Grupos protestam pelo país contra deputado federal Marco Feliciano 6

Manifestantes de São Paulo protestam contra a permanência do deputado Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (Foto: Cris Faga/Estadão Conteúdo)

Manifestantes de São Paulo protestam contra a permanência do deputado Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (Foto: Cris Faga/Estadão Conteúdo)

Milhares de pessoas saíram às ruas na tarde deste sábado (9) em várias cidades do Brasil para protestar contra a eleição do deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

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Em São Paulo, a concentração foi marcada para as 14h na esquina entre a Avenida Paulista e a Rua da Consolação, na região central de São Paulo. Munidos de cartazes, os manifestantes caminham pela Rua da Consolação, ocupando faixas da rua no sentido centro.

Em Brasília, a manifestação começou na Rodoviária do Plano Piloto, organizada em redes sociais por membros dos movimentos LGBT e da Federação Umbanda e Candomblé de Brasília e Entorno. Os manifestantes chegaram a interditar quatro faixas do Eixo Monumental.

Houve manifestação, também, em Curitiba (PR).

Grupo do Espírito Santo protesta contra decisão dos deputados da Comissão de Direitos Humanos(Foto: Aubrey Effgen/VC no ESTV)

Grupo do Espírito Santo protesta contra decisão dos deputados da Comissão de Direitos Humanos
(Foto: Aubrey Effgen/VC no ESTV)

Já em Vitória (ES), mais de 200 pessoas se reuniram na Praça do Papa para protestar contra a nomeação do novo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

De acordo com o organizador do evento no Espírito Santo, Guilherme Rebelo, a mobilização é nacional e começou pelas redes sociais. “O pastor não é a pessoa mais indicada para reivindicar o direitos humanos, ele é um dos primeiros a fazer discursos homofóbicos e racistas. Queremos sensibilizar a pessoas que desconhecem esse fato”, explicou Rebelo.

O organizador disse ainda que o grupo vai sair em caminhada até a Assembleia Legislativa com cartazes. A ideia é enviar uma nota de repúdio pela nomeação do parlamentar à Comissão de Direitos Humanos do Espírito Santo para que chegue a Câmara dos Deputados em Brasília.

Eleição criticada

A escolha de Feliciano para presidir a comissão gerou protestos de entidades de direitos humanos e de parlamentares. O deputado é alvo de dois processos no Supremo Tribunal Federal: um inqúerito que o acusa de homofobia e uma ação penal na qual é denunciado por estelionato. A defesa do parlamentar nega as duas acusações.

Pastor da igreja Assembleia de Deus, Feliciano causou revolta em 2011 por causa de mensagens publicadas no twitter. “Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids, fome… Etc.”, escreveu na época. Ele também publicou que “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime e à rejeição.”

Para Rafael Moreira, diretor da Federação, que organizou o protesto em Brasília, Feliciano não pode presidir comissão que atende direitos de minorias.

“Você quer uma pessoa dessas para atender o meu interesse ou dos LGBT? Se ele permanecer na presidência da comissão, a gente vai provar que a comissão é do povo, não dele. Como a gente dá um voto de confiança a um cara que ataca negros, gays e ligados às religiões de matrizes africanas?”, disse Moreira.

A publicitária Malu Rodrigues vê incoerência na eleição do pastor.

“É uma incoerência absurda ele ser eleito para presidir essa comissão. Ele é claramente racista e homofóbico. Não tem nada a ver com ele ser evangélico ou pastor, mas com ele mesmo”, disse.

Participando pela primeira vez de uma manifestação, a advogada Fabiane soube por meio de redes sociais da manifestação. Ela afirmou estar descontente com o cenário político brasileiro, mas disse ver a escolha de Feliciano para o cargo como “a gota d’água”.

“Eu me senti ultrajada. Não me sinto representada por uma presidência que fala de direitos humanos olhando só para uma parte. Que não representa as minorias, que na verdade são a maioria no país.”

Em Fortaleza, houve protesto de um grupo com cartazes e faixas. O ato de repúdio à nomeação do deputado teve concentração, às 14 horas, no aterro da Praia de Iracema e seguiu até o Jardim Japonês, no Meireles.

Grupo protesta contra Marco Feliciano em Fortaleza(Foto: Pedro Marques/Arquivo Pessoal)

Grupo protesta contra Marco Feliciano em Fortaleza
(Foto: Pedro Marques/Arquivo Pessoal)

De acordo com um dos organizadores do evento, Michell Barros, cerca de 400 pessoas estiveram presentes no protesto. O estudante de teatro criou o evento nas redes sociais. “Eu vi o exemplo do pessoal de São Paulo e resolvi criar a página e convidar a pessoas em Fortaleza”. Na página do ato, 2.865 pessoas haviam confirmado presença.

Um grupo de baianos também protestou na tarde deste domingo (10/3), contra a eleição do deputado Pastor Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

A ação aconteceu em um dos principais pontos turísticos de Salvador, o Farol da Barra. De acordo com informações dos organizadores, cerca de 600 pessoas gritaram palavras de ordem e levantam cartazes com dizeres como “Fora Feliciano”, “Feliciano, respeite os seres humanos”, “Mais liberdade, Menos Feliciano”, “Nós somos agora a sua maldição” e outros.

O encontro foi organizado através de redes sociais e por volta das 17h25, o grupo seguiu sentido Ondina e deve parar nas proximidades da estátua do Cristo. Ao chegar no local, por volta das 18h, o grupo vestiu a estátua com a bandeira gay.  O Grupo Gay da Bahia estava presente no local.

O ator Lelo Filho da Companhia Baiana de Patifaria, esteve no protesto e disse que não quer o deputado representando a Comissão. “O meu pensamento é o mesmo das muitas pessoas que estão no protesto. Independente da religião, ele [o deputado] é a pessoa mais equivocada para assumir a Comissão de Direitos Humanos. O discurso dele sobre negros, África e gay vai na contramão de todas as lutas de classe no país. Esse protesto é completamente legítimo, e isso mostra o quanto a população está insatisfeita com essa escolha”.

Baianos realizam protesto contra o deputado federal Marco Feliciano (Foto: Carol Morena / Arquivo Pessoal)

Baianos realizam protesto contra o deputado federal Marco Feliciano (Foto: Carol Morena / Arquivo Pessoal)

protesto

Bullying e homofobia: Pais de menino que se matou após ofensas dizem que pediram transferência de colégio Resposta

Mãe revoltada

Os pais do menino que se matou depois de ser vítima de bullying e homofobia em uma escola de Vitória na última sexta-feira (17) afirmam que já tinham pedido a transferência dele para outra unidade de ensino. Tudo aconteceu depois que o estudante foi humilhado, empurrado e xingado pelos colegas.


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A família alega que os abusos já tinham sido comunicados à direção da escola. “Eu não tinha denunciado a situação desse meu filho, mas de outro. O Conselho Tutelar também sabia. Eu pedi o remanejamento dos meus três filhos, mas disponibilizaram vagas em escolas diferentes”, lamentou a mãe, Joselia Ferreira de Jesus.    
 



”Essa mãe falou conosco da situação dos três filhos e nós disponibilizamos três escolas, mas ela não efetivou a transferência”, argumentou a secretária de Educação, Vânia Carvalho de Araújo.

O Caso

Na sexta-feira, véspera de Carnaval, Roliver de Jesus foi para a escola em clima de festa, mas acabou se tornando alvo de piadas. Uma colega do menino disse que crianças e adolescentes fizeram uma roda ao redor do menino, que foi humilhado e empurrado.

“Eles o chamaram de gay, bicha, gordinho… Às vezes ele ia embora chorando”, comentou.

A vítima deixou uma carta pedindo desculpas pelo suicídio e dizendo que não entendia porque era alvo de tantas humilhações. O menino se enforcou com o cinto da mãe e foi encontrado já desacordado pelo pai. Roliver chegou a ser socorrido, mas não resistiu.

Na escola onde Roliver estudava, outras estudantes sofrem com a violência psicológica. A mãe de uma aluna contou que a filha de 10 anos é vítima de bullying e que perdeu a conta de quantas vezes levou a situação ao conhecimento da direção. “Eu tenho coragem e falei com a diretora, mas ela não resolveu nada até hoje”, acrescentou. 

A imagem que ficou para Karen Raquel Tenente, amiga do estudante, é de um menino alegre e sonhador. Para ela, ainda é difícil acreditar no que aconteceu. “Ele dizia que queria ser um grande artista”, finalizou.

Fonte: Folha Vitória

Em entrevista, Jean Wyllys critica Dilma por suspensão do kit Escola sem Homofobia Resposta

Segundo deputado federal assumidamente homossexual, Jean Wyllys (PSOL-RJ) criticou a presidenta Dilma Rousseff (PT) por ter cedido à “pressão chantagista” da bancada fundamentalista e ter recuado na proposta do governo de distribuir kit Escola sem Homofobia. “Lamentei que a presidenta Dilma tenha cedido a esse tipo de pressão chantagista feita pela bancada da direita religiosa. O episódio só serviu para o desgaste do governo porque há uma pressão popular pelas explicações do ministro Antonio Palocci”, disse o ex-participante do programa Big Brother Brasil.


Em entrevista para “A Gazeta”, na última terça-feira (31/05), ele também disparou contra o senador Magno Malta (PR-ES) e os deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Anthony Garotinho (PR-RJ), que são contrários às causas defendidas pela comunidade LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros). “Acho um discurso hipócrita que só serve para tirar dividendos eleitorais”.

Na próxima sexta-feira (10/06), Jean Wyllys estará em Vitória (ES) para participar do Seminário de Direito Homoafetivo, promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil seccional capixaba (OAB-ES). Ele será um dos palestrantes do evento.

O que o senhor achou do recuo do governo na distribuição do kit aEscola sem Homofobia?


Lamentei que a presidenta Dilma tenha cedido a esse tipo pressão chantagista feita pela bancada da direita religiosa. O ministro Palocci é uma pessoa pública e tem que se explicar. Essa blindagem, essa vontade deliberada do governo federal de blindar Palocci só serviu para desgastar, porque a moeda de troca foi uma política pública de educação importantíssima, que já havia sido aprovada pelo Ministério da Educação e já havia sido apresentada numa audiência pública no ano passado no Senado. O episódio só serviu para o desgaste do governo porque há uma pressão popular pelas explicações de Palocci.

Em seu site, o senhor até pediu que a comunidade não vote mais em Dilma…


Não foi dessa maneira que eu pedi. O que eu disse no meu site, na integra, é que essas próprias forças da direita conservadora religiosa que desmoralizaram a presidenta na época das eleições, numa campanha subterrânea de difamação, essas forças apresentaram a conta hoje por ter apoiado ela. O acordo naquela época foi: ou a senhora cede em relação às questões da legalização do aborto e dos direitos de homossexuais ou nós não apoiamos a senhora nas eleições e não barramos a campanha subterrânea que vem sendo feita. Naquele momento ela cedeu. A campanha foi barrada e eles apresentaram a conta agora para ela. O que eu disse foi que, já que eles apresentaram a conta, os LGBTs que votaram nela e que entraram nas redes sociais em defesa sistemática dela contra a campanha difamatória deveriam apresentar a sua conta. E a conta que o LGBT pode apresentar neste momento é nas próximas eleições não votar, porque esse é o nosso instrumento de pressão numa democracia. Só isso. A Dilma não pode negociar uma política pública tão importante para a comunidade desta maneira. Não havia justificativa para ela suspender o projeto. As justificativas foram sendo inventadas. Depois ela dizer que é uma questão de costumes, que o governo tem o direito de tratar das questões de costumes. Não é questão de costumes, é questão de assassinatos, de uma proporção de 200 mortes por ano. Assassinatos de homossexuais não é uma questão de costumes.

Qual o caminho para acabar com a violência e o preconceito contra homossexuais no Brasil?


O caminho é o da educação e o da conquista dos direitos. São os dois caminhos possíveis. A conquista de direitos aqui no Congresso Nacional, ou seja, assegurar alguns direitos como no projeto de lei 122, que combate a discriminação por orientação sexual, altera a lei do racismo no sentido de incluir as discriminações por orientação sexual; assegurar o direito ao casamento civil, que é para poder combater a desigualdade no plano jurídico, é importante isso principalmente depois da decisão do STF. E o outro caminho são políticas de educação que façam das novas gerações mais solidárias, conscientes e respeitosas das diferenças culturais e das diferentes sexualidades humanas que existem.

Como o senhor avalia o discurso de Bolsonaro, Garotinho e Magno Malta, que têm uma postura contrária à causa LGBT?


Acho um discurso hipócrita que só serve para tirar dividendos eleitorais na medida em que joga com os preconceitos da população e com o senso comum, que deveria ser desconstruído. É um discurso lamentável porque é um discurso de ódio, que fere os princípios constitucionais. O discurso dos três é de incitação ao ódio. É um discurso eleitoreiro porque quer jogar com os preconceitos que a população conserva.

O Supremo reconheceu a união estável para casais do mesmo sexo, mas no Congresso há resistência em aprovar projeto de lei que criminaliza a homofobia. Como o senhor vê isso?


Ainda bem que nós temos estes dois Poderes: o Judiciário dando pareceres favoráveis à união estável, a adoção de crianças; e o Executivo com políticas públicas importantes para a comunidade LGBT. Porque se dependesse do Congresso Nacional, a comunidade LGBT não só não teria direitos como perderia alguns dos que gozam hoje, como é, por exemplo, o direito de liberdade de associação. Se deixar que o Congresso defina os rumos da comunidade, essa maioria aqui que é de deputados conservadores, reacionários e de um dogmatismo e de um fundamentalismo religioso absurdo, os homossexuais sequer teriam direito de livre associação. Se deixar que essa direita religiosa avance no Brasil, nós vamos penalizar a homossexualidade, vai tornar a homossexualidade crime pelo andar da carruagem. E os porta-vozes desse atraso, dessa ignorância, desse obscurantismo, desse espírito anti-republicano são o senador Magno Malta e os deputados Garotinho e Bolsonaro.

O senhor sofre preconceito por parte de colegas de plenário por assumir sua homossexualidade?


Não. Pelo menos na frente ninguém nunca me discriminou.

Quem é Jean Wyllys


Começo. Jean Wyllys tem uma história de envolvimento com trabalhos em favor da justiça social e das liberdades civis, que remonta à sua adolescência, quando pertencia às pastorais da Juventude Estudantil e da Juventude do Meio Popular, e atuava nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica.


LGBT. Parceiro dos movimentos LGBT, negro e de mulheres, ele participa de ações que combatem a homofobia, a intolerância e o fundamentalismo religiosos, o trabalho escravo, a exploração sexual de crianças e adolescentes, e as violências contra a mulher.


Formação. Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal da Bahia; mestrado em Letras e Linguísticas, pela mesma instituição.


Livros. É escritor, com três livros publicados (“Aflitos”, “Ainda lembro” e “Tudo ao mesmo tempo agora”); professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing e Universidade Veiga de Almeida, ambas no Rio. Foi vencedor do programa de reality-show Big Brother Brasil, em 2005.


A barganha com o kit Escola sem Homofobia


Pressão. Pressionada pela bancada religiosa no Congresso, a presidente Dilma Rousseff mandou suspender, no último dia 25, a produção e a distribuição de vídeos e cartilhas contra a homofobia, organizado pelo Ministério da Educação.

Troca. Diante da decisão de Dilma, o deputado Garotinho afirmou que seriam suspensas as medidas anunciadas pelas bancadas religiosas em protesto contra o kit. Os parlamentares haviam decidido colaborar com a convocação do ministro Antonio Palocci para que ele explicasse sua evolução patrimonial.


Elogios. Crítico ferrenho do kit, o deputado Bolsonaro (foto) comentou a decisão. “Veio bastante tarde, mas vou ser obrigado a elogiar a Dilma”. Ele afirmou que o material foi totalmente confeccionado por grupos LGBT. “Qual pai tem orgulho de ter um filho gay? É um demagogo, quem já tem que vai dizer que tem. Comigo, no começo, como já falei, moleque que vem com comportamento delicado dava-lhe uma porrada logo no começo pra mudar o caminho dele e acabou. É a minha maneira de ser. Se não gostar que se exploda”, disse.


Não viu filmes. Um dia depois de suspender o kit, Dilma assume que nem viu os filmes. Ela explicou que o material entregue ao MEC não atende ao que foi exigido. “Não concordo com esse kit. Porque eu não acho que faça a defesa de práticas não homofóbicas”. E acrescentou: “Não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opões sexuais. Não podemos intervir na vida privada das pessoas”.


“Terceiro sexo”. O senador Magno Malta diz que o Senado não pode criar o “terceiro sexo”. “O Supremo prestou um desserviço à sociedade e está longe de ser o supra sumo da verdade. Deus criou o macho e a fêmea, não é o Congresso Nacional que vai criar o terceiro sexo”.


Leia trecho do livro Ainda Lembro, de Jean Wyllys

Parece óbvio e também oportunista que um escritor, ao fim de um confinamento de oitenta dias numa casa, com um grupo de pessoas que diminuía a cada semana, escreva um livro sobre essa experiência. Mas o que pode um escritor fazer de suas experiências a não ser transformá-las em palavras e, depois, em livro? Sim, sou escritor, com livro publicado e tudo (em minha opinião, escritor é todo aquele que escreve, mesmo que seja para encher gavetas empoeiradas; se eu considerar a opinião daqueles para os quais escritor é apenas quem já publicou, continuo sendo um escritor). E, como todo escritor – embora alguns finjam que não -, quero ser lido, circular, estar nas prateleiras das livrarias; quero ser Paulo Coelho. Como bem diz Antônio Torres, em Um táxi para Viena d’Áustria, o escritor é um artista, e artista é igual a puta do cais do porto: tem de estar na janela para aparecer.


Pensei muito antes de aceitar o convite para escrever este livro, que mistura memórias do confinamento na casa e de minha vida em Alagoinhas e Salvador – uma certa reflexão sobre a existência e as voltas que o mundo dá. Primeiro, pensei na pressa com que o faria e no fato de que ela, a pressa, sempre conspira contra a perfeição (mas quem é e o que é a perfeição?): queria fazer um livro que não virasse papel para embrulhar peixe no dia seguinte; espero que tenha conseguido. Em seguida, pensei nas críticas ou na indiferença dos que definem o que é boa ou má literatura (para mim, eles deveriam se perguntar quando é literatura). Pensei, então, que alguém que venceu a fome e a pobreza, que sobreviveu às chacotas e à violência física contra gays, e que conquistou um lugar ao sol depois de um confinamento de oitenta dias, também há de sobreviver à maledicência, à arrogância, à hipocrisia e ao cinismo de intelectuais não premiados pela vida. Aceitei, portanto, escrever este livro. Como diz o povo, ladram os cães e a caravana segue.


Quando me perguntam por que quero escrever, costumo citar uma fala do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, que também serviu para responder por que participei do Big Brother Brasil. No momento, ela serve também para responder por que aceitei escrever este livro: “Para chatear os imbecis; para não ser aplaudido depois de seqüência dó de peito; para viver à beira do abismo; para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público; para que conhecidos e desconhecidos se deliciem; para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo porque, de outro jeito, a vida não vale a pena; para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito”.


A idéia de fazer este livro surgiu depois que o apresentador Luciano Huck, muito gentilmente, pediu-me que escrevesse um texto para ser lido em seu programa, sobre os meus anseios e as impressões após a saída da casa. O texto emocionou os presentes, em especial a apresentadora Ana Maria Braga e os atores Christiane Torloni e Edson Celulari. Edson chegou a elogiar a minha lucidez e, em seguida, citar o poeta Fernando Pessoa. O texto chamou a atenção dos editores, que consideraram a possibilidade de as pessoas que torceram por mim (e até das que não torceram) estarem interessadas em ler exatamente o que eu tenho a dizer sobre aquela experiência.


Portanto, aqui estou eu contando e refletindo da maneira mais honesta possível; e, ao mesmo tempo, tentando construir beleza e emoções com palavras; em síntese, aqui estou eu tentando fazer literatura, seja ela o que for ou quando for. Escrever é imperativo em minha vida, embora eu prefira viver, já que a vida é sempre mais bonita, mais feia ou mais intensa que qualquer representação literária. Ao contrário de Clarice Lispector, que afirmava só estar viva quando escrevia, adoro a vida propriamente dita, louca às vezes, e com o risco de ser breve, pois, quando escrevo, sempre morro um pouco, porque acabo cedendo parte de meu sopro vital na construção de outras vidas em palavras.