“Bambi Tricolor” ganha adeptos na Internet, mas medo de agressão breca ação em estádios Resposta

Criadora da página "Bambi Tricolor", do São Paulo, foi ameaçada pelo Facebook

Criadora da página “Bambi Tricolor”, do São Paulo, foi ameaçada pelo Facebook

“Paixão pelo futebol, amor ao clube e até rivalidade entre adversários não tem nada a ver com homofobia. Se, até agora, Bambi foi um apelido usado para discriminar, por que não adotá-lo com orgulho e desarmar o preconceito? Pelo SPFC livre”. Assim é descrita a página “Bambi Tricolor”, criada recentemente noFacebook para discutir assuntos como machismo e homofobia no Morumbi. A repercussão foi grande, gerando discussõesonline e também rendendo ameaças aos criadores da comunidade, que agrega quase mil membros.

Situação semelhante viveram internautas de outros cantos do país, por onde se espalhou o fenômeno das páginas virtuais que lutam contra o preconceito nos estádios de futebol. A precursora foi a “Galo Queer”, criada por uma torcedora do Atlético-MG, que abriu as portas para o surgimento de semelhantes, como a “Palmeiras Livre”, a “Bahia Livre”, a “Grêmio Queer” e muitas outras. O problema, segundo seus criadores relatam ao UOL Esporte, são as constantes ameaças sofridas no mundo virtual, o que impede a saída desses movimentos para a arquibancada, já que existe o medo de agressão física.

“Frequentamos o estádio e temos esse objetivo. Mas queremos fazer tudo com calma, pois é preciso garantir a integridade física de todos os participantes. Infelizmente, a intolerância é muito grande e, a julgar pelas ameaças que recebemos na página, sabemos que não será fácil fazer protestos no estádio. Estamos pensando na melhor forma de fazer isto”, explica a cientista social criadora da “Galo Queer”, que já tem cerca de 5,6 mil adeptos e muitos “likes” e comentários em suas centenas de postagens.

As ameaças virtuais envolvem até mesmo frases como “eu sei onde você mora” e “você vai ter que aguentar as consequências”, como relatam os idealizadores das páginas.

“Teve ameaça de rastrear meu endereço pelo IP, outro jurou que nós apanharíamos no estádio. Teve quem nos desafiasse a mostrar o rosto e o nome, um que escreveu dizendo que sabia quem eu era, conhecia minha mãe. Teve até um que dizia ter acesso aos servidores da NET e que ia cortar minha conexão”, diz A.B, criadora da “Bambi Tricolor”.

A.B é a favor do fim das manifestações racistas, machistas e homofóbicas no Morumbi, além da adoção do personagem Bambi, da Disney, como um dos mascotes do tricolor.

“Se o São Paulo adotasse o mascote escancarando que é um clube que se reconhece como ‘gay’, no sentido de ser ciente e aberto à diversidade, seria histórico e maravilhoso”, opina.

Ela também diz que não vê, a curto prazo, a passagem dos movimentos virtuais para as arquibancadas, mas afirma ter esperança de que tenha sido plantada uma “semente” para um futuro diferente.

“Não vejo a possibilidade disso acontecer sem que a segurança dos envolvidos esteja de alguma forma ameaçada. Mas quem sabe esse movimento que começou no mundo virtual não seja uma sementinha pra algo maior, futuro, nos estádios? Torço demais por isso”, ressalta.

“A diversidade está aí”

O movimento surge em meio a um cenário de apoio aos homossexuais no esporte. Recentemente, atletas como o jogador de futebol Robbie Roggers e o de basquete Jason Collins saíram do armário e ganharam apoio público, até mesmo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Na Alemanha, já há cartilha para encorajar jogadores a assumirem a preferência sexual. No Brasil, o 2º Pesquisão do UOL Esporte aponta que a maioria dos jogadores conhece algum atleta gay.

Os criadores das páginas dizem gastar bastante tempo mediando discussões e postando notícias. Notícias envolvendo a luta pelos direitos dos homossexuais, por exemplo, costumam render vários “curtir”, “compartilhar” e comentários. Segundo a socióloga Kátia Azambuja, membro da “Grêmio Queer”, isso só mostra a força do movimento anti-preconceito que vem conquistando o Facebook.

“É uma demonstração que ainda existem pessoas dispostas a lutar por seus direitos e mostrar que a diversidade está aí e deve ser aceita e respeitada pela sociedade. E espero que sirva para unir as torcidas e mostrar que a rivalidade está dentro das quatro linhas e que nas arquibancadas e nas ruas”, diz.

Outro passo importante, segundo os idealizadores, é levar a luta anti-preconceito aos clubes. Algo que vem sendo difícil, já que as equipes não têm demonstrado interesse em ligar-se e mostrar apoio à luta dos torcedores.

“Gostaríamos, sim, de um posicionamento, para também mostrar à sociedade de que lado o Palmeiras está”, conta a estudante Thais Nozue, da “Palmeiras Livre”.

“Lamento que os dirigentes não consigam sequer acenar positivamente para um movimento que, além de declarar seu amor por futebol e pelo clube, pede mais respeito e menos violência”, argumenta A.B, da “Bambi Tricolor”.

As exceções são os rivais Atlético-MG e Cruzeiro, que demonstraram apoio. “Sou totalmente a favor de qualquer manifestação. Se juntaram as duas torcidas rivais, sou ainda mais a favor”, disse Eduardo Maluf, diretor do alvinegro, aoUOL Esporte. Por meio de sua assessoria, a diretoria celeste disse também concordar e apoiar as atitudes e ações dos criadores das páginas no Facebook.

O próximo objetivo é conseguir a união entre os criadores de páginas anti-preconceito. Por enquanto, há apenas conversas virtuais, mas todos dizem esperar uma aproximação maior, com intercâmbio de ideias e planejamento de ações conjuntas, dando ainda mais força ao movimento.

“Gostaria de ter contato com o pessoal das outras páginas, principalmente a do ‘Galo Queer’, pois foram vanguarda nesse movimento”, diz Kátia, da irmã “Grêmio Queer”.

CRIADORA DA “BAMBI TRICOLOR” VIRA ATÉ PSICÓLOGA DE INTERNAUTA

  • Reprodução/Facebook“Tive conversas impressionantes, bacanas mesmo. Em uma dessas conversas, um adolescente acabou dizendo que ele mesmo não era homofóbico, que ele acreditava ser bissexual, mas que ninguém no círculo de amizade dele sabia. Além de pedir pra eu jamais dizer isso publicamente, ele acabou reconhecendo que o desconforto que ele sentia sobre a página e o nome Bambi tinha a ver com aquele momento delicado da vida dele. Só essa conversa já valeu ter feito a ‘Bambi Tricolor'”, conta a criadora da página.

MEMBRO DE “GRÊMIO QUEER” RECLAMA DE ABUSOS NOS ESTÁDIOS

  • Reprodução/Facebook“O machismo no estádio é grande. Normalmente eu ia aos jogos com amigas mulheres e sempre acontecia uma passada de mão, um puxão de cabelo e alguma piadinha”, relata a socióloga Kátia Azambuja, que completa: “Enquanto os homens não respeitarem as mulheres, e seguirem nos considerando seres de 2° classe ou meros objetos sexuais, nunca viveremos numa sociedade igualitária”

“PALMEIRAS LIVRE” APROVA CORAGEM DE ATLETAS QUE SAÍRAM DO ARMÁRIO

  • Reprodução/Facebook“Acho ótimo. Isso mostra o quanto a orientação sexual do atleta não interfere no seu desempenho. Aguardo, ansiosamente, o dia em que a orientação sexual de alguém e a exposição dessa questão na mídia não seja mais encarada como um posicionamento político e sim algo natural do ser humano”, opina Thais Nozue

“GALO QUEER” DIZ QUE NÃO ESPERAVA VIRAR HIT NA INTERNET

  • Reprodução/Facebook“Fiz a página apenas para divulgar entre meus amigos, pensando que algum dia poderíamos nos organizar pra fazer algo maior. Mas em três dias a página foi curtida por 3 mil pessoas. Acho que atendemos a uma demanda silenciosa. Pelo visto, muita gente que gosta de futebol já queria dar esse grito contra o machismo, a homofobia e a intolerância”, conta a criadora da página “Galo Queer”

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