizer bastante sobre como lidamos com o tema da homossexualidade.

Nas redes sociais, por exemplo, é possível encontrar inúmeros professores, advogados, jornalistas, até militantes de Direitos Humanos que, a pretexto de zoar o time e o torcedor adversários, investem tempo para criar ou repassar tiradas homofóbicas. São os mesmos que estão sempre malhando figuras como Jair Bolsonaro, Silas Malafaia e Marcos Feliciano, justamente por perseguirem homossexuais.

Essa gente muitas vezes se antecipa às possíveis críticas, adianta logo suas teorias: “Futebol não é coisa séria, não dá para considerar comentário nenhum homofóbico se assunto em questão for jogo de bola”. “Intenção é ofender ninguém, é só para desopilar, dar uma amenizada na discussão”.“Faço pra tirar sarro mesmo, mas não sou homofóbico, tenho até amigo gay” (sic).

Dá para crer que muitos torcedores pensem assim, genuinamente – o que não implica terem razão. Dureza é aceitar que educadores, formadores de opinião e até militantes de Direitos Humanos saiam com explicações desse tipo. Eles sabem que:

1. Futebol possui mais adeptos no mundo do que maioria das religiões e instituições; é traço cultural e negócio; e, como tal, não só reflete, mas também ratifica, amplia e até distorce valores morais.

2. A tradição de piadas homofóbicas é responsável não só por conflitos entre torcedores, por ofensas a árbitros etc. Ela edificou também uma das esferas mais hostis à inclusão da comunidade LGBT de que se tem notícia. Ou alguém acredita que a ausência de atletas, diretores, juízes e cronistas esportivos declaradamente gays é somente prova de que estes não existem no futebol?

Comum demais: quando o adversário vai muito bem das pernas, de contas em dia e ganhando tudo dentro de campo, o único meio de atingir o seu orgulho parece ser as piadas homofóbicas. Custa fortunas do Bill Gates e do sofrido Eike Batista acreditar que alguém grite “seu time é de veado” sem a mínima intensão de ofender.

Como alvirrubro que sou, nunca entendi porque a nóia se rubro-negros e tricolores defendem que somos o clube das “barbies”. Ora, eu ficaria muito satisfeito se toda a comunidade LGBT fosse Timbu, se ela ajudasse a lotar a Arena Pernambuco. Que problema nisso? Por que eu deveria me ofender com a possibilidade? Por que as pessoas tomam isso como meio de diminuir o torcedor do Náutico, assim como fazem outros com o Sport, ao falar das “suzis”?

Acontece que, para boa parte da população, ser comparado ou mencionado em convívio direto com gays e lésbicas é sim (ainda e espantosamente) algo constrangedor.

Muitos estudiosos trabalham as maneiras como futebol, Carnaval e outras manifestações culturais podem ser esclarecedoras, chaves para interpretação da nação, meios de nos conhecermos melhor. Não se trata de “culpar a janela pela paisagem” (existe frase mais cretina?), tampouco é objetivo demonizar torcedores (organizados ou não), profissionais do esporte e mídia especializada. Como em qualquer discussão, mais importante do que declarar vilões e vítimas é aprimorar modos de convivência, fortalecer a harmonia social, tentar reduzir a intolerância.

Existe aquele ditado matuto: “prefiro uma briga animada, em vez de conversa chata”. Coluna de hoje foi escrita no clima inverso, deixando o humor de lado. Não para inibir comentários – eles provavelmente hão de surgir, zoando bastante este cronista, e serão muito bem-vindos. Problema é que quase toda brincadeira perde a graça, cedo ou tarde. E isso de ridicularizar gays já não me faz rir há muito.

De repente, eu é que envelheci muito rápido. Ou, quem sabe, tenha perdido o humor do dia pra noite. Talvez (com certeza alguém aí aventou a hipótese) eu seja enrustido e nem sei!De qualquer modo, desconfio que prego no deserto sem refrigerante, suspeito que remo em jangada de tabica furada. Futebol seguirá como a derradeira trincheira da testosterona, onde os gays não têm vez, e o preconceito rola redondinho, disfarçado ou alienado.

*Cristiano Ramos é jornalista e escreve para o Blog do Torcedor nas terças.

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