Jean Wyllys ataca Moro e diz que homofobia elegeu Bolsonaro Resposta

Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

O deputado autoexilado, Jean Wyllys, foi recebido com chuva de pétalas de flores e protesto ao chegar à Casa do Alentejo, em Lisboa, local do último compromisso de uma agenda de dois dias em Portugal. Convidado para palestras pelo país, o político conversou com a Sputnik Brasil.

O autoexílio de Jean Wyllys, anunciado publicamente há um mês, já estava programado mesmo antes de Jair Bolsonaro ser eleito presidente do Brasil. Alvo de ameaças, o ex-deputado vive em Berlim, na Alemanha, atualmente. A opção pela Europa se deu, segundo Wyllys, por três “motivos práticos”. “Quando saí do país estava com passagens compradas para o meu recesso na Europa. Como as ameaças se intensificaram, aproveitei as férias para deixar o país. O segundo motivo foi que [os países] na América Latina têm uma proximidade muito maior com o Brasil, geográfica, e portanto a atuação de sicários e pessoas que poderiam fazer algum dano a minha vida seria muito mais fácil. Também quero dar continuidade aos meus estudos e havia um doutorado em Berlim que me interessava”.

O ex-deputado considera que as investigações sobre as ameaças que sofreu seguem vítimas de uma “homofobia institucional”. “Sérgio Moro assumiu faz pouco tempo. A negligência em relação às ameaças existia antes de ele ser ministro da Justiça. As instituições não investigam denúncias contra quem não goza de estima social. Discursos de figuras políticas como o atual presidente do Brasil, de autoridades religiosas como o pastor Silas Malafaia, justificam a violência contra essas pessoas e fazem com que as autoridades não façam nada. Então o descaso da Polícia Federal tem a ver mais com isso e menos com o Moro”.

Sobre o ministro, Jean Wyllys questiona. “O Moro não tem muita isenção em relação a mim. Sou oposição ao governo do qual ele faz parte. Aliás, eu acho estranhíssimo que ele, que conduziu Lula à prisão sem provas, tenha aceitado o convite para ser ministro da Justiça vindo de um candidato que se beneficiou da prisão de Lula. Acho que se ele fosse um homem com algum brio deveria sentir vergonha disso e não ter aceitado esse convite. Mas enfim, brio, honestidade intelectual e competência faltam muito a esse atual governo no Brasil”.

Passagem por Portugal

A visita de Jean Wyllys a Portugal veio depois do convite feito pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, uma das mais prestigiadas do país, para que o ex-deputado palestrasse em duas conferências abertas ao público.

Durante o primeiro evento, com foco em fake news, nesta terça-feira (26), em Coimbra, Jean Wyllys quase foi atingido por ovos jogados por manifestantes contrários à presença do ex-deputado. Do lado de fora da universidade, houve confusão entre apoiadores e opositores do político que se reuniram durante um ato convocado pelo Partido Nacional Renovador (PNR), da extrema direita de Portugal.

Já nesta quarta-feira (27), em Lisboa, o político participou de uma reunião com deputados no Parlamento português. Durante o encontro, Jean Wyllys classificou a manifestação em Coimbra como resultado da influência de radicais brasileiros em Portugal.

“A extrema direita aqui é patética, caricata, inexpressiva, mas está a serviço da extrema direita brasileira. Estive em outros países e nada aconteceu, só aconteceu aqui porque, infelizmente, entre as levas de brasileiros que vieram para cá há muitos fascistas. Tomem cuidado, deputados, com a possibilidade de essas pessoas intoxicarem o lado social em Portugal”.

Depois do encontro no Parlamento, Jean Wyllys seguiu para o último compromisso, o debate “Por que se exilar do Brasil hoje?”. O cenário do lado de fora do local do evento repetiu os ânimos de Coimbra, mas com mais reforço policial e de segurança privada para evitar conflitos entre apoiadores e opositores do ex-deputado.

A promessa de Jean é de que o autoexílio não será uma barreira para o ativismo político. “Eu sou um intelectual, eu penso, eu reflito sobre os fenômenos que nos afetam, eu sou escritor, minha arma é a palavra. Então essa vai ser a minha maneira de atuar internacionalmente. Eu não tenho mais mandato, e é possível, mesmo sem mandato, fazer essa política mais ampla, ser uma voz de denúncia e de defesa da democracia não só no Brasil, mas no mundo”.

Ao Público, o ex-deputado do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) falou do seu percurso na política brasileira e de como o “ódio destilado por Jair Bolsonaro e os seus apoiantes o obrigou a viver num cárcere privado”. Para o ex-deputado, a homofobia elegeu Jair Bolsonar.

“O que deu a vitória a Bolsonaro foi a homofobia. Ele não apresentou um programa de governo ao país, não participou em nenhum debate, estava há 30 anos no Parlamento e não aprovou um projeto de lei. Esse sujeito venceu as eleições porque passou a proferir publicamente, através dos novos meios de comunicação, preconceitos e a culpar determinados grupos por um sentimento de medo que tomava o povo brasileiro, diante da crise econômica que vivíamos”, disse.

Confusão em palestra de Jean Wyllys em Portugal. Veja o vídeo Resposta

Jean Wyllys em Coimbra

O autoexilado ex-deputado e ativista dos direitos LGBTs, Jean Wyllys, foi alvo de protestos e tentativa de agressão em Coimbra, Portugal.

Jean participava numa conferência na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, enquanto no exterior manifestavam-se movimentos de esquerda e do Partido Nacional Renovador (PNR).

Do lado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, manifestantes entoavam canções de protesto contra o fascismo e envergavam cartazes contra a extrema-direita.

Do outro lado da estrada,pessoas participavam no protesto promovido pelo PNR . 

Na manifestação de solidariedade a Jean Wyllys, encontravam-se tarjas, onde se podia ler “Não abrimos mão de quem somos”, “Trazemos um mundo novo nos nossos corações”, “Fascismo nunca mais”, bem como “Marielle Presente” (referência à ativista e política brasileira Marielle Franco, assassinada em 2018, no Brasil) e “#Lula Livre”. 

Na manifestação contra a vinda do ativista brasileiro, via-se uma bandeira de Portugal e outra do PNR, bem como um cartaz onde se lia “Com a direita nacional, a esquerda não faz farinha” e outro onde estava escrito “Chega de marxismo cultural”. E ainda “Vocês não são portugueses” e “Portugal não é um albergue para criminosos”.

Jean já falava há cerca de trinta minutos, quando um homem levantou e tentou atacá-lo. Ele jogou ovos em direção ao ex-parlamentar, mas um segurança conseguiu ser mais rápido e, com a mão impediu, que o ovo atingisse o seu rosto.

Justamente no momento da ovada, Jean Wyllys estava falando sobre a naturalidade com que palavras homofóbicas ainda são recebidos pela sociedade — incluindo insultos feitos contra ele pelo atual presidente, Jair Bolsonaro (PSL).

Antes de começar sua fala, o ex-deputado também ofereceu um “ramo de cravo com cheiro de alecrim” a pessoas que protestaram contra sua presença em Portugal, em uma referência à revolução que derrubou o regime salazarista

Jean quase leva ovada em evento