Unaids critica suspensão de kit anti-homofobia 1

O coordenador do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids no Brasil (Unaids), Pedro Chequer, classificou como um retrocesso a decisão do governo federal de suspender a distribuição de material educativo com mensagens anti-homofobia e de incentivo ao uso da camisinha. “Recebemos a notícia com desapontamento e surpresa. Esperamos que a decisão seja revista”, disse.

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Para ele, a atitude compromete a imagem da política brasileira de prevenção à aids no cenário internacional. “A mensagem de independência pode ser substituída por uma visão retrógrada, de quem restringe suas ações em virtude de dogmas religiosos.”

O Estado informou sábado que o kit havia tido sua distribuição suspensa. Formado por seis gibis e material de orientação para professores, o kit havia sido produzido em 2010. Apesar do lançamento, os gibis não chegaram a ser amplamente distribuído, por motivos eleitorais. Para evitar polêmica com grupos religiosos, o governo decidiu guardar o material.

A nova suspensão foi causada pelo mesmo motivo. Conforme o Estado apurou, a ordem para a interrupção teria partido do Planalto. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, no entanto, assume a responsabilidade. “Fui eu que vetei”, afirmou.

A Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e Cultura (Unesco) que ajudou a produzir o material, também criticou a decisão. “O material aborda uma série de questões: combate à homofobia, necessidade do uso de preservativos, gravidez na adolescência. Temas que estão na sociedade, que devem ser discutidos e enfrentados”, disse a coordenadora do setor de educação da Unesco, Rebeca Otero.

Elogios. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, pastor Marco Feliciano, elogiou a decisão. “O ministro nada mais fez do que honrar um compromisso de governo. A bancada evangélica já havia manifestado o receio de que o kit circulasse novamente. Temos a garantia de que qualquer material de conteúdo mais polêmico não circule antes de ser avaliado e sem a nossa aprovação.”

Procurado, o Ministério da Saúde disse que a suspensão da distribuição teve três motivos. Embora tenha sido aprovado pela gestão anterior, o material teria de ser avaliado por uma comissão do Ministério da Educação. Além disso, o material não teria a mensagem que a aids não tem cura, algo tido como essencial pela pasta. Por fim, o kit não teria o logotipo do governo.

Ativistas fazem marcha fúnebre em São Paulo e ´enterram´ Programas de Aids 1

Protesto de ativistas

Vestidos de preto e num profundo silêncio, quebrado apenas quando alguns entoavam a marcha fúnebre, ativistas entraram na manhã desta sexta-feira, 30 de novembro, no prédio da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, na Av. Dr. Arnaldo, com uma coroa de flores simbolizando a morte dos programas governamentais de aids do Brasil. Os manifestantes seguiram pela Secretaria até sair pela porta da Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, onde houve um apitaço.

“Estamos aqui hoje (véspera do Dia Mundial de Luta contra Aids, 1º de dezembro) para exigir respostas mais eficazes das três esferas de governo contra a epidemia”, disse o Presidente do Fórum de ONG/Aids do estado de São Paulo, Rodrigo Pinheiro.

Para ele, que foi um dos principais organizadores do protesto, há um retrocesso nas políticas do País nas áreas da prevenção do HIV e assistência prestada aos doentes de aids. “Faltam profissionais de saúde, leitos especializados foram fechados e o governo federal se mostra conservador na implementação de campanhas de prevenção”, contou. “Aquela ideia de que moramos no país com o melhor Programa de Aids do mundo já era. Nossa mensagem neste protesto é de que aqui jaz o melhor programa de aids do mundo”, acrescentou.

O especialista em saúde pública e presidente do grupo Pela Vidda (Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids) de São Paulo, Mário Scheffer, lembrou que as manifestações das ONGs são históricas e servem para alertar a sociedade sobre a real situação da epidemia. “Neste ano, o protesto tem um sentido especial, pois há vários sinais de que houve paralisia e até incapacidade do País em responder aos novos casos de HIV. Esta não é uma epidemia controlada. Em algumas regiões do Brasil e em populações específicas há aumento do número de infecções”, comentou.

O representante, no estado de São Paulo, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+), Beto Volpe, critica a “banalização da aids”. Segundo Beto, a epidemia de HIV sofreu dois grandes preconceitos: a criação de grupos de risco e a ideia de cronificação da aids.

Protestto de Ativista 2

“Numa sociedade como a nossa em que sempre pega o que é mais conveniente, o HIV passou a ser considerado um risco apenas para os homossexuais, usuários de drogas e profissionais do sexo, mas não foi essa a reação da epidemia. Hoje, em algumas faixas etárias, como na população jovem, há registros de duas novas infecções em mulheres para cada uma em homem”, explicou. “E ao considerar a aids uma doença crônica, como fazem muitos governantes e médicos, corre-se o risco novamente de um descuido generalizado sobre o vírus. As pessoas tendem a pensar que ter aids é tudo bem”, acrescentou.

Com auto-falante, Beto alertou que as pessoas saudáveis também são vulneráveis à infecção do HIV, “que aids não é gripe” e criticou o que ele considera ser um desejo do governo de transferir o atendimento desta doença para as unidades básicas de saúde.

A manifestação reuniu cerca de 200 pessoas e contou com a participação do Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde (SindSAÚDE), Sindicato dos Comerciários de São Paulo e da União Geral dos Trabalhadores.

Secretário-adjunto diz a ativistas que não fechará os leitos do CRT

Depois do protesto, alguns ativistas foram recebidos pelo Secretário-adjunto do Estado da Saúde, José Manoel de Camargo Teixeira, e receberam a informação de que os leitos do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT) não serão fechados. José Manuel afirmou ainda que verbas do setor continuarão especificadas para o combate da aids, incluindo apoio à sociedade civil organizada.
Protesto e Ativista 3
Para Rodrigo Pinheiro, o encontro foi “muito protocolar”. Apesar das promessas, o presidente do Fórum de ONG/Aids do estado de São Paulo disse ter saído da reunião com a necessidade de ficar ainda “mais atento” sobre a possibilidade de fechamentos de leitos exclusivos para soropositivos. “O secretário-adjunto falou sobre a necessidade de discutirmos mais sobre como os leitos exclusivos para soropositivos estão sendo usados, o que nos deixa de alerta sobre o assunto”, explicou.

A coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, Maria Clara Gianna, esteve na reunião e respondeu a maioria das perguntas feitas pelos ativistas. Segundo ela, o debate acerca do uso dos leitos do CRT integra uma discussão maior envolvendo a racionalização dos leitos hospitalares de todo o estado. “O secretário afirmou que não há nenhuma intenção de fechar os leitos do CRT”, reforçou.

Durante a manifestação, Maria Clara estava na Secretaria de Estado da Saúde participando da reunião do Conselho Estadual da Saúde que aprovou o Plano de Ações e Metas (PAM) para as DST/Aids. Segundo ela, o tema HIV/aids entrará como pauta da primeira reunião de novos secretários municipais de saúde, em fevereiro de 2013. “Isso é muito bom, pois significa que este será um dos problemas de saúde a ser posto como prioritário pelo secretário estadual aos secretários municipal”, finalizou.

No estado de São Paulo foram notificados 217.390 casos de aids, entre 1980 a junho de 2012. Embora o patamar de novas infecções esteja estável e a taxa de óbito venha caindo, ainda morrem, em média, oito pessoas em decorrência de aids diariamente.

Nesta sexta-feira, o Programa Estadual de DST/Aids está realizando uma ação de testagem anti-HIV, das 9 horas às 16h, em parceria com o Instituto Clemente Ferreira, local onde ocorre a atividade (Rua da Consolação, 717, Centro, São Paulo). Pretende-se realizar 500 testes rápidos anti-HIV e a busca ativa de casos de tuberculose.

O Programa apoia ainda o Núcleo de Estudos para Prevenção da Aids (Nepaids-USP) no debate “Em Defesa da Resposta à Aids no Âmbito Do SUS: Uma Agenda de Pesquisa e para a Prevenção”, na Faculdade de Saúde Pública, e irá iluminar o CRT, a partir das 19h, com dois canhões de luz de cor vermelha para marcar o Dia Mundial de Luta contra a Aids.

Reportagem: Lucas Bonanno, da Agência de Notícias Aids

TV Cultura e SESC TV exibirão documentário ‘Aids, 30 anos: as repostas das ONGs do mundo’ Resposta

Mostrar, através de depoimentos, o que ativistas de diferentes partes do planeta realizam na luta contra o crescimento do HIV/aids. Esta foi a intenção que motivou a jornalista Roseli Tardelli a conceber o documentário Aids, 30 anos: as respostas das ONGs do mundo.

“Conheço e cubro conferências internacionais sobre aids desde 2004. Nestas conferências existe sempre um espaço destinado às ONGs, o Global Village, onde ativistas, gente de todas as partes do mundo, trocam experiências e impressões sobre seus trabalhos. Sempre tive a ideia de retratá-los em um filme. Convidei a cineasta Alcione Alves, para dirigir o trabalho. Fomos juntas para a última conferência em Washington e colhemos as entrevistas com ativistas que fizeram de suas histórias e vidas um compromisso contra o preconceito”, conta Roseli.

As filmagens renderam um bonito documentário com histórias impactantes, como a relatada por Maira Zacarias, da Guatemala. Maira contraiu o HIV de seu marido que morreu. Um de seus filhos foi impedido de frequentar a escola do pequeno vilarejo em que viviam. Assim, ela começou a ser ativista. Foi falar com a professora e diretora da escola sobre seu direito de seguir vivendo e sobre a injustiça de seus filhos serem discriminados.

Luna Luis Ortiz, que atualmente milita no Gay Men´s Health Crisis (GMHC), importante ONG com base em Nova York, infectou-se aos 14 anos. Atualmente trabalha em atividades de prevenção junto a populações vulneráveis nos bairros povoados por imigrantes latinos naquela cidade norte-americana.

“É um prazer mergulhar profundamente no universo de cada história, quando se faz um documentário. Espero ter conseguido retratar os personagens do filme com o respeito que eles merecem”, comenta Alcione.

Roseli explica que a ideia com esta produção foi “ouvir e contar a história de ativistas de outras partes do mundo”. Segundo ela, a atuação do Movimento Social Brasileiro de Luta contra a Aids, referência para o mundo, será abordada em um outro projeto maior.

Roseli é jornalista, produtora cultural e apresentadora. Trabalhou como repórter de política no jornal O Estado de S.Paulo, foi a primeira mulher a ancorar um jornal de rádio, o Jornal Eldorado, na Rádio Eldorado AM de São Paulo, e apresentou os programas Opinião Nacional Roda Viva naRede Cultura. Participa de ações contra o HIV e aids desde 1994, criando em 2003 a Agência de Notícias da Aids e, em 2009, a Agência de Notícias de Resposta ao SIDA em Moçambique.

Alcione é produtora, roteirista e assistente de direção. Seus trabalhos já foram premiados em concursos internacionais, como o CINESTRAT na Espanha, e selecionados para exibições oficiais, como o Globians Doc em Berlin, Mostra Internacional de Cinema 32” em São Paulo e Festival Internacional da Bahia.

EXIBIÇÕES:

Lançamento: Sábado, 1º de dezembro, às 19h
Onde: CINESEC. Rua Augusta, 2075.
Entrada gratuita.

SESC TV, 1º de dezembro, às 22h.

Rede Cultura de Televisão, 1º de dezembro, às 23h15.

FICHA TÉCNICA

Concepção e entrevistas: Roseli Tardelli
Direção: Alcione Alves
Edição:Alcione Alves e Pedro Duarte.
Apoio: Senac e Sesc São Paulo; Angloamerican e Rede Cultura de Televisão.

Fonte: Agência de Notícias da Aids