Nos bastidores de ‘Crô’, Marcelo Serrado cita influência de Sean Penn para o papel Resposta

Marcelo e Ana Maria durante gravação de 'Crô', num casarão em São Paulo; a comédia de Bruno Barreto é inspirada no personagem da novela 'Fina estampa', de Aguinaldo Silva (Foto: Beatriz Lefèvre/Divulgação)

Marcelo e Ana Maria durante gravação de ‘Crô’, num casarão em São Paulo; a comédia de Bruno Barreto é inspirada no personagem da novela ‘Fina estampa’, de Aguinaldo Silva (Foto: Beatriz Lefèvre/Divulgação)

 

 

Enquanto verifica no monitor o resultado da cena que tinha acabado de gravar, Ana Maria Braga comenta com Marcelo Serrado que o set está repleto de “gente bonita”, citando “o diretor careca”. “Estou até ovulando”, devolve o ator, que vive o protagonista do filme “Crô”. A dupla brinca que o encontro deveria se repetir no “Mais Você”, programa da apresentadora. Marcelo (ou Crô), então, lista pratos que estaria apto a preparar: “Salada de salpicão, croquete…”. O cardápio faz rir Ana Maria e a equipe que ocupa um casarão perto da Avenida Paulista. É lá que acontecem as gravações de “Crô” acompanhadas pelo G1 numa sexta-feira de maio. Dirigida por Bruno Barreto, a produção dedica-se ao personagem da novela “Fina estampa”, de Aguinaldo Silva. A estreia está prevista para novembro.

Na sequência da qual participa, Ana Maria Braga interpreta a si mesma e visita a mansão onde mora Crô, principal cenário do longa. Quer entrevistá-lo. Na novela, ele era mordomo. Agora, depois de ficar milionário e de acumular frustrações, deseja regressar à antiga atividade – ele vai usar a exposição no programa de TV para convocar “patroas” e fazer uma improvável seleção de emprego.

Assim que o diretor grita “ação!”, Ana Maria tenta começar a entrevista fictícia: “Marcelo, meu amor…”. Risos são ouvidos no set. Não é a primeira nem a última vez em que a apresentadora confunde ator e personagem. Mas ela retoma – “Crô, meu amor…”. O breve diálogo mantém-se agora sem interrupções. É tempo suficiente para que Crô insista em “salpicão, croquete e ovular”, especule quanto à orientação do Loro José (“Eu conheço a fauna inteira…”) e convoque a colega a acompanhá-lo em seu grito de guerra: “Over the rainbow!”. Ana Maria pergunta se ele nasceu naquela mansão. Resposta: “Eu nasci aqui, eu cresci aqui… Mas não sou Gabriela!”. Bruno Barreto ri.

Serrado posa com ritmistas fantasiados de Crô (Foto: Alba Valéria Mendonça/G1)

Serrado posa com ritmistas fantasiados de Crô
(Foto: Alba Valéria Mendonça/G1)

Sean Penn, Sandrinho e Jefferson

Terminadas as gravações, intervalo para almoço. Já despido do pijama de cetim usado por Crô até minutos antes, Marcelo Serrado encontra-se com o G1 no camarim. Ao falar sobre influências para o papel, demonstra vontade de escapar do que ele chama de “caricatura”.

Ele se recorda do casal gay Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes), da novela “A próxima vítima” (1995). No cinema, de Santiago, mordomo que é tema do documentário homônimo dirigido por João Moreira Salles. Cita ainda Sean Penn em “Milk – A voz da igualdade” (2008). “É tudo construído no detalhe, no dedo, nas mãos. Botei [em ‘Crô’] essa coisa dos anéis, porque uso muito a mão no rosto”, explica.

Marcelo Serrado afirma o seu “é um filme feito por personagens à margem: um mordomo, uma empregada e um motorista”. Acha “engraçado” não existir um casal romântico como protagonista. Ele confessa estar otimista, porque “as pessoas amam o Crô, as crianças amam o Crô”. “Eu viajo pelo Brasil com meu stand up e ponho 2 mil, 3 mil pessoas num fim de semana. Não faço o Crô, mas as pessoas querem ver, se sentem próximas. O Crô é lúdico.”

Lúdico e discreto, insiste Marcelo Serrado. “Apesar de ter essa alegoria toda, se você reparar, Crô é mais fechado, nunca espalhafatoso. Para ele, “o personagem podia virar mais um gay da TV, como vários que existem” – o que foi evitado, na opinião do ator. Bruno Barreto, o diretor, parece concordar. Se no lançamento de “Crô” ele recorreu aos irmãos Coen, Tim Burton, Chaplin e Jerry Lewis, durante a gravação arrisca esta definição: “É meio comédia britânica, não é?”. Nenhum dos presentes no set chega a contestar.

Serrado contracena com Urzula Caneviri no filme 'Crô' (Foto: Lisa Graham/Divulgação)

Serrado contracena com Urzula Caneviri
no filme ‘Crô’ (Foto: Lisa Graham/Divulgação)

Estátua da Ivete

Na entrevista, Marcelo Serrado abordaria tema semelhante. “Crô tem uma coisa comedida, quase inglesa. Ele pode ir para uma boate gay, mas não vai se jogar. Reparou a roupinha dele? Ele usaria isso que você está usando”, brinca, ao apontar a roupa do repórter. “Eu uso, meu pai usava muito isso também! Dá uma postura mais comedida, clássica.”

Nas cenas com Ana Maria Braga, o protagonista vestia casaco azul claro; camisa amarela listrada em branco e azul; gravata amarela, azul e rosa; calças pretas justas; e sapatos dockside (sem meias).

Ele só substitui a roupa na segunda cena gravada naquela manhã, que tem tom menos obviamente cômico. É a vez do cetim. Deitado no sofá, Crô está deprimido, sofre pela falta de companhia. Sua governanta, Marilda (Katia Moraes), se solidariza e oferece um calmante. O terceiro participante é o motorista Baltazar (Alexandre Nero). Mas este logo deixa o recinto – defendendo-se com um “já deu a minha hora” – assim que o patrão lamenta ter de dormir sozinho e lança um olhar carente e suspeito. A sequência se encerra com Crô e a funcionária caminhando pelo átrio central da mansão. Ao fundo, há uma estátua que reproduz Ivete Sangalo, ao pé de uma escadaria. É a cantora a intérprete da mãe de Crô.

Marcelo Serrado e Ana Maria conferem cena que acabaram de gravar no filme 'Crô' (Foto: Beatriz L efèvre/Divulgação)

Marcelo Serrado e Ana Maria conferem cena que
acabaram de gravar no filme ‘Crô’ (Foto: Beatriz L
efèvre/Divulgação)

Oscar x Carnaval
Para a sequência com Ana Maria Braga, são necessárias três repetições – o texto nunca é o mesmo, o improviso é permitido e incentivado. No todo, os 80 minutos de takes vão render para o filme uma “falsa” entrevista com cerca de dez minutos.

Ao se ver posteriormente na tela, a apresentadora conclui: “E eu insisto no ‘Marcelo’ [em vez de falar ‘Crô’]!”. Na conversa pós-cena, ela diz ao parceiro que ele continua parecendo Crô, mesmo com a câmera desligada. “Não pode sair do personagem”, justifica o ator. Depois, Ana Maria pede emprestados os óculos do protagonista. Eles têm armação verde e rosa.

O diálogo avança para as diferenças entre o Crô da novela e o Crô do filme. Para Marcelo Serrado, o original era menos contido – ele usa o termo enquanto indica gestos mais expansivos. No Crô cinematográfico, resta a inspiração no discreto Harvey Milk de Sean Penn. Pelo papel, o ator americano levou o Oscar. Serrado, por sua vez, se lembra de que o Crô de “Fina estampa” lhe rendeu “todos os prêmios de TV que você puder imaginar”. E ainda uma homenagem com a qual o astro americano talvez jamais possa sonhar: Crô foi “tema” da bateria da São Clemente no carnaval do Rio deste ano.

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