Censura de obras LGBT é tentativa de negar que gays são “pessoas normais”, diz autor francês Resposta

Sessão de autógrafos no 4° Salão de Revista em Quadrinhos & Imagens LGBT Paris 05/06/16. O próximo evento acontece no dia 30 de novembro de 2019.

Acostumado a acompanhar polêmicas envolvendo a liberdade de expressão dos LGBTs, o autor e crítico francês Jean-Paul Jennequin, editor da revista LGBT BD, não chega a se surpreender com a tentativa de censura de um quadrinho que continha um beijo gay, na Bienal do Rio de Janeiro. Ele nota que a cada vez que o público LGBT é apresentado como “normal” pelas artes, governos autoritários de viés conservador tendem a reagir com rigor.

Para políticos como Jair Bolsonaro ou o russo Vladimir Putin, o combate ao que consideram uma “propaganda gay” nada mais é do que a tentativa de evitar que os homossexuais e transgêneros sejam vistos como pessoas ordinárias pelo restante da sociedade. “O poder deles é baseado no medo”, ressalta Jennequin, autor de “A História dos Livros de Quadrinhos”.

Leia a entrevista concedida à repórter Lúcia Müzell, da RFI:

Você soube do incidente da proibição dos livros na Bienal do Rio de Janeiro?

Jean-Paul Jennequin: Sim, eu soube vagamente. Não sei dos detalhes, nem conheço a lei brasileira. Mas, na França, temos uma lei de 1949 que já foi utilizada para censurar quadrinhos, muito tempo atrás. Ela regulamenta a proibição da venda, da exposição ou da publicidade e faz muito tempo que não é evocada para proibir uma história em quadrinhos – a última vez foi há mais de 20 anos, quando foi usada para proibir mangas japoneses eróticos. Essa lei ainda existe, mas ninguém mais faz referência a ela.

Para você, o que exatamente são quadrinhos LGBT? Basta ter um beijo gay para ser considerado LGBT?

A minha visão é bastante vasta. Na minha revista LGBT BD, eu publico quadrinhos que tenham temáticas ou personagens LGBT. Para mim, a Marvel Vingadores: A Cruzadas das Crianças tem personagens LGBT e corresponde perfeitamente à minha definição.

A maior parte desses quadrinhos é para o público adulto ou para o público em geral?

Depende. No caso desse livro que gerou problemas no Brasil, são personagens que integram um grupo de jovens super-heróis que foram criados em 2006. Aliás, percebemos que Bolsonaro e sua turma não estão muito atualizados e me parece que sequer leem quadrinhos Marvel, o que é lamentável porque eles teriam cabeças mais abertas. O fato é que são personagens que existem há 13 anos. Praticamente desde o início da série, eles apareceram como personagens abertamente gays.

Jean-Paul Jennequin do Festival de Quadrinhos de Angoulême, um dos maiores do mundo.

Numa feira literária ou nas livrarias, esse tipo de HQ costuma ser acessível a todos ou fica escondido?

Sim, todos podem pegar. É claro. Assim como em qualquer HQ, há os que são para adolescentes, para adultos ou para todos. Por exemplo, o autor francês Hugues Barthe lançou recentemente “Meus anos hétero”, que conta a história de um gay que hoje tem cerca de 70 anos e durante muito tempo viveu “no armário”, fingindo ser hétero. O livro conta a sua vida. Essa história é para o público em geral e pode ser comprada em qualquer livraria. Em Paris, tem uma livraria LGBT imensa, Les Mots à la Bouche, no bairro Marais, onde qualquer um pode entrar, inclusive crianças.

Muita gente ainda pensa que uma literatura LGBT é obrigatoriamente erótica?

Sim, são pessoas que tem 40 ou 50 anos de atraso em relação à realidade. Nos anos 1970, quando começaram os quadrinhos abordando a homossexualidade, os transgêneros etc, com frequência eles eram eróticos, embora nem sempre.

Para muitas pessoas, o fato de que a palavra “homossexual” conter a palavra “sexual” é um problema, como se se tratasse de falar de sexo. Mas eu, por exemplo, vivi 28 anos com o mesmo homem, que faleceu, e agora sou casado com outro. E veja que curioso: passo a maior parte do tempo fazendo coisas banais, como olhar televisão, lavar a louça e arrumar a casa. Não estamos o tempo transando como animais.

A prefeitura do governo do Rio de Janeiro alegou uma preocupação com uma suposta “propaganda LGBT”, um argumento encontrado também em países ultraconservadores, não é?

Sim, como Vladimir Putin na Rússia. Para os inimigos dos LGBT, tudo o que possa dar uma imagem “normal” e ordinária da homossexualidade e das pessoas LGBT significa propaganda. Inclusive, eles usam esse termo fora de contexto, porque a propaganda em geral é feita pelo Estado.

Na França, a lei sobre a censura de 1949 apareceu justamente para proibir uma revista chamada Arcadie, publicada por um grupo que queria normalizar a homossexualidade. O que as pessoas como Putin e Bolsonaro mais temem é que aquelas pessoas que não conhecem homossexuais e só têm uma imagem caricata deles possam passar a ter uma outra imagem dos LGBT, mais “normal”. No fim, o poder deles é baseado no medo. Se as pessoas que têm medo das pessoas LGBT, que representam tipos de monstros que só pensam em sexo, passarem a vê-las como pessoas banais como quaisquer outras, Putin e Bolsonaro não terão mais tanto poder assim. Portanto, os LGBT precisam virar os inimigos a serem combatidos.

Os quadrinhos LGBT contribuem para combater a homofobia?

A partir do momento em que representamos as pessoas LGBT em todo o tipo de papéis, que costumam ser representadas por pessoas não-LGBT – como o super-herói -, sim, estamos lutando contra a homofobia. Estamos fazendo as pessoas se questionarem sobre o fato de que o super-herói não necessariamente precisa ser heterossexual.

Como é a aceitação dos quadrinhos LGBT em países mais conservadores, como os muçulmanos? E nos Estados Unidos de Donald Trump?

É preciso notar que, de uma maneira geral, nem todos os países apreciam quadrinhos. Na Alemanha, por exemplo, tem muitos quadrinhos nas livrarias, mas são todos traduções de franceses, belgas ou americanos; não há uma tradição de autores alemães.

Nos Estados Unidos, os primeiros livros LGBT apareceram nos anos 1970 e, nos anos 1980, surgiu a revista Gay Comics, que durou 18 anos. E pouco a pouco, os personagens LGBT que ficavam restritos aos quadrinhos específicos e para adultos, se difundiram nos quadrinhos em geral. O X-Men, por exemplo, que é superconhecido e vendido, mostrou em 2012 o casamento gay de um dos super-heróis. Desde 2007, DC Comics publica as aventuras de Batwoman, que é lésbica.

Após ser ameaçado Felipe Neto cancela palestra em evento sobre educação Resposta

Após ser ameaçado, o youtuber Felipe Neto desistiu de realizar uma palestra, que estava marcada para esta terça-feira (17), ameaças “que atentam contra a sua vida e de sua família”, segundo um comunicado enviado pela sua equipe ao jornal “O GLOBO”. O influenciador digital faria uma participação no Educação 360 Encontro Internacional, evento realizado pelos jornais “O GLOBO” e “Extra”.

No comunicado, a equipe do youtuber explica que “desde a ação que promoveu contra a censura, a opressão e o preconceito na Bienal do Livro – onde comprou 14 mil exemplares com temática LGBTQ – em um movimento em prol da liberdade de expressão, do amor e da diversidade, Felipe Neto vem recebendo todo tipo de ameaças”. A ação de Neto foi uma resposta à decisão do prefeito do Rio, Marcelo Crivella , de censurar a venda de livros com temática LGBTQ que estavam à venda na Bienal, impedindo a venda dos mesmo , motivado pela HQ “Vingadores — A cruzada das crianças”, que tem um desenho de dois garotos se beijando.

O texto da nota segue informando que, diante desse “risco iminente, que inclusive atinge seus familiares, o influenciador encontrou-se sem outra alternativa a não ser cancelar sua participação”.

“Lamento profundamente a minha ausência no evento, minhas sinceras desculpas a organização, que me convidou, e a todos que aguardavam pela minha participação e pela minha palestra. É estarrecedor que no Brasil, em 2019, um indivíduo seja impossibilitado de se manifestar e lutar contra qualquer tipo de censura e opressão sem ser ameaçado”, disse o youtuber, no comunicado divulgado na manhã desta segunda-feira. “Quero dizer que continuarei lutando, enfrentando o obscurantismo e a opressão, por todos os meios que me cabem, pela defesa do amor e da união até o fim, até onde for possível e até onde minhas forças e meu coração aguentarem”.

O Educação 360 Encontro Internacional é uma realização dos jornais O GLOBO e “Extra”, com patrocínio de Itaú Social, Fundação Telefônica/Vivo, Colégio Ph e Universidade Estácio, e apoio institucional de TV Globo, Unicef, Unesco, Fundação Roberto Marinho e Canal Futura.

Leia na íntegra a nota divulgada pela assessoria de Felipe Neto:

“Felipe Neto, por meio de sua assessoria de imprensa, comunica que não participará do evento Educação 360, a ser realizado no próximo dia 17 de setembro, na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. O influenciador digital, escritor e empresário cancelou a sua palestra “Educação e a Criatividade” devido a ameaças que atentam contra a sua vida e de sua família. Desde a ação que promoveu contra a censura, a opressão e o preconceito na Bienal do Livro – onde comprou e distribuiu gratuitamente 14 mil exemplares com a temática LGBTQ – em um movimento em prol da liberdade de expressão, do amor, da inclusão e da diversidade, Felipe Neto vem recebendo todo tipo de ameaças. Diante do atual cenário e do risco iminente, que inclusive atinge aos seus familiares, o influenciador encontrou-se sem outra alternativa a não ser cancelar a sua participação. “Lamento profundamente a minha ausência no evento, minhas sinceras desculpas a organização, que me convidou, e a todos que aguardavam pela minha participação e pela minha palestra. É estarrecedor que no Brasil, em 2019, um indivíduo seja impossibilitado de se manifestar e lutar contra qualquer tipo de censura e opressão sem ser ameaçado. Quero dizer que continuarei lutando, enfrentando o obscurantismo e a opressão, por todos os meios que me cabem, pela defesa do amor e da união até o fim, até onde for possível e até onde minhas forças e meu coração aguentarem”.

Com informações do Jornal O GLOBO.

Conselho Estadual LGBT critica Crivella Resposta

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Prefeito do Rio, Marcelo Crivella

Deu na coluna da jornalista Berenice Seabra, do jornal “Extra” que o Conselho Estadual LGBT está insatisfeito com o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. “Sem recursos não tem como executar políticas públicas. Com uma coordenadoria, não tem status para se articular com outras secretarias”, disse Júlio Moreira, presidente do Conselho.

O coordenador da Diversidade Sexual, Nélio Georgini, da prefeitura do Rio foi elogiado.