Em tempos de homofobia na bola, Alemanha é o arco-íris do futebol Resposta

Fotos: Getty Images/Arte: Gabriel Lucki/ESPN.com.br

Fotos: Getty Images/Arte: Gabriel Lucki/ESPN.com.br

Uma mudança cultural extrema em um período de sete décadas. De um país nazista, intolerante e palco de uma das maiores atrocidades da humanidade, a Alemanha hoje vive uma realidade completamente diferente. Com uma população imigrante cada vez maior, o território germânico é também referência na proteção quanto ao direito dos homossexuais, e o futebol é uma plataforma que reflete este cenário.

Hitzlsperger assumiu a homossexualidade após a aposentadoria

Hitzlsperger assumiu a homossexualidade após a aposentadoria

 

“Eu sou gay, e isso é bom.”

A frase parece algo isolado na luta pela igualdade entre pessoas de diferentes orientações sexuais. No entanto, ela teve grande impacto, já que foi dita por Klaus Wowereit, do Partido Social-Democrata da Alemanha, durante a campanha eleitoral.

Isso esteve longe de interferir negativamente em sua candidatura a prefeito de Berlim, capital alemã, tanto que foi eleito para o cargo em 2001 e reeleito em 2006. Atualmente, continua na posição e é um dos nomes cotados a substituir Angela Merkel como chanceler do país.

Corny Littmann presidiu o St Pauli entre 2002 e 2010

Corny Littmann presidiu o St Pauli entre 2002 e 2010

Wowereit não é o único neste sentido. Afinal, muitos políticos já assumiram publicamente a homossexualidade no país europeu. Entre eles estão Guido Westerwelle, ex-ministro de Relações Exteriores, e Barbara Hendricks, que responde pela pasta de Meio Ambiente desde dezembro de 2013.

Uli Hoeness, então presidente do Bayern, Merkel e Rauball, presidente do Dortmund e da Liga Alemã de Futebol, durante a campanha 'Siga o seu caminho'

Uli Hoeness, então presidente do Bayern, Merkel e Rauball, presidente do Dortmund e da Liga Alemã de Futebol, durante a campanha ‘Siga o seu caminho’

A polícia é outro departamento que mostra estar um passo à frente. Afinal, em 1995, foi criada a Vespol, Associação de Policiais Gays e Lésbicas que passou a combater os problemas dos homossexuais dentro da instituição no país.

“Tenho que ser um ator todo dia”

Se a homossexualidade deixou de ser um tabu na política e na sociedade em geral, o futebol germânico também caminha a passos largos para ser outra plataforma de reconhecimento de igualdade. E os últimos três anos formam um período importante para o tema.

Na terceira rodada do Campeonato Alemão de 2012/2013, em setembro de 2012, todos os clubes entraram em campo sem patrocínio em suas camisas. No lugar das propagandas com imagens de empresas aparecia um logo com as palavras “Geh Deinen Weg” (em português, Siga Seu Próprio Caminho.

A campanha, que no lançamento juntou o então presidente do Bayern de Munique, Uli Hoeness, e o presidente do Borussia Dortmund e da Bundesliga, Reinhard Rauball, contou com a participação da chanceler e foi motivada após um atleta – não revelado – dar uma entrevista à revista “Fluter” que comoveu o país.

“O preço que pago por viver meu sonho como um jogador da Bundesliga é alto. Eu tenho que ser um ator todo dia e entrar em autonegação”, disse o jogador à publicação.

Por sua vez, Merkel posicionou-se prometendo todas as condições para o desconhecido atleta ter uma vida normal. “Você não precisa ter medo. Eu sou da opinião que todo mundo que tem força e coragem [de assumir que é homossexual] deveria saber que nós vivemos em um estado no qual ele essencialmente não tem o que temer. Essa é minha declaração política.”

Neste ano, o assunto ganhou proporções maiores em janeiro, quando o ex-jogador Thomas Hitzlsperger, com passagens por Stuttgart, Aston Vila, Lazio e seleção alemã, assumiu a homossexualidade. “Senti que, agora, após minha aposentadoria, o momento havia chegado. Falo porque quero impulsionar a discussão sobre o tema no esporte profissional”, disse ao jornal do país “Die Zeit”, revelando sua orientação sexual.

A decisão foi muito elogiada tanto por personalidades do futebol como também por políticos. “Durante seus anos na seleção alemã, ele foi sempre um exemplo, porque teve o máximo respeito. Agora esse respeito se faz ainda maior”, declarou o presidente da Federação Alemã de futebol, Wolfgang Niersbach.

Outro bom exemplo da luta contra a homofobia dentro do futebol vem de longa data. O St.Pauli, da cidade de Hamburgo, é uma equipe conhecida no mundo inteiro pelas suas plataformas contra racismo, fascismo e sexismo e já teve um presidente, Corny Littmann, assumidamente gay entre 2002 e 2010.

No vôlei de praia, os campeões mundiais Julius Brink e Jonas Reckermann também deram sua contribuição na luta contra a homofobia ao posarem para uma foto se beijando. Ambos são heterossexuais e casados.

Como toda regra tem uma exceção, um fato lamentável ocorreu na Allianz Arena durante o duelo de volta entre Bayern de Munique e Arsenal, pelas oitavas de final da Uefa Champions League. Alguns torcedores ergueram uma bandeira com conteúdo homofóbico contra Mesut Ozil. Porém, a Uefa já aplicou uma punição. Vale lembrar que, semanas antes, no mesmo estádio, uma faixa com os dizeres “futebol é tudo, inclusive gay” fora erguida.

Ainda há muito a se fazer

Apesar de o tabu parecer algo execrado em solo germânico, os direitos ainda rendem discussões na Alemanha. Em fevereiro, os ativistas gays lamentaram a rejeição por parte da Corte Constitucional da Alemanha da liberação para que casais do mesmo sexo adotassem uma criança.

Atualmente, um alemão homossexual pode adotar uma criança e só depois disso viver conjuntamente a alguém. Isto é, após um casal se unir, ele não pode acolher um filho, da mesma forma que dois homens ou duas mulheres podem até viver juntos(as), porém, não têm a permissão para se casarem.

Ex-ministro de Relações Exteriores, Guido Westerwelle também é homossexual

Ex-ministro de Relações Exteriores, Guido Westerwelle também é homossexual

“A Alemanha pode ser considerada uma referência em relação à repressão na proteção dos direitos dos homossexuais. Porém, ela ainda não reconhece todos os direitos”, disse ao ESPN.com.br a advogada especializada em direitos homoafetivos Maria Berenice Dias. “Lá, existe em lei a criminalização de quem infringe a lei que protege o homossexual. Recentemente, o país até chegou a oferecer asilo aos gays e lésbicas discriminados na Rússia. O [presidente Vladimir] Putin não gostou e falou que a Alemanha não tinha esse direito”, explicou.

Embora ainda restem esses dois direitos a serem conquistados, é inegável que a Alemanha é um dos lugares mais preparados no mundo a receberem a população gay. Segundo uma pesquisa de 2013 do instituto Pew Research Center, 87% das pessoas no país acham que a socidade deve aceitar a homossexualidade. Apenas a Espanha, com um porcento a mais, fica à frente. Para outros outros gigantes que jogarão a Copa do Mundo, como Brasil (60%), Argentina (74%) e França (77%), os alemães levam boa vantagem.

Confira os direitos dos homossexuais na Alemanha:

Direito à atividade legal a homossexuais (sim)

Leis antidiscriminatórias no emprego (sim)

Leis antidiscriminatórias na disponibilização de bens e serviços (sim)

Leis antidiscriminatórias em todas as outras áreas (sim)

Casamento entre pessoas do mesmo sexo (não)

Reconhecimento de casais do mesmo sexo (sim)

Adoção de uma criança por um casal do mesmo sexo, desde que o pai/mãe já tivessem a guarda do filho(a) antes do relacionamento homossexual (sim)

Adoção conjunta por casais do mesmo sexo (não)

Homens e mulheres gays no serviço militar (sim)

Direito de mudar de sexo (sim)

Direito de lésbicas engravidarem por inseminação artificial (sim)

Uso de barriga de aluguel comercialmente por casais de homens homossexuais (não)

Mais que homossexuais, país acolhe o diferente

A relação com a homossexualidade é um reflexo de como a Alemanha se tornou um território aberto a diferenças. Afinal, após o fim da Segunda Guerra Mundial e o colapso do nazismo, o país foi reconstruído pelos imigrantes que se instalaram a partir da década de 50.

Hoje, cerca de dez milhões de imigrantes vivem em solo germânico, o que representa 11,5% dos 86,7 milhões de habitantes – vale lembrar que o número não engloba descendentes de estrangeiros, mas apenas pessoas que nasceram em outros lugares. Além disso, segundo dados do Ministério do Interior, 1,08 milhão de pessoas imigraram para a Alemanha em 2012, um número 13% maior que no ano anterior e o maior desde 1995.

“Na segunda metade do século 20, há um processo de imigração rápido, um fenômeno europeu que atinge a Alemanha, que sofria com a falta de mão de obra. Neste contexto, os movimentos sociais entraram para evitar a xenofobia. A nova Alemanha, criada de 1949 para cá, tem uma mensagem de grande nível”, declarou ao ESPN.com.br o professor titular de História e membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Estevão Chaves de Rezende Martins.

Prova desta realidade miscigenada é a própria seleção alemã, na qual Jerome Boateng, filho de pai ganês, é titular, assim como Mesut Ozil, de origem turca. O caso é o mesmo do volante Ilkay Gundogan. Já os atacantes Lukas Podolski e Miroslv Klose nasceram na Polônia. Sami Khedira, com raízes tunisianas, é também mais um exemplo de que a Alemanha superou o seu passado e é um país que hoje respeita sua população. Não importando a origem ou a orientação sexual.

Fonte: ESPN Brasil

Uefa pune Bayern por homofobia e por defender Kosovo Resposta

Punir um time por homofobia no futebol é algo relevante, mesmo quando se trata de uma punição branda. A União das Federações Europeias de Futebol (Uefa) puniu o Bayern de Munique por um cartaz no jogo contra o Arsenal. Além disso, o Comitê Disciplinar da Uefa puniu o clube por ter levantado faixas em favor de Kosovo, num recado claro de que a política segue sendo assunto proibido.

A punição ao Bayern se dá pelos artigos 14 e 16 (2e) do Regulamento Disciplinar da Uefa. O artigo 14 fala sobre comportamento racista ou discriminatório em geral, enquanto o 16 (2e) fala sobre a proibição de manifestação política de qualquer natureza. Considerando que são duas punições, você deve imaginar que o Bayern realmente terá problemas, certo? Bom, nem tanto.

Foi estabelecida uma multa de € 10 mil por cartaz ilícito. Sim, uma multa de incríveis € 10 mil. A outra punição foi fechamento de um setor da Allianz Arena para o jogo em casa do time contra o Manchester United, nas quartas de final da Liga dos Campeões. A princípio, uma punição pesada. Olhando o descritivo da punição, o setor fechado será o 124 do estádio. Veja o mapa que mostra o tamanho desse setor e analise por você mesmo se é uma punição pesada:

 

Punicao

 

Pois é. A Uefa segue tratando homofobia e racismo como algo punível com uma multa sem vergonha e o fechamento de um setor ínfimo do estádio. Ainda estamos longe de tratar a questão com a seriedade que merece.

Mais do que isso: a Uefa trata de correr para punir alguém que se manifesta politicamente com força igual ou maior do que as punições por discriminação racial ou sexual. Sim, a Uefa sabe que não punir o Bayern nesse caso seria desagradar a Sérvia, que é membro da sua organização. Só que manifestações em cartazes são legítimas e não podem, nem devem, ser censuradas ou punidas. Racismo e homofobia sim. A Uefa (e a Fifa, estendendo ao mundo) precisam entender que o futebol jamais estará separado da política.

A mensagem a favor do Kosovo também esteve nas arquibancadas da Allianz

A mensagem a favor do Kosovo também esteve nas arquibancadas da Allianz

Com informações: Trivela

 

Homofobia e homossexualidade no futebol ainda são tabus nas arquibancadas Resposta

O ano de 2013 foi expressivo para a discussão de dois grandes tabus do futebol brasileiro: a homossexualidade e a homofobia. Em 9 de abril, torcedores do Atlético-MG fundaram a Galo Queer, uma página no Facebook que reúne torcedores alvinegros com uma postura anti-homofobia e anti-sexismo. “Galo” é o apelido do clube de Minas Gerais e “Queer”, em inglês, significa gay. Em 15 dias, a página ganhou cinco mil fãs, e hoje conta com mais de 6.600.

O gesto da torcida atleticana motivou outras a fazerem o mesmo. Ao longo do mês de abril, surgiram páginas semelhantes de torcidas de todo o país: Cruzeiro, São Paulo, Náutico, Grêmio,Vitória, Bahia, Internacional, Palmeiras, Corinthians, Flamengo, entre outros. A lista é extensa e mostra que a discussão da homofobia no futebol, até então, ainda estava dentro do armário.

Integrante da Galo Queer no Mineirão Facebook/Reprodução

Integrante da Galo Queer no Mineirão Facebook/Reprodução

“O estádio é um ambiente super homofóbico. Lá não se vê nenhuma manifestação de diversidade afetiva”, diz o jornalista – e palmeirense – William de Lucca, colaborador da Folha de S. Paulo em João Pessoa, na Paraíba. Ele é homossexual assumido e se esforça para prestigiar os jogos do Palmeiras em cidades próximas, como Recife ou Natal. William já era militante LGBT e, assim que ouviu falar, aderiu à página anti-homofóbica “Palmeiras Livre”.

“Em 2008, eu morei alguns meses em São Paulo e tinha um namorado que era palmeirense também. A gente foi até aconselhado por um amigo dele da torcida organizada a não ter nenhuma demonstração de afeto dentro do estádio, porque a gente poderia ser agredido”, lembra. “A gente sempre fica com medo. Em outros ambientes, sou muito seguro quanto a manifestar meu afeto: ando de mão dada e tal, inclusive na rua, mas acho que o estádio de futebol é mais hostil do que a própria rua, sabe? A homofobia é muito mais explícita”, conta.

“A gente só não tem mais relatos disso porque os homossexuais que torcem nos estádios não arriscam nenhum tipo de demonstração afetiva”, conclui William.

Dentro da Palmeiras Livre, assim como nas outras organizações, ainda se discute quais serão os próximos passos. Os integrantes querem ocupar as arquibancadas, mas temem agressões físicas, já que as verbais ocorrem diariamente. “Dia sim e outro também nós recebemos ameaças”, conta a fotógrafa e analista de mídias sociais Thaís Nozue, também integrante da Palmeiras Livre. “As pessoas vem ameaçando, dizendo que estão mexendo com o time errado, que eles vão descobrir quem é, que não sei o quê”. Por enquanto, a hostilidade está restrita a mensagens no Facebook como: “Vão morrer”, “Experimenta aparecer na torcida e vocês vão apanhar”, “A Mancha [maior organizada do Palmeiras] bate em polícia e não vai bater em um monte de bicha?” – o que não significa que a ameaça venha da Mancha, como explica Thaís.

Segundo ela, a causa da Palmeiras Livre também foi rechaçada pelas organizadas alviverdes. “A gente até tentou uma aproximação com as organizadas, mas elas deram um recado para a gente não se meter com elas. Às vezes aparecem pessoas se dizendo das organizadas nos ameaçando, mas a gente não tem como comprovar se são mesmo”, diz.

A homofobia veste verde?

Procurado pela Pública, Marcos Ferreira, o Marquinhos, presidente da Mancha Alviverde, não quis dar uma entrevista sobre a polêmica da homofobia e sobre um episódio envolvendo o volante e lateral Richarlyson, hoje no Atlético-MG e tido como homossexual, apesar de sempre se declarar heterossexual.

No início de 2012, o Verdão estudava a possibilidade de contratar Richarlyson. A Mancha Verde convocou um protesto no dia 4 de janeiro, na frente do Centro de Treinamento (CT) do Palmeiras, zona oeste de São Paulo. Segundo a torcida o motivo era uma rixa antiga com o jogador, que estava à beira de um acordo com o Alviverde, mas acabou indo jogar no rival São Paulo. Porém, uma grande faixa estendida por duas pessoas durante aquele ato dizia: “A homofobia veste verde”.

Ao telefone, Marquinhos negou repetidas vezes que a Mancha tenha algo a ver com a faixa – ela seria obra de duas pessoas desconhecidas da organizada que foram ao protesto. Mas ele disse que “não via nada de agressivo na faixa”. A Pública também tentou contato com Richarlyson, mas foi informada pelo seu empresário, Julio Fressato, que ele estava se recuperando de uma cirurgia.

O selinho de Sheik e o voo das gaivotas

Sheik deu selinho em amigo e causou a ira de torcedores do Corinthians

Sheik deu selinho em amigo e causou a ira de torcedores do Corinthians

Na esteira das iniciativas anti-homofóbicas, dois episódios jogaram o Corinthians no centro da discussão. O atacante Emerson Sheik, herói corintiano da inédita conquista da Libertadores em 2012, foi vítima de uma onda de ataques homofóbicos depois da vitória do Corinthians sobre o Coritiba por 1 a 0, no Pacaembu, no dia 18 de agosto. Para comemorar, Sheik postou uma foto em seu perfil oficial no Instagram em que aparecia dando um selinho em um amigo de longa data, o empresário Isaac Azar. “Tem que ser muito valente para celebrar a amizade sem medo do que os preconceituosos vão dizer. Tem que ser muito livre para comemorar uma vitória assim, de cara limpa, com um amigo que te apoia sempre”, escreveu.

No dia seguinte, cinco integrantes da Camisa 12, segunda maior torcida organizada do Corinthians, foram ao CT do clube protestar contra a atitude de Sheik, levando três faixas que diziam “Vai beijar a P.Q.P. Aqui é lugar de homem”, “Respeito é pra quem tem” e “Viado não”.

Dois meses depois, o jornalista e apresentador Luiz Felipe de Campos Mundin, que assina como Felipeh Campos, anunciou que faltava pouco para fundar a já polêmica Gaivotas Fiéis, primeira torcida organizada com conceito gay do Corinthians.

A Pública conseguiu entrevistar um personagem importante em ambos os episódios, Marco Antônio de Paula Rodrigues, de 34 anos. Conhecido pelo apelido “Capão”, por ter crescido no Capão Redondo, bairro periférico da zona sul de São Paulo, ele é presidente da Camisa 12, e foi um dos cinco que protestaram contra o selinho de Sheik. Ele revela ter sido o autor da faixa que dizia “Viado não” – a única, dentre as três, que considera agressiva. “Só essa foi um pouco mais forte, foi um excesso. Eu que risquei com o spray essa faixa, eu até pensei [que era agressiva], mas depois que nós já estávamos lá, a gente não podia voltar atrás”, diz. Trajado da cabeça aos pés com roupas da Camisa 12 (boné, camiseta, agasalho, bermuda e até meias da torcida), Capão é assertivo, olha nos olhos e tem a voz rouca. Aceitou falar durante uma hora e meia com a reportagem da Pública na sede da torcida, no bairro paulistano do Pari, região central, para “dar a explanação” sobre os dois episódios.

Sobre a iniciativa de Felipeh Campos, Capão vê a nova torcida gay como puro marketing. “Acredito que ele está pensando mais numa autopromoção do que numa torcida organizada. Porque para nós, uma torcida organizada começa como a gente sempre troca ideia nas torcidas: o cara vai para uma caravana, o cara participa de vários jogos do Corinthians na arquibancada e não na numerada, a pessoa participa de inúmeras manifestações corintianas que teve nesses últimos anos, tanto de protesto contra diretoria, contra jogador. Tem uma caminhada ideológica dentro de uma instituição para você fundar uma torcida organizada. Torcida organizada não é um comércio, mano”, argumenta.

“Tomei muita borrachada da polícia por aí, passei muita fome na estrada, nunca fomos pra qualquer lugar e fomos bem recebidos por qualquer órgão que cuida da organização do jogo no estádio, da segurança pública, nós sempre fomos maltratados por muitos deles, então a torcida organizada não é simplesmente chegar e falar: ‘Ó, vou criar uma torcida hoje. Vou criar uma camisa e vou pro estádio’”.

Torcedores foram ao CT exigir pedido de desculpa de Emerson Sheik por selinho em amigo

Torcedores foram ao CT exigir pedido de desculpa de Emerson Sheik por selinho em amigo

Para Capão, é “inaceitável” a escolha do nome da torcida gay e a corruptela do símbolo do Corinthians – no brasão da Gaivotas, além da nova ave, o símbolo do Corinthians tem como fundo um espelho de maquiagem com direito a pincel e lápis, e a bandeira do Estado de São Paulo foi pintada com as cores do arco-íris, ícone do movimento gay.

Símbolos da Gaviões da Fiel e da Gaivotas Fiéis. Para a Gaviões, houve plágio do jornalista Felipeh Campos (Foto: Reprodução)

“Eu acho que o rapaz lá acaba beirando até o ridículo… Ele está transmutando as nossas coisas. Tanto pelo nome que ele coloca se referindo a uma torcida que tem uma puta tradição [Gaviões da Fiel, a maior organizada do Corinthians, fundada em 1969] quanto do nosso símbolo do Corinthians, ele colocar um espelho e uns negócios de maquiagem no símbolo… Numa entrevista que eu vi, perguntaram: ‘Mas por que isso daí?’ E ele: ‘Ah, porque na verdade o corintiano vai gostar de se pintar na arquibancada’. Meu, torcida do Coringão é 90 minutos, mano. A gente gosta é de cantar, de sofrer, de chorar pelo Coringão. Não é de se pintar. Com todo o respeito, nem as nossas mulheres fazem isso”, afirma Capão, que é contra a existência de uma torcida gay. “Já digo de pronto que eu não sou favorável a ter uma torcida gay, porque eu acho que os gays não precisam disso daí pra poder se achar numa sociedade que já está abrangendo todo mundo”.

Perguntado se existem gays na Camisa 12, Capão não hesita: “Nós não temos gays na torcida, mano. Pelo menos nunca soubemos, entendeu. Meu, se o cara tá lá, tá assistindo o jogo. Tudo bem, nós vamos respeitar, mas qualquer faixa assim, nós somo contra mano. Nós não queremos, de verdade mano, aqui dentro da 12. Pra nós é sério o estádio, não é só pra brincar”. Capão, explicando que, se “no meio de um gol os dois de repente se beijarem no meio da nossa torcida”, seria “ruim”: “O estádio pra nós é um templo”.

O lastro, para Capão – que não se considera homofóbico –, é sempre a tradição. “O cara ir pro jogo, se for um homem, de shortinho amarradinho, camisa amarradinha e todo pintado… Pra nós não rola meu, de verdade. Porque o nosso tradicionalismo, infelizmente, meio ogro, tá ligado, até beirando homem da caverna não permite isso daí, certo?”. Se a Camisa 12 fosse homofóbica, exemplifica Capão, “a gente juntava os associados da 12 e ia lá na passeata gay quebrar todo mundo. No entanto que ninguém tá muito se manifestando [sobre a Gaivotas Fiéis], certo? Por quê? Porque tudo que a gente fala, a mídia distorce”.

Sobre o episódio do selinho do Sheik, Capão diz que o problema foi o atacante ter declarado que o beijo era para comemorar a vitória do Corinthians. “Quando ele falou que ele estava fazendo aquilo pra comemorar o jogo ele já transferiu a responsa pro Corinthians”, afirma, explicando que, depois do episódio, onde quer que o Timão jogue é recebido com gritos de “beija beija beija” pelos torcedores rivais. “Estávamos ali [no protesto] representando muitos torcedores. Muitos pediram para que a gente tomasse a frente, tanto que eu recebi inúmeras congratulações depois”, diz.

Gaviões X Gaivotas

A Gaviões da Fiel, maior organizada do Corinthians, fez uma denúncia de crime contra a propriedade industrial no 1º DP de Guarulhos, contestando a sátira à marca da torcida, que é registrada. A torcida reclama que a proximidade dos nomes e símbolos das duas pode induzir ao erro. “Eu não sei onde eles enxergaram plágio”, contesta Felipeh Campos, da Gaivotas. “A minha torcida chama Gaivotas Fiéis, não é gavioa. Já começa que Gaivota é feminino, não é masculino. Se eu tivesse colocado cílios e salto alto no gavião, aí eu até acredito que poderia ter sido uma questão de plágio. Porém eu não estou utilizando as peças do emblema para plagiar alguma coisa. Entendo isso como uma retaliação homofóbica”, diz.

Feliphe Campos apresenta novo logo da torcida Gaivotas Fiéis

Feliphe Campos apresenta novo logo da torcida Gaivotas Fiéis

Felipeh conta que vem sendo ameaçado nas redes sociais, e que foi agredido verbalmente na semana passada, na Avenida Paulista. “As ameaças são coisas do tipo ‘Cuidado, eu vou te matar’, ‘Você já tá jurado de morte’, ‘Abre teu olho’. Então você vê que são atitudes extremamente homofóbicas e preconceituosas, elas não têm outros motivos”, diz. Sobre a agressão ao vivo, ele conta que ocorreu na saída de seu trabalho, na sede da TV Gazeta, na avenida Paulista. “Eu estava com um amigo meu na Paulista e um cara passou, me esbarrou e começou a me xingar. E eu falei: ‘É comigo que você tá falando?’ E ele: ‘ Você acha que é com quem? Tá pensando que você e a sua turminha vai entrar em estádio? Não vai não, mano’. E eu falei: ‘Bom, vamos conversar, abaixa o tom de voz’. E aí ele continuou a gritar e eu falei: ‘Ótimo, a polícia está vindo ali, eu vou te incriminar agora em crime de homofobia e você vai sair daqui para a cadeia’. Aí na hora que ele viu que a polícia vinha vindo a pé, ele meio que saiu de canto e deu um pinote”, relata.

Felipeh Campos conta que desde pequeno frequenta estádios. “O futebol nas décadas de 70 e 80 era uma grande festa. Mas foi crescendo de uma forma tão grande que deixou de olhar para a questão democrática. Não está escrito na porta do estádio que só é permitida a entrada de homens, né? Eu acredito que não só os gays têm que frequentar os estádios, como a mulher, as crianças, entendeu? O futebol é pra todos”, diz. “Mas é claro que o conceito da torcida é gay e o meu objetivo maior é inserir o público gay no estádio de futebol. Eles [as organizadas] monopolizaram os estádios”, diz.

De fato, a divisão do estádio do Pacaembu é um dos argumentos de Capão para rejeitar a convivência com as Gaivotas. Por determinação da Federação Paulista de Futebol, as organizadas do Corinthians têm que ocupar as arquibancadas Verde e Amarela, atrás de um dos gols, nos jogos em que o clube é mandante. Se ficasse fora desse setor, a Gaivotas estaria violando a regra. “Mas dentro desse setor, nós já temos seis torcidas: temos a Gaviões da Fiel, temos a Camisa 12, a Pavilhão 9, a Estopim da Fiel, a Coringão Chopp e a Fiel Macabra. São seis torcidas que estão ali e todas elas obtiveram a caminhada. Ninguém chegou do nada não”, argumenta Capão.

Felipeh garante que o objetivo não é “fazer represália com qualquer tipo de segmento sexual”. Porém, sobre dividir espaço com as outras organizadas, ele é enfático. “Nem que eu tiver que pedir segurança para o exército. Mas que a minha torcida vai entrar nos estádios, isso vai, com certeza. Nem que a gente tenha que chegar de carro-forte, de tanque”. Ele ressalta que a sua torcida será profissional e que todo o corpo diretivo será remunerado, diferentemente das outras organizadas.

Procurado pela Pública, Jerry Xavier, diretor da Gaviões da Fiel, disse que a torcida não se pronuncia sobre esse tema. O Corinthians também afirmou, via assessoria, que não se manifesta a respeito de torcidas.

Homofobia bate recorde no Brasil

O Brasil, o país do futebol, vem sendo líder no ranking de mortes por homofobia. Segundo dados do relatório “Assassinatos de Homossexuais (LGBT) no Brasil”, de 2012, do Grupo Gay da Bahia, o Brasil concentra 44% do total de assassinatos por motivação homofóbica no mundo. Em 2012, foram registradas 3.084 denúncias de violações ligadas à homofobia e 310 homicídios por esse motivo.

Estádio: a terra do macho

“Por ser o estádio um ambiente que tem uma série de permissões nas relações masculinas – carinhos, afetos, às vezes até mesmo agressões – é necessário que esse ambiente seja considerado seguro para os homens. Para garantir essa suposta ‘segurança’, os torcedores precisam reforçar a sua masculinidade. E uma das coisas que melhor reforça a masculinidade na nossa cultura é a homofobia. Por isso ela aparece de forma tão gritante”, afirma o pedagogo e professor da UFRGS, Gustavo Andrada Bandeira, autor da tese de mestrado “‘Eu canto, bebo e brigo…alegria do meu coração’: currículo de masculinidades nos estádios de futebol”.

Para Bandeira, esse é o motivo da rejeição às torcidas gays: “Se a torcida do Corinthians, do Grêmio ou do Internacional for a primeira a levantar uma bandeira pró ações afirmativas, ela poderá ser chamada de a ‘torcida gay’, e as torcidas acham que isso é um problema”, diz.

Para Marco Antonio Bettine de Almeida, professor livre docente na Pós-graduação em Mudança Social e Participação Política da EACH-USP, a reação é “natural” num espaço que sempre foi dominado pelo masculino. “A partir do momento que as agendas de visibilidades desses grupos excluídos, que tiveram seus direitos cerceados, que são espancados, é natural, vendo a representação que o futebol tem no Brasil, começar toda essa movimentação de garantir uma representação nesse espaço eminentemente masculino, do macho, do falo”. Para ele, no entanto, há espaço para negociação entre os grupos LGBT e as organizadas. “Uma mulher no estádio é aceita, por exemplo, mas tem que representar os papéis dentro do estádio, que é torcer, xingar, participar. As torcidas gays ou não gays têm que incorporar um pouco da história desse espaço do torcer. E conhecer, minimamente, os códigos, senão vai gerar conflito. Porque o espaço é um espaço sagrado e tem uma carga cultural muito forte”.

Bandeira discorda. “Se é uma torcida gay, que ela tenha comportamentos diferentes das torcidas não gays. É sempre complicado quando a gente quer transgredir as regras de gênero sexual num ambiente muito marcado. Mas me parece que seria muito mais interessante se eles fizessem algo diferente”. Foi essa a aposta da Coligay, a primeira torcida homossexual do país, que em plena ditadura militar conquistou seu espaço dentre os torcedores do Grêmio (leia Box).

Uma inspiração para o caso brasileiro pode ser a GFSN (Gay Football Supporters Network, Rede de Torcedores de Futebol Gays, numa tradução livre). Fundada em 1989, a associação do Reino Unido tem diversas iniciativas para a inserção do público LGBT no futebol. “Estamos em contato permanente com muitos clubes para recomendar políticas anti-homofóbicas por parte deles”, afirma Simon Smith, do departamento de comunicação. “Ajudamos, por exemplo, a consolidar os Gay Gooners, a torcida LGBT do Arsenal e conseguimos o apoio formal de representantes do Liverpool e do Everton para a parada do orgulho LGBT da cidade de Liverpool. Dentro de campo, organizamos há dez anos campeonatos de futebol voltados ao público LGBT para a inclusão no esporte”, conta Smith.

A GFSN também registra com precisão britânica a ocorrência de gritos e cânticos homofóbicos nos estádios – e faz campanha permanente contra eles. “Na temporada passada, os torcedores do Brighton & Hove Albion FC sofreram com cantos homofóbicos em 72% dos jogos que disputaram. Nós documentamos isso e enviamos à FA (Football Association, a CBF inglesa), que ainda não tomou nenhuma atitude. Mas nós continuamos pressionando”, diz.

No próximo ano, a Copa do Mundo promete ser palco de discussão sobre homossexualidade – pelo menos em São Paulo, onde mais de 40 mil pessoas são esperadas para acompanhar a transmissão dos jogos nos telões da Fan Fest, no Vale do Anhangabaú, centro da cidade. Ali, a prefeitura planeja realizar uma intervenção para discutir homofobia, com direito a exibição de vídeos em telas e distribuição de folhetos sobre o tema. Outra ação que está sendo estudada é transmitir os jogos em telões no Largo do Arouche, um “point” LGBT da cidade, para esses torcedores.

Fonte: Ig Esporte

É hora de discutir a homofobia no futebol 1

homofobia-futebol

O selinho do jogador corintiano Emerson Sheik no amigo Isaac Azar trouxe à tona a questão da homofobia no futebol em função da reação agressiva de torcedores do clube que protestaram contra a atitude do herói da Libertadores de 2012.

Mas não é uma questão nova, ainda que não tenha merecido a atenção devida nem dos dirigentes esportivos da CBF e das federações, tampouco das equipes profissionais. “Os clubes de futebol, a imprensa esportiva e outros atores envolvidos com o futebol legitimam a homofobia ao silenciarem sua existência. Ao não serem citados, os xingamentos homofóbicos acabam sendo naturalizados”, acredita Gustavo Andrada Bandeira, pedagogo e autor da dissertação intitulada Eu canto, bebo e brigo… alegria do meu coração: currículo de masculinidades nos estádios de futebol. “Os nossos grandes clubes possuem origens e histórias mais ou menos semelhantes. Não vejo, neste momento, condições para que um clube de futebol brasileiro levante qualquer bandeira política que o diferencie dos demais.”

O surgimento das torcidas queer, que combatem a homofobia nas redes sociais, teve o mérito de tirar esse tema da invisibilidade. Mas, mesmo ganhando inúmeros adeptos e o apoio de outros tantos, reconhecem dificuldades para fazerem coisas simples, como manifestar o amor pelo seu time em um estádio de forma coletiva.

“Frequentamos o estádio e temos sim esse objetivo [de comparecer como organizada]. Mas queremos fazer tudo com calma e no momento certo, é preciso garantir a integridade física de todos os participantes. Infelizmente a intolerância é muito grande e, a julgar pelas ameaças que recebemos na página, sabemos que não será fácil fazer protestos no estádio. Estamos pensando na melhor forma de fazer isto”, diz Milena Franco, da Galo Queer, torcida considerada precursora do movimento atual.

Algumas torcidas já tentaram ir aos estádios levando a temática LGBT. Muito antes da internet e das redes sociais, em 1977, surgiu a primeira organizada gay do Brasil, a Coligay,  fundada por Volmar Santos, então dono da boate Coliseu, para apoiar o Grêmio. Hostilizada pelos próprios torcedores do clube, foi extinta na década de 1980. Outro exemplo que também não foi adiante é a FlaGay, fundada pelo carnavalesco botafoguense Clóvis Bornay e que teve idas e vindas entre o final da década de 1970 e os anos 1990.

Quanto ao comparecimento em estádios, a Bambi Tricolor enfrenta a mesma dificuldade da Galo Queer, mas em um nível talvez pior, já que são-paulinos são muitas vezes alvo de ofensas homofóbicas por parte dos rivais. “Há uma forte resistência entre os torcedores, agravada, inclusive, pela escolha do nome Bambi Tricolor. E embora a maioria que se manifesta tenha consciência de que as provocações e ofensas contra os são-paulinos tem um forte caráter homofóbico, não é muito clara a ideia de que a reação da torcida, de modo geral, tende a reforçar a homofobia”, conta Aline, representante da Torcida.

Confira nos links abaixo as três entrevistas feitas pelo Futepoca em abril e maio deste ano sobre a homofobia no futebol brasileiro.

“Nossa cultura ainda é muito permissiva em relação à homofobia”

Entrevista com Gustavo Andrada Bandeira, pedagogo e autor da dissertação intitulada Eu canto, bebo e brigo… alegria do meu coração: currículo de masculinidades nos estádios de futebol.

“Em questões que envolvem violência, todo silêncio é, na verdade, uma omissão”

Entrevista com Aline, representante da Bambi Tricolor

“A rivalidade faz parte do futebol, mas a homofobia não”

Fonte: EBC

“Bambi Tricolor” ganha adeptos na Internet, mas medo de agressão breca ação em estádios Resposta

Criadora da página "Bambi Tricolor", do São Paulo, foi ameaçada pelo Facebook

Criadora da página “Bambi Tricolor”, do São Paulo, foi ameaçada pelo Facebook

“Paixão pelo futebol, amor ao clube e até rivalidade entre adversários não tem nada a ver com homofobia. Se, até agora, Bambi foi um apelido usado para discriminar, por que não adotá-lo com orgulho e desarmar o preconceito? Pelo SPFC livre”. Assim é descrita a página “Bambi Tricolor”, criada recentemente noFacebook para discutir assuntos como machismo e homofobia no Morumbi. A repercussão foi grande, gerando discussõesonline e também rendendo ameaças aos criadores da comunidade, que agrega quase mil membros.

Situação semelhante viveram internautas de outros cantos do país, por onde se espalhou o fenômeno das páginas virtuais que lutam contra o preconceito nos estádios de futebol. A precursora foi a “Galo Queer”, criada por uma torcedora do Atlético-MG, que abriu as portas para o surgimento de semelhantes, como a “Palmeiras Livre”, a “Bahia Livre”, a “Grêmio Queer” e muitas outras. O problema, segundo seus criadores relatam ao UOL Esporte, são as constantes ameaças sofridas no mundo virtual, o que impede a saída desses movimentos para a arquibancada, já que existe o medo de agressão física.

“Frequentamos o estádio e temos esse objetivo. Mas queremos fazer tudo com calma, pois é preciso garantir a integridade física de todos os participantes. Infelizmente, a intolerância é muito grande e, a julgar pelas ameaças que recebemos na página, sabemos que não será fácil fazer protestos no estádio. Estamos pensando na melhor forma de fazer isto”, explica a cientista social criadora da “Galo Queer”, que já tem cerca de 5,6 mil adeptos e muitos “likes” e comentários em suas centenas de postagens.

As ameaças virtuais envolvem até mesmo frases como “eu sei onde você mora” e “você vai ter que aguentar as consequências”, como relatam os idealizadores das páginas.

“Teve ameaça de rastrear meu endereço pelo IP, outro jurou que nós apanharíamos no estádio. Teve quem nos desafiasse a mostrar o rosto e o nome, um que escreveu dizendo que sabia quem eu era, conhecia minha mãe. Teve até um que dizia ter acesso aos servidores da NET e que ia cortar minha conexão”, diz A.B, criadora da “Bambi Tricolor”.

A.B é a favor do fim das manifestações racistas, machistas e homofóbicas no Morumbi, além da adoção do personagem Bambi, da Disney, como um dos mascotes do tricolor.

“Se o São Paulo adotasse o mascote escancarando que é um clube que se reconhece como ‘gay’, no sentido de ser ciente e aberto à diversidade, seria histórico e maravilhoso”, opina.

Ela também diz que não vê, a curto prazo, a passagem dos movimentos virtuais para as arquibancadas, mas afirma ter esperança de que tenha sido plantada uma “semente” para um futuro diferente.

“Não vejo a possibilidade disso acontecer sem que a segurança dos envolvidos esteja de alguma forma ameaçada. Mas quem sabe esse movimento que começou no mundo virtual não seja uma sementinha pra algo maior, futuro, nos estádios? Torço demais por isso”, ressalta.

“A diversidade está aí”

O movimento surge em meio a um cenário de apoio aos homossexuais no esporte. Recentemente, atletas como o jogador de futebol Robbie Roggers e o de basquete Jason Collins saíram do armário e ganharam apoio público, até mesmo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Na Alemanha, já há cartilha para encorajar jogadores a assumirem a preferência sexual. No Brasil, o 2º Pesquisão do UOL Esporte aponta que a maioria dos jogadores conhece algum atleta gay.

Os criadores das páginas dizem gastar bastante tempo mediando discussões e postando notícias. Notícias envolvendo a luta pelos direitos dos homossexuais, por exemplo, costumam render vários “curtir”, “compartilhar” e comentários. Segundo a socióloga Kátia Azambuja, membro da “Grêmio Queer”, isso só mostra a força do movimento anti-preconceito que vem conquistando o Facebook.

“É uma demonstração que ainda existem pessoas dispostas a lutar por seus direitos e mostrar que a diversidade está aí e deve ser aceita e respeitada pela sociedade. E espero que sirva para unir as torcidas e mostrar que a rivalidade está dentro das quatro linhas e que nas arquibancadas e nas ruas”, diz.

Outro passo importante, segundo os idealizadores, é levar a luta anti-preconceito aos clubes. Algo que vem sendo difícil, já que as equipes não têm demonstrado interesse em ligar-se e mostrar apoio à luta dos torcedores.

“Gostaríamos, sim, de um posicionamento, para também mostrar à sociedade de que lado o Palmeiras está”, conta a estudante Thais Nozue, da “Palmeiras Livre”.

“Lamento que os dirigentes não consigam sequer acenar positivamente para um movimento que, além de declarar seu amor por futebol e pelo clube, pede mais respeito e menos violência”, argumenta A.B, da “Bambi Tricolor”.

As exceções são os rivais Atlético-MG e Cruzeiro, que demonstraram apoio. “Sou totalmente a favor de qualquer manifestação. Se juntaram as duas torcidas rivais, sou ainda mais a favor”, disse Eduardo Maluf, diretor do alvinegro, aoUOL Esporte. Por meio de sua assessoria, a diretoria celeste disse também concordar e apoiar as atitudes e ações dos criadores das páginas no Facebook.

O próximo objetivo é conseguir a união entre os criadores de páginas anti-preconceito. Por enquanto, há apenas conversas virtuais, mas todos dizem esperar uma aproximação maior, com intercâmbio de ideias e planejamento de ações conjuntas, dando ainda mais força ao movimento.

“Gostaria de ter contato com o pessoal das outras páginas, principalmente a do ‘Galo Queer’, pois foram vanguarda nesse movimento”, diz Kátia, da irmã “Grêmio Queer”.

CRIADORA DA “BAMBI TRICOLOR” VIRA ATÉ PSICÓLOGA DE INTERNAUTA

  • Reprodução/Facebook“Tive conversas impressionantes, bacanas mesmo. Em uma dessas conversas, um adolescente acabou dizendo que ele mesmo não era homofóbico, que ele acreditava ser bissexual, mas que ninguém no círculo de amizade dele sabia. Além de pedir pra eu jamais dizer isso publicamente, ele acabou reconhecendo que o desconforto que ele sentia sobre a página e o nome Bambi tinha a ver com aquele momento delicado da vida dele. Só essa conversa já valeu ter feito a ‘Bambi Tricolor'”, conta a criadora da página.

MEMBRO DE “GRÊMIO QUEER” RECLAMA DE ABUSOS NOS ESTÁDIOS

  • Reprodução/Facebook“O machismo no estádio é grande. Normalmente eu ia aos jogos com amigas mulheres e sempre acontecia uma passada de mão, um puxão de cabelo e alguma piadinha”, relata a socióloga Kátia Azambuja, que completa: “Enquanto os homens não respeitarem as mulheres, e seguirem nos considerando seres de 2° classe ou meros objetos sexuais, nunca viveremos numa sociedade igualitária”

“PALMEIRAS LIVRE” APROVA CORAGEM DE ATLETAS QUE SAÍRAM DO ARMÁRIO

  • Reprodução/Facebook“Acho ótimo. Isso mostra o quanto a orientação sexual do atleta não interfere no seu desempenho. Aguardo, ansiosamente, o dia em que a orientação sexual de alguém e a exposição dessa questão na mídia não seja mais encarada como um posicionamento político e sim algo natural do ser humano”, opina Thais Nozue

“GALO QUEER” DIZ QUE NÃO ESPERAVA VIRAR HIT NA INTERNET

  • Reprodução/Facebook“Fiz a página apenas para divulgar entre meus amigos, pensando que algum dia poderíamos nos organizar pra fazer algo maior. Mas em três dias a página foi curtida por 3 mil pessoas. Acho que atendemos a uma demanda silenciosa. Pelo visto, muita gente que gosta de futebol já queria dar esse grito contra o machismo, a homofobia e a intolerância”, conta a criadora da página “Galo Queer”

Jogador de futebol, Robbie Rogers, assume ser gay e se aposenta aos 25: “Impossível continuar” Resposta

Robbie Rogers deu entrevista ao jornal Guardian e posou para fotos. Depois de abandonar o futebol, ele pensa em seguir nova carreira no mundo da moda (Foto: Tom Jenkins/Guardian)

Robbie Rogers deu entrevista ao jornal Guardian e posou para fotos. Depois de abandonar o futebol, ele pensa em seguir nova carreira no mundo da moda (Foto: Tom Jenkins/Guardian)

Um jogador de futebol abandonar a carreira aos 25 anos é sempre um fato surpreendente. Mas essa foi a decisão de Robbie Rogers, americano que atuava na Inglaterra. O motivo? Ele assumiu que é gay em fevereiro. Quantos jogadores gays assumidos jogam profissionalmente? Os que jogam estão escondidos sob o medo. Um medo justificado e isso fica evidente no relato de Robbie Rogers, que jogou por Columbus Crew, dos Estados Unidos, Heerenveen, da Holanda, Leeds e Stevenage, da Inglaterra.

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“No futebol é obviamente impossível se assumir gay”, disse o jogador, de 25 anos, em entrevista ao jornal Guardian. “Imagine ir para o treino todos os dias e estar com esse holofote?”, comentou o jogador. “É um circo todo dia”. Rogers relatou que a reação dos companheiros de time era um problema que ele tinha que lidar por ter revelado ser gay enquanto sua carreira ainda estava em curso.

Nascido em Rancho Palos Verdes, na Califórnia, o jogador começou a carreira no Orange County Blue Star antes de se transferir para o Heerenveen, da Holanda. Jogou então no Columbus Crew entre 2007 e 2011, onde chamou a atenção do Leeds, que o contratou em 2012. Sem conseguir ter sequência de jogos por suas lesões, foi emprestado ao Stevenage, mas também não conseguiu sucesso. Acabou dispensado em janeiro. Rogers foi parte do elenco da seleção dos Estados Unidos na Copa Ouro de 2011. O meia-atacante não entrou em campo naquele torneio, mas jogou 18 partidas pela seleção americana e marcou dois gols.

“As coisas irão mudar. Haverá jogadores gays”

“Eu sei que as coisas irão mudar. Haverá jogadores gays. Eu só não sei quando e como e quanto tempo levará”, afirmou o americano. “O próximo passo é como criar uma atmosfera onde homem ou mulher sintam que não há problema em assumir sua sexualidade e continuar a jogar? É uma grande pergunta”, disse ainda o agora ex-jogador. “O futebol tem muita história. É um grande esporte com muita cultura e tradição. Mas eu estou otimista que haverá mudanças”, disse, esperançoso, Rogers.

Tomar a decisão de se assumir gay em um meio onde isso não é bem aceito é um desafio que fez Robbie Rogers hesitar antes de se decidir por sair do armário. “Eu tive medo sobre como meus companheiros iriam reagir. Isso os faria mudar?”, contou Rogers. “Mesmo eu sendo a mesma pessoa, isso iria mudar o modo como eles agem comigo quando estamos no vestiário ou no ônibus?”, disse ainda o americano.

“Adicionar o aspecto gay não torna as coisas mais fáceis”, disse Rogers, que admitiu que não sabia se aguentaria ter que aguentar as possíveis ofensas que ele ouviria se continuasse jogando. “Eu posso ser forte o suficiente, mas eu não sei se isso é o que realmente quero. Eu quero apenas ser um jogador de futebol. Eu não quero lidar com o circo. As pessoas virão me ver só por que sou gay?”, desabafou.

Em entrevista ao New York Times, Rogers falou sobre uma das questões que são sempre faladas como um impeditivo aos jogadores gays: o momento de tomar banho no vestiário. “Eu tomei banho com homens no vestiário a minha vida inteira. E eu nunca fiquei excitado, como “Oba, é hora de tomar banho com os caras”. Não é assim. Não há interesse. Você não pensa em caras do seu time desse jeito. Simplesmente não pensa”, contou.

Ele contou que desconfiava ser diferente dos garotos que conhecia aos 10 anos e que com 14 tinha certeza que era gay. Mas tentou evitar que isso fosse revelado a público. Ele não contou para ninguém. Ninguém da sua família sabia, nem seus amigos mais próximos. “Eu sou um católico, conservador, jogador de futebol e gay”, disse, mostrando por que ele tinha receio de revelar a sua sexualidade. “Imagine viver o tempo todo com uma cãibra no estômago. Eu ficava pensando, eu espero que eu não faça nada que faça as pessoas pensarem ‘o Robbie é gay?’”, contou. “Eu nunca estive perto de me assumir antes. Nunca. Eu nunca fui a nenhum bar gay, nunca fiquei com um cara. Era tão pouco saudável e tão ruim me sentir assim. Dois anos atrás, eu pensava que nunca iria assumir na minha vida inteira”.

“Eu pensei em pegar um avião para casa e contar a todo mundo, mas eu precisava apenas fazer isso e tirar do meu peito”, conta. “A única vez que eu realmente chorei durante todo esse processo foi quando eu contei à minha mãe e ele disse apena: ‘Robbie, nós não nos importamos com isso. Nós amamos você’”.

Preocupação com a repercussão na carreira

Rogers também se preocupava com a reação dos torcedores e da imprensa sobre o fato de ele ser gay. “Se estivesse jogando bem, os relatos seriam: ‘O jogador gay está jogando bem’. E se eu jogasse mal, seria: ‘Ah, aquele cara gay, ele está com problemas porque é gay’”, avaliou o agora ex-jogador, que irá tentar ganhar a vida no mundo da moda. Ele é dono de uma marca de roupas masculinas, a Halsey.

Apesar de todos os problemas que tem que enfrentar um jogador que assume ser gay, Rogers não acredita que o esporte seja homofóbico. “Não acho que o futebol é homofóbico. Mas claramente há algo ali. Porque ninguém estendeu a mão. Nenhum outro jogador disse que era gay. Então definitivamente ainda há trabalho a ser feito, certo?”, concluiu.

A constatação de Rogers é clara. Não é o primeiro caso de jogador gay, mas é evidente que a reação do mundo do futebol a isso ainda está longe do ideal. O ambiente é masculinizado e machista e há um excesso de preocupação com um jogador gay, como se isso fosse interferir no time.

O preconceito ainda é forte em ambientes como o futebol, muito machistas e onde a força física e virilidade são vistos com bons olhos – e são características não associadas aos gays, por um preconceito que homossexuais do sexo masculino são afeminados, algo que não tem embasamento algum.

Está na hora de superar isso. Mas esse não é um problema só do futebol. Esse é só um exemplo de uma sociedade que ainda tem problemas em reconhecer liberdades individuais. Há gays em qualquer área profissional e isso não é problema algum. A qualidade do jogar dentro de campo não é influenciada pelo fato do jogador ser heterossexual ou homossexual. O que deveria importar é apenas o desempenho em campo. Será que um dia só isso já será suficiente?

Informações: Trivela

Futebol: onde os gays não têm vez, por Cristiano Ramos Resposta

Não existe meio mais escrachadamente homofóbico que o futebol. Nem mesmo o religioso. Porque, no universo boleiro, o preconceito não só é difundido, mas também maquiado. Sob a justificativa de apenas brincar com o tema, a espantosa maioria dos torcedores solta piadas das mais jocosas, comentários extremamente pejorativos, sejam dirigidos a torcedores rivais, a jogadores, árbitros, cartolas.

Esta será a última trincheira do machão brasileiro. Quando todas as outras áreas tolerarem a diversidade sexual (ainda que por força da lei, mesmo que sem concordarem), o futebol ainda estará aí para sujeito gozar à vontade (que sempre é muita) os homossexuais, fazendo de conta que isso incomoda ninguém, que é algo inofensivo.

Não se trata de gastar a coluna Na Diagonal com julgamentos morais, com apologia do politicamente correto levado à radicalidade. Interessa é refletir, fazer pensar sobre como o futebol – um dos inúmeros fenômenos-sociais-espelhos de nossa cultura – pode dizer bastante sobre como lidamos com o tema da homossexualidade.

Nas redes sociais, por exemplo, é possível encontrar inúmeros professores, advogados, jornalistas, até militantes de Direitos Humanos que, a pretexto de zoar o time e o torcedor adversários, investem tempo para criar ou repassar tiradas homofóbicas. São os mesmos que estão sempre malhando figuras como Jair Bolsonaro, Silas Malafaia e Marcos Feliciano, justamente por perseguirem homossexuais.

Essa gente muitas vezes se antecipa às possíveis críticas, adianta logo suas teorias: “Futebol não é coisa séria, não dá para considerar comentário nenhum homofóbico se assunto em questão for jogo de bola”. “Intenção é ofender ninguém, é só para desopilar, dar uma amenizada na discussão”.“Faço pra tirar sarro mesmo, mas não sou homofóbico, tenho até amigo gay” (sic).

Dá para crer que muitos torcedores pensem assim, genuinamente – o que não implica terem razão. Dureza é aceitar que educadores, formadores de opinião e até militantes de Direitos Humanos saiam com explicações desse tipo. Eles sabem que:

1. Futebol possui mais adeptos no mundo do que maioria das religiões e instituições; é traço cultural e negócio; e, como tal, não só reflete, mas também ratifica, amplia e até distorce valores morais.

2. A tradição de piadas homofóbicas é responsável não só por conflitos entre torcedores, por ofensas a árbitros etc. Ela edificou também uma das esferas mais hostis à inclusão da comunidade LGBT de que se tem notícia. Ou alguém acredita que a ausência de atletas, diretores, juízes e cronistas esportivos declaradamente gays é somente prova de que estes não existem no futebol?

Comum demais: quando o adversário vai muito bem das pernas, de contas em dia e ganhando tudo dentro de campo, o único meio de atingir o seu orgulho parece ser as piadas homofóbicas. Custa fortunas do Bill Gates e do sofrido Eike Batista acreditar que alguém grite “seu time é de veado” sem a mínima intensão de ofender.

Como alvirrubro que sou, nunca entendi porque a nóia se rubro-negros e tricolores defendem que somos o clube das “barbies”. Ora, eu ficaria muito satisfeito se toda a comunidade LGBT fosse Timbu, se ela ajudasse a lotar a Arena Pernambuco. Que problema nisso? Por que eu deveria me ofender com a possibilidade? Por que as pessoas tomam isso como meio de diminuir o torcedor do Náutico, assim como fazem outros com o Sport, ao falar das “suzis”?

Acontece que, para boa parte da população, ser comparado ou mencionado em convívio direto com gays e lésbicas é sim (ainda e espantosamente) algo constrangedor.

Muitos estudiosos trabalham as maneiras como futebol, Carnaval e outras manifestações culturais podem ser esclarecedoras, chaves para interpretação da nação, meios de nos conhecermos melhor. Não se trata de “culpar a janela pela paisagem” (existe frase mais cretina?), tampouco é objetivo demonizar torcedores (organizados ou não), profissionais do esporte e mídia especializada. Como em qualquer discussão, mais importante do que declarar vilões e vítimas é aprimorar modos de convivência, fortalecer a harmonia social, tentar reduzir a intolerância.

Existe aquele ditado matuto: “prefiro uma briga animada, em vez de conversa chata”. Coluna de hoje foi escrita no clima inverso, deixando o humor de lado. Não para inibir comentários – eles provavelmente hão de surgir, zoando bastante este cronista, e serão muito bem-vindos. Problema é que quase toda brincadeira perde a graça, cedo ou tarde. E isso de ridicularizar gays já não me faz rir há muito.

De repente, eu é que envelheci muito rápido. Ou, quem sabe, tenha perdido o humor do dia pra noite. Talvez (com certeza alguém aí aventou a hipótese) eu seja enrustido e nem sei!De qualquer modo, desconfio que prego no deserto sem refrigerante, suspeito que remo em jangada de tabica furada. Futebol seguirá como a derradeira trincheira da testosterona, onde os gays não têm vez, e o preconceito rola redondinho, disfarçado ou alienado.

*Cristiano Ramos é jornalista e escreve para o Blog do Torcedor nas terças.

Rússia: Torcida do Zenit pede ao clube para não contratar gays, negros e latinos Resposta

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Jogador brasileiro Hulk.

Mais homofobia vinda da Rússia. Lamentável. Lamentável, também, o racismo!

Torcedores do Zenit, de São Petersburgo, na Rússia, causaram um grande escândalo nesta segunda-feira ao publicar um manifesto no qual pedem para que o clube deixe de contratar jogadores gays, negros ou latino-americanos.

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Este absurdo surgiu em meio a uma onda de protestos de atletas russos do elenco contra o valor astronômico (mais de R$ 100 milhões) desembolsado para a contratação do brasileiro Hulk, que chegou ao clube em setembro e foi o jogador mais caro da última janela de transferências do futebol europeu.

Apesar do conteúdo nitidamente racista e homofóbico do texto publicado no seu site, o grupo de torcedores Landskrona rejeitou qualquer acusação de racismo. “Não somos racistas, mas, para nós, a ausência de jogadores negros no Zenit faz parte de uma importante tradição, que marca a identidade do clube”, disse o manifesto.

São racistas, sim! Deveriam ter a coragem de assumir isso.

O texto ainda diz que o clube “nunca foi mentalmente relacionado com África, América do Sul, Austrália ou Oceania” e alega que o clube “está impondo jogadores negros no time praticamente à força”.

A empresa semiestatal Gazprom, gigante mundial do mercado de gás natural e proprietária do Zenit, divulgou um comunicado para pedir mais tolerância ao seus torcedores e deixou claro que “a contratação dos jogadores não tem nada a ver com a nacionalidade ou a cor da pele”.

“A luta contra qualquer forma de intolerância é um princípio de base para o desenvolvimento do clube, do futebol e do esporte no mundo todo”, completou a Gazprom.

O elenco do Zenit já havia sido personagem de uma controvérsia envolvendo a chegada de Hulk. Em setembro, vários jogadores do elenco boicotaram o atacante brasileiro por conta do alto salário que ele recebe. O volante Desinov, antigo capitão da equipe, chegou a declarar que tais valores só se justificariam se fossem Messi ou Iniesta.

Trecho do manifesto (cuidado para não vomitar no computador!):

“Nós não somos racistas, mas a ausência de jogadores negros na escalação do Zenit é uma importante tradição que enfatiza a identidade do clube e nada mais.

Nós como o clube mais setentrional das grandes cidades europeias nunca compartilhamos a mentalidade da África, América do Sul, Austrália ou Oceania. Nós apenas queremos jogadores de outras nações eslavas, como Ucrânia e Belarus, assim como dos países bálticos e Escandinávia. Temos a mesma mentalidade, histórico e cultura que estas nações.

Grande parte desses campeonatos é jogada em climas duros. Nessas condições, às vezes é difícil para os jogadores técnicos de países quentes exibirem seus talentos no futebol de forma completa. Queremos jogadores mais próximos da nossa alma e mentalidade para jogar pelo Zenit. E somos contra a inclusão de representantes das minorias sexuais no time”.

Imagina o quanto o Hulk (um gato, por sinal!) não deve sofrer jogando no Zenit. Deveria haver uma campanha mundial, séria, contra o racismo e a homofobia no futebol. A Fifa poderia deveria fazer algo.

Sobre o Zenit, ele uma empresa semiestatal, a Gazprom, em um país cujo governo é homofóbico. Aí fica complicado mesmo.

‘Não tenho dúvidas que é gay’, diz irmão de Bruno sobre Macarrão 1

Para irmão de Bruno, Macarrão é gay

Rodrigo Fernandes, irmão do ex-goleiro Bruno, voltou a dominar o noticiário local e concedeu entrevista nesta sexta-feira (23/11) para o programa ‘Balanço Geral’, apresentado por Douglas Cordeiro, na Tv Antena 10, afiliada da TV Record no Piauí.

Convencido de que o irmão é inocente, afirmou que só acreditará no assassinato de Eliza se o corpo aparecer. Além disso, fez acusações e deixou subentendido que Bruno estaria sofrendo uma perseguição “É uma marcação da Justiça para cima dele”, disse.

Sobre as suspeitas de um envolvimento amoroso entre Bruno e Macarrão, Rodrigo disse que “nunca percebeu atitudes homossexuais” no irmão. Mas quanto à Macarrão ele é categórico ao afirmar “Alguém que escreveu aquela frase nas costas, eu não tenho dúvidas que é gay”, opinou.

Relação com a família

Segundo Rodrigo, o irmão rejeitou a mãe por ela ser lésbica “disse que se ela deixasse a pessoa com que vive poderia procurá-lo, senão nunca mais”.

Também afirmou que Bruno chorou ao ser surpreendido com a visita que ele o fez na prisão “Não esperava, chorou muito e disse que estava arrependido de ter abandonado a mãe e os irmãos”, concluiu.

Que babado, hein…