Em tempos de homofobia na bola, Alemanha é o arco-íris do futebol Resposta

Fotos: Getty Images/Arte: Gabriel Lucki/ESPN.com.br

Fotos: Getty Images/Arte: Gabriel Lucki/ESPN.com.br

Uma mudança cultural extrema em um período de sete décadas. De um país nazista, intolerante e palco de uma das maiores atrocidades da humanidade, a Alemanha hoje vive uma realidade completamente diferente. Com uma população imigrante cada vez maior, o território germânico é também referência na proteção quanto ao direito dos homossexuais, e o futebol é uma plataforma que reflete este cenário.

Hitzlsperger assumiu a homossexualidade após a aposentadoria

Hitzlsperger assumiu a homossexualidade após a aposentadoria

 

“Eu sou gay, e isso é bom.”

A frase parece algo isolado na luta pela igualdade entre pessoas de diferentes orientações sexuais. No entanto, ela teve grande impacto, já que foi dita por Klaus Wowereit, do Partido Social-Democrata da Alemanha, durante a campanha eleitoral.

Isso esteve longe de interferir negativamente em sua candidatura a prefeito de Berlim, capital alemã, tanto que foi eleito para o cargo em 2001 e reeleito em 2006. Atualmente, continua na posição e é um dos nomes cotados a substituir Angela Merkel como chanceler do país.

Corny Littmann presidiu o St Pauli entre 2002 e 2010

Corny Littmann presidiu o St Pauli entre 2002 e 2010

Wowereit não é o único neste sentido. Afinal, muitos políticos já assumiram publicamente a homossexualidade no país europeu. Entre eles estão Guido Westerwelle, ex-ministro de Relações Exteriores, e Barbara Hendricks, que responde pela pasta de Meio Ambiente desde dezembro de 2013.

Uli Hoeness, então presidente do Bayern, Merkel e Rauball, presidente do Dortmund e da Liga Alemã de Futebol, durante a campanha 'Siga o seu caminho'

Uli Hoeness, então presidente do Bayern, Merkel e Rauball, presidente do Dortmund e da Liga Alemã de Futebol, durante a campanha ‘Siga o seu caminho’

A polícia é outro departamento que mostra estar um passo à frente. Afinal, em 1995, foi criada a Vespol, Associação de Policiais Gays e Lésbicas que passou a combater os problemas dos homossexuais dentro da instituição no país.

“Tenho que ser um ator todo dia”

Se a homossexualidade deixou de ser um tabu na política e na sociedade em geral, o futebol germânico também caminha a passos largos para ser outra plataforma de reconhecimento de igualdade. E os últimos três anos formam um período importante para o tema.

Na terceira rodada do Campeonato Alemão de 2012/2013, em setembro de 2012, todos os clubes entraram em campo sem patrocínio em suas camisas. No lugar das propagandas com imagens de empresas aparecia um logo com as palavras “Geh Deinen Weg” (em português, Siga Seu Próprio Caminho.

A campanha, que no lançamento juntou o então presidente do Bayern de Munique, Uli Hoeness, e o presidente do Borussia Dortmund e da Bundesliga, Reinhard Rauball, contou com a participação da chanceler e foi motivada após um atleta – não revelado – dar uma entrevista à revista “Fluter” que comoveu o país.

“O preço que pago por viver meu sonho como um jogador da Bundesliga é alto. Eu tenho que ser um ator todo dia e entrar em autonegação”, disse o jogador à publicação.

Por sua vez, Merkel posicionou-se prometendo todas as condições para o desconhecido atleta ter uma vida normal. “Você não precisa ter medo. Eu sou da opinião que todo mundo que tem força e coragem [de assumir que é homossexual] deveria saber que nós vivemos em um estado no qual ele essencialmente não tem o que temer. Essa é minha declaração política.”

Neste ano, o assunto ganhou proporções maiores em janeiro, quando o ex-jogador Thomas Hitzlsperger, com passagens por Stuttgart, Aston Vila, Lazio e seleção alemã, assumiu a homossexualidade. “Senti que, agora, após minha aposentadoria, o momento havia chegado. Falo porque quero impulsionar a discussão sobre o tema no esporte profissional”, disse ao jornal do país “Die Zeit”, revelando sua orientação sexual.

A decisão foi muito elogiada tanto por personalidades do futebol como também por políticos. “Durante seus anos na seleção alemã, ele foi sempre um exemplo, porque teve o máximo respeito. Agora esse respeito se faz ainda maior”, declarou o presidente da Federação Alemã de futebol, Wolfgang Niersbach.

Outro bom exemplo da luta contra a homofobia dentro do futebol vem de longa data. O St.Pauli, da cidade de Hamburgo, é uma equipe conhecida no mundo inteiro pelas suas plataformas contra racismo, fascismo e sexismo e já teve um presidente, Corny Littmann, assumidamente gay entre 2002 e 2010.

No vôlei de praia, os campeões mundiais Julius Brink e Jonas Reckermann também deram sua contribuição na luta contra a homofobia ao posarem para uma foto se beijando. Ambos são heterossexuais e casados.

Como toda regra tem uma exceção, um fato lamentável ocorreu na Allianz Arena durante o duelo de volta entre Bayern de Munique e Arsenal, pelas oitavas de final da Uefa Champions League. Alguns torcedores ergueram uma bandeira com conteúdo homofóbico contra Mesut Ozil. Porém, a Uefa já aplicou uma punição. Vale lembrar que, semanas antes, no mesmo estádio, uma faixa com os dizeres “futebol é tudo, inclusive gay” fora erguida.

Ainda há muito a se fazer

Apesar de o tabu parecer algo execrado em solo germânico, os direitos ainda rendem discussões na Alemanha. Em fevereiro, os ativistas gays lamentaram a rejeição por parte da Corte Constitucional da Alemanha da liberação para que casais do mesmo sexo adotassem uma criança.

Atualmente, um alemão homossexual pode adotar uma criança e só depois disso viver conjuntamente a alguém. Isto é, após um casal se unir, ele não pode acolher um filho, da mesma forma que dois homens ou duas mulheres podem até viver juntos(as), porém, não têm a permissão para se casarem.

Ex-ministro de Relações Exteriores, Guido Westerwelle também é homossexual

Ex-ministro de Relações Exteriores, Guido Westerwelle também é homossexual

“A Alemanha pode ser considerada uma referência em relação à repressão na proteção dos direitos dos homossexuais. Porém, ela ainda não reconhece todos os direitos”, disse ao ESPN.com.br a advogada especializada em direitos homoafetivos Maria Berenice Dias. “Lá, existe em lei a criminalização de quem infringe a lei que protege o homossexual. Recentemente, o país até chegou a oferecer asilo aos gays e lésbicas discriminados na Rússia. O [presidente Vladimir] Putin não gostou e falou que a Alemanha não tinha esse direito”, explicou.

Embora ainda restem esses dois direitos a serem conquistados, é inegável que a Alemanha é um dos lugares mais preparados no mundo a receberem a população gay. Segundo uma pesquisa de 2013 do instituto Pew Research Center, 87% das pessoas no país acham que a socidade deve aceitar a homossexualidade. Apenas a Espanha, com um porcento a mais, fica à frente. Para outros outros gigantes que jogarão a Copa do Mundo, como Brasil (60%), Argentina (74%) e França (77%), os alemães levam boa vantagem.

Confira os direitos dos homossexuais na Alemanha:

Direito à atividade legal a homossexuais (sim)

Leis antidiscriminatórias no emprego (sim)

Leis antidiscriminatórias na disponibilização de bens e serviços (sim)

Leis antidiscriminatórias em todas as outras áreas (sim)

Casamento entre pessoas do mesmo sexo (não)

Reconhecimento de casais do mesmo sexo (sim)

Adoção de uma criança por um casal do mesmo sexo, desde que o pai/mãe já tivessem a guarda do filho(a) antes do relacionamento homossexual (sim)

Adoção conjunta por casais do mesmo sexo (não)

Homens e mulheres gays no serviço militar (sim)

Direito de mudar de sexo (sim)

Direito de lésbicas engravidarem por inseminação artificial (sim)

Uso de barriga de aluguel comercialmente por casais de homens homossexuais (não)

Mais que homossexuais, país acolhe o diferente

A relação com a homossexualidade é um reflexo de como a Alemanha se tornou um território aberto a diferenças. Afinal, após o fim da Segunda Guerra Mundial e o colapso do nazismo, o país foi reconstruído pelos imigrantes que se instalaram a partir da década de 50.

Hoje, cerca de dez milhões de imigrantes vivem em solo germânico, o que representa 11,5% dos 86,7 milhões de habitantes – vale lembrar que o número não engloba descendentes de estrangeiros, mas apenas pessoas que nasceram em outros lugares. Além disso, segundo dados do Ministério do Interior, 1,08 milhão de pessoas imigraram para a Alemanha em 2012, um número 13% maior que no ano anterior e o maior desde 1995.

“Na segunda metade do século 20, há um processo de imigração rápido, um fenômeno europeu que atinge a Alemanha, que sofria com a falta de mão de obra. Neste contexto, os movimentos sociais entraram para evitar a xenofobia. A nova Alemanha, criada de 1949 para cá, tem uma mensagem de grande nível”, declarou ao ESPN.com.br o professor titular de História e membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Estevão Chaves de Rezende Martins.

Prova desta realidade miscigenada é a própria seleção alemã, na qual Jerome Boateng, filho de pai ganês, é titular, assim como Mesut Ozil, de origem turca. O caso é o mesmo do volante Ilkay Gundogan. Já os atacantes Lukas Podolski e Miroslv Klose nasceram na Polônia. Sami Khedira, com raízes tunisianas, é também mais um exemplo de que a Alemanha superou o seu passado e é um país que hoje respeita sua população. Não importando a origem ou a orientação sexual.

Fonte: ESPN Brasil

Tribunal alemão ordena igualdade fiscal para casais do mesmo sexo 1

Corte alemã determinou igualdade fiscal para casais homossexuais (Foto: Christof Stache/AP)

Corte alemã determinou igualdade fiscal para
casais homossexuais (Foto: Christof Stache/AP)

O Tribunal Constitucional da Alemanha, principal instância judicial do país, determinou nesta quinta-feira (6/6) a equiparação do regime fiscal do casais do mesmo sexo com o dos heterossexuais.

A corte de Karlsruhe (oeste) considerou inconstitucional o tratamento fiscal diferente baseado na orientação sexual.

Desde 2001, os casais homossexuais podem oficializar sua união na Alemanha com a assinatura de um “contrato de comunidade de vida”.

O contrato concede direitos similares aos de um casamento, exceto na área fiscal e para adoção.

Com a determinação, a lei deve ser alterada de modo retroativo até 2001 na área fiscal.

Os casamentos gays não existem na Alemanha, já que para isto seria necessária uma alteração na Lei Fundamental de 1949, que atua como Constituição do país.

De todos os partidos representados no Bundestag – Câmara Baixa do Parlamento alemão -, apenas os conservadores da chanceler Angela Merkel (CDU e seu braço bávaro CSU) eram contrários ao alinhamento do regime fiscal dos casais do mesmo sexo com os casais heterossexuais.

1942: Nasce o diretor e ativista gay Rosa von Praunheim Resposta

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Em 25 de novembro (já estamos em dezembro, mas nunca é tarde para lembrar) de 1942 nasce em Riga, Letônia, o cineasta Rosa von Praunheim, principal ativista do movimento de libertação homossexual alemão.

Muito teve de ser feito para que pessoas, públicas ou não, não temessem assumir abertamente sua homossexualidade. Na Alemanha, um dos principais responsáveis pela atual liberdade é o cineasta Rosa von Praunheim.

“Um dos cineastas gays mais produtivos do planeta”

Rosa von Praunheim, cujo verdadeiro nome é Holger Mischwitsky, nasceu em 25 de novembro de 1942, em Riga, Letônia, durante a ocupação alemã. Seu nome artístico advém do “triângulo rosa” dos homossexuais nos campos de concentração nazistas, e de Praunheim, bairro de Frankfurt onde cresceu.

Após abandonar o curso de pintura da Escola Superior das Artes, em Berlim, Von Praunheim iniciou sua carreira de cineasta, no final dos anos de 1960.

Em 40 anos de atividades, Von Praunheim dirigiu, entre documentários e filmes de ficção, cerca de 70 produções. Ele mesmo se considera “um dos cineastas gays mais produtivos do planeta”. Como ativista, o diretor provocou escândalo ao lançar seu semidocumentário Não é o homossexual que é perverso, mas a situação em que ele vive.

“Saiam dos banheiros, vão para as ruas”

Rosa von Praunheim sempre foi um provocador. “Saiam dos banheiros, vão para as ruas” era a mensagem do filme que acusava os gays de passividade política numa sociedade homofóbica, de se contentar com a triste vida de bares proibidos e sexo às escondidas em banheiros públicos. O filme foi lançado no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 1971. Durante sua transmissão pela TV pública ARD, em 1973, a televisão da Baviera saiu do ar.

Von Praunheim não atacava apenas a sociedade alemã, que somente no ano anterior anulara o parágrafo do Código Civil de 1872 que proibia relações sexuais entre o mesmo sexo. O principal alvo do diretor eram os próprios homossexuais.

Depois do filme de Von Praunheim que afirmava que “gays não querem ser gays, mas querem ter uma vida pequeno-burguesa e viver como cidadãos medianos, e que sua passividade política é agradecimento ao fato de não serem mortos”, cerca de 50 grupos ativistas gays foram criados no país.

Outing de personalidades

Durante os anos de 1980 e 1990, Von Praunheim dedicou-se ao combate à discriminação dos portadores de HIV. Em 1991, no auge da crise da doença, o cineasta provocou o furor de vários homossexuais por ter declarado, em programa da rede privada de televisão RTL, que dois dos principais apresentadores da televisão alemã, Alfred Biolek e Hape Kerkeling, eram gays e tinham a obrigação de se engajar na conscientização sobre a doença.

O argumento de Von Praunheim para o outing de personalidades gays foi: “Ser gay e lésbica não será uma questão de cunho privado enquanto formos expulsos, devido à nossa homossexualidade, de nossos empregos e moradias”.

Von Praunheim se dedicou desde cedo à difusão do sexo seguro, chamando até mesmo seus opositores de “assassinos” e angariando vários inimigos na cena homossexual, cujo estilo de vida combatia – um paradoxo, já que o próprio Von Praunheim se considera “promíscuo”, apesar de viver com seu companheiro Mike Shepard já há 30 anos.

“Certo, útil e necessário”

Oscilando entre o kitsch e o político, o trabalho cinematográfico de Von Praunheim trata de gays, divas, mulheres fortes, homossexuais corajosos, transexuais, estrelas pornô e temas como radicalismo de direita e luta contra a aids. Seus documentários, com certeza, são seu ponto forte. Seus filmes de baixo orçamento convencem e suas provocações recebem os mais diversos elogios. “Certo, útil e necessário”, afirma, por exemplo, o diárioFrankfurter Allgemeine Zeitung.

O provocador Von Praunheim não lutou somente pela liberdade sexual entre gays e lésbicas, mas por seu engajamento político e por sua solidariedade como cidadãos. “Lutamos por algo mais que 700 bares de sexo”, afirma um americano no filme Exército dos Amantes ou a Revolta dos Perversos (1979), sobre os movimentos de libertação nos EUA. O amor livre se impôs, a solidariedade não, reclama o diretor.

“Seis estudantes mortos”

Seu filme Seis estudantes mortos (2006) relata sua experiência como professor na Academia de Cinema e Televisão de Babelsberg. A película Minhas mães (2007) resgata o passado do diretor em Riga.

Somente em 2000 sua mãe confessou, aos 94 anos, que o diretor era adotado. Ela viveu com o filho os dez últimos anos de vida, até morrer em 2003. Após longas pesquisas, Von Praunheim descobriu que nasceu na Prisão Central de Riga e que sua mãe biológica faleceu num hospital psiquiátrico em 1946.

Eu sou minha própria mulher (1992), sobre a vida do travesti da antiga Alemanha Oriental Charlotte von Mahlsdorf; Bichas não mentem (2002), mostrando o engajamento político de gays em Berlim; e o documentário Homens, heróis, gays nazistas (2005), que trata do radicalismo de direita na cena homossexual, são outros sucessos do diretor.

Fonte: DW