Revista russa para lésbicas desafia a homofobia no país Resposta

Capa da primeira edição com tiragem de 999 exemplares

Capa da primeira edição com tiragem de 999 exemplares

Está à venda a primeira revista dedicada a leitoras lésbicas na Rússia. Com uma capa onde o tom predominante é o rosa, a Agens, que em latim significa “poderoso”, é uma publicação glamorosa, editada com o objetivo de desafiar a homofobia do país. Atualmente, o Parlamento analisa um projeto de lei que pretende punir toda a publicidade homossexual.

A intenção da revista é “criar uma nova imagem da comunidade lésbica”, revelou a editora Milena Tcherniavskaïa, de 24 anos, no seu editorial. Com 120 páginas, a revista trimestral, tem artigos sobre conselhos para ter um cabelo mais bonito ao lado de outros sobre “como revelar a sua homossexualidade”.

Apresentada como uma “revista de mulheres para mulheres”, a primeira edição, com apenas 999 exemplares — pode ser comprada em sites gays ou em clubes especializados —, tem uma capa brilhante onde o cor-de-rosa é predominante e a recomendação “proibido a menores de 18 anos” está impressa, bem visível, tal como prevê a lei russa.

É “a primeira revista com glamour” para lésbicas na Rússia, a pensar nas mulheres entre os 22 e os 32 anos que trabalham, ganham um salário médio e têm um bom nível de educação, define Tcherniavskaïa. Portanto, as suas leitoras potenciais são jovens ativas e interessadas no que acontece no mundo, continua.

Demarcar-se dos ativistas gays

O objetivo da revista — que custa 299 rublos (cerca de 7,4 euros) — é dar informação a jovens mulheres que não têm medo de reconhecer a sua orientação sexual ao mesmo tempo que são profissionais de sucesso, continua Tcherniavskaïa. “Elas não têm medo de ser quem são e nós admiramo-las por isso”, acrescenta.

A Agens pretende distanciar-se dos ativistas gays, salvaguarda a editora, lembrando que muitas vezes esses militantes são muito agressivos na tentativa de defender os seus direitos. “Nem todos nos queremos manifestar”, justifica.

A publicação da primeira edição (o número zero) surge num momento em que a câmara baixa do Parlamento russo (a Duma) volta a discutir um projeto de lei que pune os autores de qualquer “ato público” que promova a homossexualidade ou a pedofilia. Esta lei, que prevê multas até 500 mil rublos (12.500 euros), já foi aprovada numa primeira instância, no início do ano, o que provocou críticas da comunidade LGBT.

Legislação semelhante já está em vigor em várias regiões da Rússia como, por exemplo, em São Petersburgo. Tcherniavskaïa reconhece que todos estão “um pouco com medo” porque já algumas pessoas terão sido multadas.

O autor dessa lei em São Petersburgo, o deputado Vitali Milonov já lamentou a criação desta revista. “A sua publicação não vai contra a lei, mas teria sido melhor se elas tivessem uma revista sobre gatos”, disse Milonov à agência noticiosa Ria Novosti.

A homossexualidade foi considerada crime na Rússia até 1993 e uma doença mental até 1999. Segundo uma sondagem recente do Centro Levada, mais de dois em cada três russos dizem-se “hostis” ou “reservados” em relação ao tema que, para a maioria, devia ser proibido.

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