Homofobia e homossexualidade no futebol ainda são tabus nas arquibancadas Resposta

O ano de 2013 foi expressivo para a discussão de dois grandes tabus do futebol brasileiro: a homossexualidade e a homofobia. Em 9 de abril, torcedores do Atlético-MG fundaram a Galo Queer, uma página no Facebook que reúne torcedores alvinegros com uma postura anti-homofobia e anti-sexismo. “Galo” é o apelido do clube de Minas Gerais e “Queer”, em inglês, significa gay. Em 15 dias, a página ganhou cinco mil fãs, e hoje conta com mais de 6.600.

O gesto da torcida atleticana motivou outras a fazerem o mesmo. Ao longo do mês de abril, surgiram páginas semelhantes de torcidas de todo o país: Cruzeiro, São Paulo, Náutico, Grêmio,Vitória, Bahia, Internacional, Palmeiras, Corinthians, Flamengo, entre outros. A lista é extensa e mostra que a discussão da homofobia no futebol, até então, ainda estava dentro do armário.

Integrante da Galo Queer no Mineirão Facebook/Reprodução

Integrante da Galo Queer no Mineirão Facebook/Reprodução

“O estádio é um ambiente super homofóbico. Lá não se vê nenhuma manifestação de diversidade afetiva”, diz o jornalista – e palmeirense – William de Lucca, colaborador da Folha de S. Paulo em João Pessoa, na Paraíba. Ele é homossexual assumido e se esforça para prestigiar os jogos do Palmeiras em cidades próximas, como Recife ou Natal. William já era militante LGBT e, assim que ouviu falar, aderiu à página anti-homofóbica “Palmeiras Livre”.

“Em 2008, eu morei alguns meses em São Paulo e tinha um namorado que era palmeirense também. A gente foi até aconselhado por um amigo dele da torcida organizada a não ter nenhuma demonstração de afeto dentro do estádio, porque a gente poderia ser agredido”, lembra. “A gente sempre fica com medo. Em outros ambientes, sou muito seguro quanto a manifestar meu afeto: ando de mão dada e tal, inclusive na rua, mas acho que o estádio de futebol é mais hostil do que a própria rua, sabe? A homofobia é muito mais explícita”, conta.

“A gente só não tem mais relatos disso porque os homossexuais que torcem nos estádios não arriscam nenhum tipo de demonstração afetiva”, conclui William.

Dentro da Palmeiras Livre, assim como nas outras organizações, ainda se discute quais serão os próximos passos. Os integrantes querem ocupar as arquibancadas, mas temem agressões físicas, já que as verbais ocorrem diariamente. “Dia sim e outro também nós recebemos ameaças”, conta a fotógrafa e analista de mídias sociais Thaís Nozue, também integrante da Palmeiras Livre. “As pessoas vem ameaçando, dizendo que estão mexendo com o time errado, que eles vão descobrir quem é, que não sei o quê”. Por enquanto, a hostilidade está restrita a mensagens no Facebook como: “Vão morrer”, “Experimenta aparecer na torcida e vocês vão apanhar”, “A Mancha [maior organizada do Palmeiras] bate em polícia e não vai bater em um monte de bicha?” – o que não significa que a ameaça venha da Mancha, como explica Thaís.

Segundo ela, a causa da Palmeiras Livre também foi rechaçada pelas organizadas alviverdes. “A gente até tentou uma aproximação com as organizadas, mas elas deram um recado para a gente não se meter com elas. Às vezes aparecem pessoas se dizendo das organizadas nos ameaçando, mas a gente não tem como comprovar se são mesmo”, diz.

A homofobia veste verde?

Procurado pela Pública, Marcos Ferreira, o Marquinhos, presidente da Mancha Alviverde, não quis dar uma entrevista sobre a polêmica da homofobia e sobre um episódio envolvendo o volante e lateral Richarlyson, hoje no Atlético-MG e tido como homossexual, apesar de sempre se declarar heterossexual.

No início de 2012, o Verdão estudava a possibilidade de contratar Richarlyson. A Mancha Verde convocou um protesto no dia 4 de janeiro, na frente do Centro de Treinamento (CT) do Palmeiras, zona oeste de São Paulo. Segundo a torcida o motivo era uma rixa antiga com o jogador, que estava à beira de um acordo com o Alviverde, mas acabou indo jogar no rival São Paulo. Porém, uma grande faixa estendida por duas pessoas durante aquele ato dizia: “A homofobia veste verde”.

Ao telefone, Marquinhos negou repetidas vezes que a Mancha tenha algo a ver com a faixa – ela seria obra de duas pessoas desconhecidas da organizada que foram ao protesto. Mas ele disse que “não via nada de agressivo na faixa”. A Pública também tentou contato com Richarlyson, mas foi informada pelo seu empresário, Julio Fressato, que ele estava se recuperando de uma cirurgia.

O selinho de Sheik e o voo das gaivotas

Sheik deu selinho em amigo e causou a ira de torcedores do Corinthians

Sheik deu selinho em amigo e causou a ira de torcedores do Corinthians

Na esteira das iniciativas anti-homofóbicas, dois episódios jogaram o Corinthians no centro da discussão. O atacante Emerson Sheik, herói corintiano da inédita conquista da Libertadores em 2012, foi vítima de uma onda de ataques homofóbicos depois da vitória do Corinthians sobre o Coritiba por 1 a 0, no Pacaembu, no dia 18 de agosto. Para comemorar, Sheik postou uma foto em seu perfil oficial no Instagram em que aparecia dando um selinho em um amigo de longa data, o empresário Isaac Azar. “Tem que ser muito valente para celebrar a amizade sem medo do que os preconceituosos vão dizer. Tem que ser muito livre para comemorar uma vitória assim, de cara limpa, com um amigo que te apoia sempre”, escreveu.

No dia seguinte, cinco integrantes da Camisa 12, segunda maior torcida organizada do Corinthians, foram ao CT do clube protestar contra a atitude de Sheik, levando três faixas que diziam “Vai beijar a P.Q.P. Aqui é lugar de homem”, “Respeito é pra quem tem” e “Viado não”.

Dois meses depois, o jornalista e apresentador Luiz Felipe de Campos Mundin, que assina como Felipeh Campos, anunciou que faltava pouco para fundar a já polêmica Gaivotas Fiéis, primeira torcida organizada com conceito gay do Corinthians.

A Pública conseguiu entrevistar um personagem importante em ambos os episódios, Marco Antônio de Paula Rodrigues, de 34 anos. Conhecido pelo apelido “Capão”, por ter crescido no Capão Redondo, bairro periférico da zona sul de São Paulo, ele é presidente da Camisa 12, e foi um dos cinco que protestaram contra o selinho de Sheik. Ele revela ter sido o autor da faixa que dizia “Viado não” – a única, dentre as três, que considera agressiva. “Só essa foi um pouco mais forte, foi um excesso. Eu que risquei com o spray essa faixa, eu até pensei [que era agressiva], mas depois que nós já estávamos lá, a gente não podia voltar atrás”, diz. Trajado da cabeça aos pés com roupas da Camisa 12 (boné, camiseta, agasalho, bermuda e até meias da torcida), Capão é assertivo, olha nos olhos e tem a voz rouca. Aceitou falar durante uma hora e meia com a reportagem da Pública na sede da torcida, no bairro paulistano do Pari, região central, para “dar a explanação” sobre os dois episódios.

Sobre a iniciativa de Felipeh Campos, Capão vê a nova torcida gay como puro marketing. “Acredito que ele está pensando mais numa autopromoção do que numa torcida organizada. Porque para nós, uma torcida organizada começa como a gente sempre troca ideia nas torcidas: o cara vai para uma caravana, o cara participa de vários jogos do Corinthians na arquibancada e não na numerada, a pessoa participa de inúmeras manifestações corintianas que teve nesses últimos anos, tanto de protesto contra diretoria, contra jogador. Tem uma caminhada ideológica dentro de uma instituição para você fundar uma torcida organizada. Torcida organizada não é um comércio, mano”, argumenta.

“Tomei muita borrachada da polícia por aí, passei muita fome na estrada, nunca fomos pra qualquer lugar e fomos bem recebidos por qualquer órgão que cuida da organização do jogo no estádio, da segurança pública, nós sempre fomos maltratados por muitos deles, então a torcida organizada não é simplesmente chegar e falar: ‘Ó, vou criar uma torcida hoje. Vou criar uma camisa e vou pro estádio’”.

Torcedores foram ao CT exigir pedido de desculpa de Emerson Sheik por selinho em amigo

Torcedores foram ao CT exigir pedido de desculpa de Emerson Sheik por selinho em amigo

Para Capão, é “inaceitável” a escolha do nome da torcida gay e a corruptela do símbolo do Corinthians – no brasão da Gaivotas, além da nova ave, o símbolo do Corinthians tem como fundo um espelho de maquiagem com direito a pincel e lápis, e a bandeira do Estado de São Paulo foi pintada com as cores do arco-íris, ícone do movimento gay.

Símbolos da Gaviões da Fiel e da Gaivotas Fiéis. Para a Gaviões, houve plágio do jornalista Felipeh Campos (Foto: Reprodução)

“Eu acho que o rapaz lá acaba beirando até o ridículo… Ele está transmutando as nossas coisas. Tanto pelo nome que ele coloca se referindo a uma torcida que tem uma puta tradição [Gaviões da Fiel, a maior organizada do Corinthians, fundada em 1969] quanto do nosso símbolo do Corinthians, ele colocar um espelho e uns negócios de maquiagem no símbolo… Numa entrevista que eu vi, perguntaram: ‘Mas por que isso daí?’ E ele: ‘Ah, porque na verdade o corintiano vai gostar de se pintar na arquibancada’. Meu, torcida do Coringão é 90 minutos, mano. A gente gosta é de cantar, de sofrer, de chorar pelo Coringão. Não é de se pintar. Com todo o respeito, nem as nossas mulheres fazem isso”, afirma Capão, que é contra a existência de uma torcida gay. “Já digo de pronto que eu não sou favorável a ter uma torcida gay, porque eu acho que os gays não precisam disso daí pra poder se achar numa sociedade que já está abrangendo todo mundo”.

Perguntado se existem gays na Camisa 12, Capão não hesita: “Nós não temos gays na torcida, mano. Pelo menos nunca soubemos, entendeu. Meu, se o cara tá lá, tá assistindo o jogo. Tudo bem, nós vamos respeitar, mas qualquer faixa assim, nós somo contra mano. Nós não queremos, de verdade mano, aqui dentro da 12. Pra nós é sério o estádio, não é só pra brincar”. Capão, explicando que, se “no meio de um gol os dois de repente se beijarem no meio da nossa torcida”, seria “ruim”: “O estádio pra nós é um templo”.

O lastro, para Capão – que não se considera homofóbico –, é sempre a tradição. “O cara ir pro jogo, se for um homem, de shortinho amarradinho, camisa amarradinha e todo pintado… Pra nós não rola meu, de verdade. Porque o nosso tradicionalismo, infelizmente, meio ogro, tá ligado, até beirando homem da caverna não permite isso daí, certo?”. Se a Camisa 12 fosse homofóbica, exemplifica Capão, “a gente juntava os associados da 12 e ia lá na passeata gay quebrar todo mundo. No entanto que ninguém tá muito se manifestando [sobre a Gaivotas Fiéis], certo? Por quê? Porque tudo que a gente fala, a mídia distorce”.

Sobre o episódio do selinho do Sheik, Capão diz que o problema foi o atacante ter declarado que o beijo era para comemorar a vitória do Corinthians. “Quando ele falou que ele estava fazendo aquilo pra comemorar o jogo ele já transferiu a responsa pro Corinthians”, afirma, explicando que, depois do episódio, onde quer que o Timão jogue é recebido com gritos de “beija beija beija” pelos torcedores rivais. “Estávamos ali [no protesto] representando muitos torcedores. Muitos pediram para que a gente tomasse a frente, tanto que eu recebi inúmeras congratulações depois”, diz.

Gaviões X Gaivotas

A Gaviões da Fiel, maior organizada do Corinthians, fez uma denúncia de crime contra a propriedade industrial no 1º DP de Guarulhos, contestando a sátira à marca da torcida, que é registrada. A torcida reclama que a proximidade dos nomes e símbolos das duas pode induzir ao erro. “Eu não sei onde eles enxergaram plágio”, contesta Felipeh Campos, da Gaivotas. “A minha torcida chama Gaivotas Fiéis, não é gavioa. Já começa que Gaivota é feminino, não é masculino. Se eu tivesse colocado cílios e salto alto no gavião, aí eu até acredito que poderia ter sido uma questão de plágio. Porém eu não estou utilizando as peças do emblema para plagiar alguma coisa. Entendo isso como uma retaliação homofóbica”, diz.

Feliphe Campos apresenta novo logo da torcida Gaivotas Fiéis

Feliphe Campos apresenta novo logo da torcida Gaivotas Fiéis

Felipeh conta que vem sendo ameaçado nas redes sociais, e que foi agredido verbalmente na semana passada, na Avenida Paulista. “As ameaças são coisas do tipo ‘Cuidado, eu vou te matar’, ‘Você já tá jurado de morte’, ‘Abre teu olho’. Então você vê que são atitudes extremamente homofóbicas e preconceituosas, elas não têm outros motivos”, diz. Sobre a agressão ao vivo, ele conta que ocorreu na saída de seu trabalho, na sede da TV Gazeta, na avenida Paulista. “Eu estava com um amigo meu na Paulista e um cara passou, me esbarrou e começou a me xingar. E eu falei: ‘É comigo que você tá falando?’ E ele: ‘ Você acha que é com quem? Tá pensando que você e a sua turminha vai entrar em estádio? Não vai não, mano’. E eu falei: ‘Bom, vamos conversar, abaixa o tom de voz’. E aí ele continuou a gritar e eu falei: ‘Ótimo, a polícia está vindo ali, eu vou te incriminar agora em crime de homofobia e você vai sair daqui para a cadeia’. Aí na hora que ele viu que a polícia vinha vindo a pé, ele meio que saiu de canto e deu um pinote”, relata.

Felipeh Campos conta que desde pequeno frequenta estádios. “O futebol nas décadas de 70 e 80 era uma grande festa. Mas foi crescendo de uma forma tão grande que deixou de olhar para a questão democrática. Não está escrito na porta do estádio que só é permitida a entrada de homens, né? Eu acredito que não só os gays têm que frequentar os estádios, como a mulher, as crianças, entendeu? O futebol é pra todos”, diz. “Mas é claro que o conceito da torcida é gay e o meu objetivo maior é inserir o público gay no estádio de futebol. Eles [as organizadas] monopolizaram os estádios”, diz.

De fato, a divisão do estádio do Pacaembu é um dos argumentos de Capão para rejeitar a convivência com as Gaivotas. Por determinação da Federação Paulista de Futebol, as organizadas do Corinthians têm que ocupar as arquibancadas Verde e Amarela, atrás de um dos gols, nos jogos em que o clube é mandante. Se ficasse fora desse setor, a Gaivotas estaria violando a regra. “Mas dentro desse setor, nós já temos seis torcidas: temos a Gaviões da Fiel, temos a Camisa 12, a Pavilhão 9, a Estopim da Fiel, a Coringão Chopp e a Fiel Macabra. São seis torcidas que estão ali e todas elas obtiveram a caminhada. Ninguém chegou do nada não”, argumenta Capão.

Felipeh garante que o objetivo não é “fazer represália com qualquer tipo de segmento sexual”. Porém, sobre dividir espaço com as outras organizadas, ele é enfático. “Nem que eu tiver que pedir segurança para o exército. Mas que a minha torcida vai entrar nos estádios, isso vai, com certeza. Nem que a gente tenha que chegar de carro-forte, de tanque”. Ele ressalta que a sua torcida será profissional e que todo o corpo diretivo será remunerado, diferentemente das outras organizadas.

Procurado pela Pública, Jerry Xavier, diretor da Gaviões da Fiel, disse que a torcida não se pronuncia sobre esse tema. O Corinthians também afirmou, via assessoria, que não se manifesta a respeito de torcidas.

Homofobia bate recorde no Brasil

O Brasil, o país do futebol, vem sendo líder no ranking de mortes por homofobia. Segundo dados do relatório “Assassinatos de Homossexuais (LGBT) no Brasil”, de 2012, do Grupo Gay da Bahia, o Brasil concentra 44% do total de assassinatos por motivação homofóbica no mundo. Em 2012, foram registradas 3.084 denúncias de violações ligadas à homofobia e 310 homicídios por esse motivo.

Estádio: a terra do macho

“Por ser o estádio um ambiente que tem uma série de permissões nas relações masculinas – carinhos, afetos, às vezes até mesmo agressões – é necessário que esse ambiente seja considerado seguro para os homens. Para garantir essa suposta ‘segurança’, os torcedores precisam reforçar a sua masculinidade. E uma das coisas que melhor reforça a masculinidade na nossa cultura é a homofobia. Por isso ela aparece de forma tão gritante”, afirma o pedagogo e professor da UFRGS, Gustavo Andrada Bandeira, autor da tese de mestrado “‘Eu canto, bebo e brigo…alegria do meu coração’: currículo de masculinidades nos estádios de futebol”.

Para Bandeira, esse é o motivo da rejeição às torcidas gays: “Se a torcida do Corinthians, do Grêmio ou do Internacional for a primeira a levantar uma bandeira pró ações afirmativas, ela poderá ser chamada de a ‘torcida gay’, e as torcidas acham que isso é um problema”, diz.

Para Marco Antonio Bettine de Almeida, professor livre docente na Pós-graduação em Mudança Social e Participação Política da EACH-USP, a reação é “natural” num espaço que sempre foi dominado pelo masculino. “A partir do momento que as agendas de visibilidades desses grupos excluídos, que tiveram seus direitos cerceados, que são espancados, é natural, vendo a representação que o futebol tem no Brasil, começar toda essa movimentação de garantir uma representação nesse espaço eminentemente masculino, do macho, do falo”. Para ele, no entanto, há espaço para negociação entre os grupos LGBT e as organizadas. “Uma mulher no estádio é aceita, por exemplo, mas tem que representar os papéis dentro do estádio, que é torcer, xingar, participar. As torcidas gays ou não gays têm que incorporar um pouco da história desse espaço do torcer. E conhecer, minimamente, os códigos, senão vai gerar conflito. Porque o espaço é um espaço sagrado e tem uma carga cultural muito forte”.

Bandeira discorda. “Se é uma torcida gay, que ela tenha comportamentos diferentes das torcidas não gays. É sempre complicado quando a gente quer transgredir as regras de gênero sexual num ambiente muito marcado. Mas me parece que seria muito mais interessante se eles fizessem algo diferente”. Foi essa a aposta da Coligay, a primeira torcida homossexual do país, que em plena ditadura militar conquistou seu espaço dentre os torcedores do Grêmio (leia Box).

Uma inspiração para o caso brasileiro pode ser a GFSN (Gay Football Supporters Network, Rede de Torcedores de Futebol Gays, numa tradução livre). Fundada em 1989, a associação do Reino Unido tem diversas iniciativas para a inserção do público LGBT no futebol. “Estamos em contato permanente com muitos clubes para recomendar políticas anti-homofóbicas por parte deles”, afirma Simon Smith, do departamento de comunicação. “Ajudamos, por exemplo, a consolidar os Gay Gooners, a torcida LGBT do Arsenal e conseguimos o apoio formal de representantes do Liverpool e do Everton para a parada do orgulho LGBT da cidade de Liverpool. Dentro de campo, organizamos há dez anos campeonatos de futebol voltados ao público LGBT para a inclusão no esporte”, conta Smith.

A GFSN também registra com precisão britânica a ocorrência de gritos e cânticos homofóbicos nos estádios – e faz campanha permanente contra eles. “Na temporada passada, os torcedores do Brighton & Hove Albion FC sofreram com cantos homofóbicos em 72% dos jogos que disputaram. Nós documentamos isso e enviamos à FA (Football Association, a CBF inglesa), que ainda não tomou nenhuma atitude. Mas nós continuamos pressionando”, diz.

No próximo ano, a Copa do Mundo promete ser palco de discussão sobre homossexualidade – pelo menos em São Paulo, onde mais de 40 mil pessoas são esperadas para acompanhar a transmissão dos jogos nos telões da Fan Fest, no Vale do Anhangabaú, centro da cidade. Ali, a prefeitura planeja realizar uma intervenção para discutir homofobia, com direito a exibição de vídeos em telas e distribuição de folhetos sobre o tema. Outra ação que está sendo estudada é transmitir os jogos em telões no Largo do Arouche, um “point” LGBT da cidade, para esses torcedores.

Fonte: Ig Esporte

“Bambi Tricolor” ganha adeptos na Internet, mas medo de agressão breca ação em estádios Resposta

Criadora da página "Bambi Tricolor", do São Paulo, foi ameaçada pelo Facebook

Criadora da página “Bambi Tricolor”, do São Paulo, foi ameaçada pelo Facebook

“Paixão pelo futebol, amor ao clube e até rivalidade entre adversários não tem nada a ver com homofobia. Se, até agora, Bambi foi um apelido usado para discriminar, por que não adotá-lo com orgulho e desarmar o preconceito? Pelo SPFC livre”. Assim é descrita a página “Bambi Tricolor”, criada recentemente noFacebook para discutir assuntos como machismo e homofobia no Morumbi. A repercussão foi grande, gerando discussõesonline e também rendendo ameaças aos criadores da comunidade, que agrega quase mil membros.

Situação semelhante viveram internautas de outros cantos do país, por onde se espalhou o fenômeno das páginas virtuais que lutam contra o preconceito nos estádios de futebol. A precursora foi a “Galo Queer”, criada por uma torcedora do Atlético-MG, que abriu as portas para o surgimento de semelhantes, como a “Palmeiras Livre”, a “Bahia Livre”, a “Grêmio Queer” e muitas outras. O problema, segundo seus criadores relatam ao UOL Esporte, são as constantes ameaças sofridas no mundo virtual, o que impede a saída desses movimentos para a arquibancada, já que existe o medo de agressão física.

“Frequentamos o estádio e temos esse objetivo. Mas queremos fazer tudo com calma, pois é preciso garantir a integridade física de todos os participantes. Infelizmente, a intolerância é muito grande e, a julgar pelas ameaças que recebemos na página, sabemos que não será fácil fazer protestos no estádio. Estamos pensando na melhor forma de fazer isto”, explica a cientista social criadora da “Galo Queer”, que já tem cerca de 5,6 mil adeptos e muitos “likes” e comentários em suas centenas de postagens.

As ameaças virtuais envolvem até mesmo frases como “eu sei onde você mora” e “você vai ter que aguentar as consequências”, como relatam os idealizadores das páginas.

“Teve ameaça de rastrear meu endereço pelo IP, outro jurou que nós apanharíamos no estádio. Teve quem nos desafiasse a mostrar o rosto e o nome, um que escreveu dizendo que sabia quem eu era, conhecia minha mãe. Teve até um que dizia ter acesso aos servidores da NET e que ia cortar minha conexão”, diz A.B, criadora da “Bambi Tricolor”.

A.B é a favor do fim das manifestações racistas, machistas e homofóbicas no Morumbi, além da adoção do personagem Bambi, da Disney, como um dos mascotes do tricolor.

“Se o São Paulo adotasse o mascote escancarando que é um clube que se reconhece como ‘gay’, no sentido de ser ciente e aberto à diversidade, seria histórico e maravilhoso”, opina.

Ela também diz que não vê, a curto prazo, a passagem dos movimentos virtuais para as arquibancadas, mas afirma ter esperança de que tenha sido plantada uma “semente” para um futuro diferente.

“Não vejo a possibilidade disso acontecer sem que a segurança dos envolvidos esteja de alguma forma ameaçada. Mas quem sabe esse movimento que começou no mundo virtual não seja uma sementinha pra algo maior, futuro, nos estádios? Torço demais por isso”, ressalta.

“A diversidade está aí”

O movimento surge em meio a um cenário de apoio aos homossexuais no esporte. Recentemente, atletas como o jogador de futebol Robbie Roggers e o de basquete Jason Collins saíram do armário e ganharam apoio público, até mesmo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Na Alemanha, já há cartilha para encorajar jogadores a assumirem a preferência sexual. No Brasil, o 2º Pesquisão do UOL Esporte aponta que a maioria dos jogadores conhece algum atleta gay.

Os criadores das páginas dizem gastar bastante tempo mediando discussões e postando notícias. Notícias envolvendo a luta pelos direitos dos homossexuais, por exemplo, costumam render vários “curtir”, “compartilhar” e comentários. Segundo a socióloga Kátia Azambuja, membro da “Grêmio Queer”, isso só mostra a força do movimento anti-preconceito que vem conquistando o Facebook.

“É uma demonstração que ainda existem pessoas dispostas a lutar por seus direitos e mostrar que a diversidade está aí e deve ser aceita e respeitada pela sociedade. E espero que sirva para unir as torcidas e mostrar que a rivalidade está dentro das quatro linhas e que nas arquibancadas e nas ruas”, diz.

Outro passo importante, segundo os idealizadores, é levar a luta anti-preconceito aos clubes. Algo que vem sendo difícil, já que as equipes não têm demonstrado interesse em ligar-se e mostrar apoio à luta dos torcedores.

“Gostaríamos, sim, de um posicionamento, para também mostrar à sociedade de que lado o Palmeiras está”, conta a estudante Thais Nozue, da “Palmeiras Livre”.

“Lamento que os dirigentes não consigam sequer acenar positivamente para um movimento que, além de declarar seu amor por futebol e pelo clube, pede mais respeito e menos violência”, argumenta A.B, da “Bambi Tricolor”.

As exceções são os rivais Atlético-MG e Cruzeiro, que demonstraram apoio. “Sou totalmente a favor de qualquer manifestação. Se juntaram as duas torcidas rivais, sou ainda mais a favor”, disse Eduardo Maluf, diretor do alvinegro, aoUOL Esporte. Por meio de sua assessoria, a diretoria celeste disse também concordar e apoiar as atitudes e ações dos criadores das páginas no Facebook.

O próximo objetivo é conseguir a união entre os criadores de páginas anti-preconceito. Por enquanto, há apenas conversas virtuais, mas todos dizem esperar uma aproximação maior, com intercâmbio de ideias e planejamento de ações conjuntas, dando ainda mais força ao movimento.

“Gostaria de ter contato com o pessoal das outras páginas, principalmente a do ‘Galo Queer’, pois foram vanguarda nesse movimento”, diz Kátia, da irmã “Grêmio Queer”.

CRIADORA DA “BAMBI TRICOLOR” VIRA ATÉ PSICÓLOGA DE INTERNAUTA

  • Reprodução/Facebook“Tive conversas impressionantes, bacanas mesmo. Em uma dessas conversas, um adolescente acabou dizendo que ele mesmo não era homofóbico, que ele acreditava ser bissexual, mas que ninguém no círculo de amizade dele sabia. Além de pedir pra eu jamais dizer isso publicamente, ele acabou reconhecendo que o desconforto que ele sentia sobre a página e o nome Bambi tinha a ver com aquele momento delicado da vida dele. Só essa conversa já valeu ter feito a ‘Bambi Tricolor'”, conta a criadora da página.

MEMBRO DE “GRÊMIO QUEER” RECLAMA DE ABUSOS NOS ESTÁDIOS

  • Reprodução/Facebook“O machismo no estádio é grande. Normalmente eu ia aos jogos com amigas mulheres e sempre acontecia uma passada de mão, um puxão de cabelo e alguma piadinha”, relata a socióloga Kátia Azambuja, que completa: “Enquanto os homens não respeitarem as mulheres, e seguirem nos considerando seres de 2° classe ou meros objetos sexuais, nunca viveremos numa sociedade igualitária”

“PALMEIRAS LIVRE” APROVA CORAGEM DE ATLETAS QUE SAÍRAM DO ARMÁRIO

  • Reprodução/Facebook“Acho ótimo. Isso mostra o quanto a orientação sexual do atleta não interfere no seu desempenho. Aguardo, ansiosamente, o dia em que a orientação sexual de alguém e a exposição dessa questão na mídia não seja mais encarada como um posicionamento político e sim algo natural do ser humano”, opina Thais Nozue

“GALO QUEER” DIZ QUE NÃO ESPERAVA VIRAR HIT NA INTERNET

  • Reprodução/Facebook“Fiz a página apenas para divulgar entre meus amigos, pensando que algum dia poderíamos nos organizar pra fazer algo maior. Mas em três dias a página foi curtida por 3 mil pessoas. Acho que atendemos a uma demanda silenciosa. Pelo visto, muita gente que gosta de futebol já queria dar esse grito contra o machismo, a homofobia e a intolerância”, conta a criadora da página “Galo Queer”

Atleticanos e cruzeirenses ‘esquecem’ rivalidade e lutam contra homofobia 1

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Torcedores de Atlético-MG e Cruzeiro se “uniram” em prol de uma boa causa: lutar contra atitudes homofóbicas, presentes constantemente no meio futebolístico. Por meio das páginas “Galo Queer” e “Cruzeiro/Anti-homofobia” no Facebook, fãs das duas maiores equipes de Minas querem promover o debate sobre o assunto e também criar ações críticas contra o preconceito. A ideia surgiu do lado atleticano, com a criação da página na última terça-feira (9/4).

Oito marcas brasileiras declaram apoio ao casamento gay

Quatro marcas internacionais declaram apoio ao casamento gay

O nome escolhido, “Galo Queer”, faz referência ao termo inglês que significa algo estranho, fora do comum ou padrões. Mas é utilizado pelos nativos do país para se referir aos gays. Na quinta-feira, inspirados na ideia atleticana, cruzeirenses também criaram uma página semelhante, chamada “Cruzeiro/Anti-homofobia”. Os criadores, por meio da apresentação das duas páginas, disseram torcer pelas duas equipes, mas não revelaram a identidade.

Como em outros estados, em Minas Gerais, é comum atleticanos e cruzeirenses apelidarem preconceituosamente rivais. Aqueles que torcem pelo Atlético, por exemplo, costumam apelidar adversários de “marias”. Enquanto os torcedores celestes chamam os alvinegros de “rosanas”.

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Este tipo de comportamento só contribui para a intolerância e para atos violentos e preconceituosos, segundo os organizadores das duas páginas nas redes sociais. Até o final da noite, as páginas atleticana e cruzeirense tinham, respectivamente, 2400 e 400 “curtidas”.

A cruzeirense Isabela Oliveira, 24 anos, fez questão de curtir as duas páginas. “Eu fui criada dentro do Mineirão. Para mim, desde pequena, sempre foi normal xingar os atleticanos como “veados”, “bichas”, “frangas” e ouvir isso da outra torcida em relação à torcida do Cruzeiro. Mas os tempos estão mudando e a homofobia está cada vez mais em evidência. Muitas das pessoas usam esses xingamentos sem pensar que, realmente podem ter gays nas torcidas”, afirmou.

Bióloga, ela acha que os movimentos surgiram muito motivados pelas declarações preconceituosas do presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, deputado Pastor Marco Feliciano. “Porque um gay não pode torcer? São pessoas, apaixonadas por um propósito (o time) e não fazem mal a ninguém. Só querem ser respeitadas. Eu estou orgulhosa do movimento Cruzeiro/ Anti-homofobia e do Galo Queer, que foi o que começou. Precisou de um pontapé”, opinou.

O torcedor do Atlético, Luiz Souza Júnior (28), advogado, considerou a atitude positiva e espera que ganhe mais repercussão. “Toda forma de se manifestar é positiva, desde que não seja desrespeitosa coisa que não é. Lutar contra a discriminação e homofobia é algo importante que a nossa sociedade deveria se juntar para fazer. O futebol, como principal esporte do país e que reúne todos os estilos de pessoas é um bom canal social para isso”, observou.

O sociólogo da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e especialista em violência contra LGBT, Moisés Augusto Gonçalves, considera positiva a iniciativa e ressalta o papel importante das torcidas organizadas na execução de projetos que visem promover a diversidade.

“Estamos no mundo das redes sociais, em que temos a possibilidade de articulação, de contato e mobilização. Considero positivo este tipo de atitude, só tenho que parabenizar. Estamos pensando em um lugar de encontro, que não só possibilita o encontro de pessoas, mas como também a possibilidade da discussão”, analisou. “As torcidas têm essa dimensão, também, plural, da busca por direitos e deveres, e também pela diversidade”, acrescentou.

Polêmicas e mudança de atitude

Entretanto, não foram todos que aprovaram a criação. Na página atleticana, por exemplo, o escudo do Atlético foi modificado com as listras verticais em branco e preto sendo substituídas por outras cores. A ideia não agradou aos atleticanos, que disseram que a mudança teria sido feita por cruzeirenses.

“Boa noite, por favor tenha respeito ao escudo do Clube Atlético Mineiro, se você tem ideologia liberalista quanto simbologia sexual, faça o seu movimento sem o escudo e o nome do clube. Tire o escuto do Atlético Mineiro urgente ou aproveite e exclui a pagina”, escreveu Alexandre Moreno na página do movimento no Facebook.

Criação da página no facebook de combate à homofobia estimulou o debate do tema via twitter

Criação da página no facebook de combate à homofobia estimulou o debate do tema via twitter

A criação e divulgação do “Galo Queer” criou uma onda de revolta e polêmica por parte dos atleticanos no twitter. Vários torcedores resolveram se mostrar contra a iniciativa e chegaram a atribuir o fato à torcida do Cruzeiro, que teria criado o perfil no Facebook.

“Por que a GaloQueer apareceu só agora? Pegar o embalo que o Galo se encontra hoje? Pra aparecer, sei lá”, escreveu David Galo Vingador , no twitter. “Futebol sempre foi coisa máscula. Machismo ou não, sempre foi. Eu não concordo, não quero, e nem aceito esse tal de GaloQueer. Me respeitem”, disse João Paulo Cheab.

Por outro lado, outros torcedores do clube mineiro mostraram contentamento com a campanha e deram força para a criação. Como Gustavo Bicalho. “Viva o movimento Galo Queer! Iniciativa mais bonita e corajosa dos últimos anos no futebol. # Galoqueer”. Elen Campos também aprovou a ideia. “E em apenas dois dias, a Galoqueer fazendo sucesso no Facebook. Que orgulho!”, postou.

Fonte: UOL Esportes

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