Campanha mineira contra homofobia no futebol tem adesão de corintianos e palmeirenses Resposta

"Corinthians Livre" é a página do facebook criada por torcedores contra homofobia

“Corinthians Livre” é a página do facebook criada por torcedores contra homofobia

Se no primeiro dia da união de torcedores de Atlético-MG e Cruzeiro numa campanha pelo facebook contra a homofobia, os grupos “Galo Queer” e “Cruzeiro anti-homofobia” enfrentaram forte resistência de torcedores, nesta sexta-feira (12/4) a medida começou a ser melhor aceita. Tanto que recebeu apoio de dirigentes dos clubes mineiros e de parte das torcidas de Palmeiras e Corinthians, que aderiram ao movimento.

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A criadora do movimento do Cruzeiro, que pediu para não se identificar, por temer a reação de outros torcedores, reconhece que já esperava a repercussão negativa. “Estamos cientes que existirão torcedores que apoiarão e torcedores que não apoiarão a iniciativa. Os mais conservadores tendem a ser até mais agressivos na forma de expressar a sua opinião contrária, ora porque são contra o movimento, ora por medo de a página ser motivo de piadas preconceituosas de rivais contra o nosso time”, disse.

Palmeirenses também aderiram ao movimento iniciado por torcedores de Atlético-MG e Cruzeiro

Palmeirenses também aderiram ao movimento iniciado por torcedores de Atlético-MG e Cruzeiro

“O nosso objetivo é justamente esse, mostrar que a orientação sexual diferente não é mais motivo de ofensa ou xingamento. Atualmente, não cabe mais esse tipo de ‘brincadeira’, até porque existem muitos torcedores homossexuais que acompanham o time de coração tão fielmente quanto torcedores heterossexuais”, acrescentou a criadora da página celeste no facebook, que foi inspirada na iniciativa atleticana.

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Se a repercussão foi negativa com torcedores de Atlético e Cruzeiro, as torcidas de Palmeiras e Corinthians apoiaram a ideia e também criaram páginas no facebook sobre o mesmo tema. “Movimento anti-homofobia e anti-sexismo, destinada à torcida mais fanática do Brasil. Mostrando a todos que o preconceito deve ser extinto também nos estádios de futebol”. Este é o texto de abertura da página “Corinthians Livre”. Com o mesmo argumento, os torcedores alviverdes criaram a página “Palmeiras Livre”

O movimento contra a homofobia ganhou apoio também dos dirigentes dos dois clubes mineiros, Cruzeiro e Atlético. O diretor de futebol alvinegro Eduardo Maluf se posicionou favoravelmente. “Não sabia, pois não tenho facebook, mas sou totalmente a favor de qualquer manifestação. Se juntaram as duas torcidas rivais, sou ainda mais a favor”, disse o dirigente ao UOL Esporte.

A diretoria celeste informou, por meio de sua assessoria de comunicação, concordar com esse tipo de atitude e com as ações dos torcedores, mas ressalvou que não está envolvido na criação do grupo. Já o atacante Anselmo Ramon evitou comentar. “Não sou contra isso, acho que todo mundo tem direito de ser o que quer. Não fico me envolvendo nisso, mas respeito todo mundo”, comentou.

Inspiração na torcida rival

A idealizadora do movimento pelo lado cruzeirense reconheceu que se inspirou na página do maior rival, o “Galo Queer”, cuja página foi criada na última terça-feira. O nome escolhido, “Galo Queer”, faz referência ao termo inglês que significa algo estranho, fora do comum ou padrões, mas é utilizado pelos nativos do país para se referir a homossexuais.

A torcedora celeste defende a necessidade desses posicionamentos. “Frente à realidade do Brasil hoje, com as declarações polêmicas de pastores famosos como o Marco Feliciano e o Silas Malafaia e tendo em vista o preconceito que existe no futebol,  mostrou-se necessária a criação de um canal que lute contra isso também nesse âmbito que é o esporte”, justificou.

“A Manifestação e indignação das pessoas são e sempre foi muito importante para acabar com a intolerância e o preconceito. E não podemos mais tolerar a falta de respeito e tudo que incite à violência no futebol”, acrescentou a torcedora cruzeirense.

Ela, porém, afasta a possibilidade de o grupo se estender para o campo e virar torcida. “Não, de maneira alguma. O nosso objetivo não é criar uma nova torcida, mas fazer com que haja respeito entre as torcidas, principalmente em relação à orientação sexual dos torcedores”, destacou.

A torcedora celeste aprova a participação de outras torcidas. “É importante que, além de cruzeirenses e atleticanos, cada torcida crie essa iniciativa para que possamos mudar essa realidade brasileira, especialmente nos estádios, afinal, acima de tudo, somos todos iguais, somos seres humanos”, complementou.

Conheça a história de Beatriz, transexual e lésbica: “Eu gosto e sempre gostei de meninas” 2

Beatriz Calore nasceu homem e virou mulher - lésbica. E enfrenta preconceitos dentro do universo LGBTT Foto: André Giorgi

Beatriz Calore nasceu homem e virou mulher – lésbica. E enfrenta preconceitos dentro do universo LGBTT Foto: André Giorgi

“Eu vou virar mulher”. Foi com essa afirmação meio fora do ritmo que um estudante de composição na Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) informou aos colegas que começaria a tomar hormônios para encontrar a sua identidade sexual. A garota que agora responde por Beatriz entrou na faculdade ainda como um menino e fez a revelação à sua turma no fim do primeiro semestre. Com a ajuda das amigas, comprou roupas femininas e maquiagem para, no primeiro dia de aula depois das férias de julho, chegar à universidade já vestida como Beatriz. “O pessoal perguntava se eu tinha dado uma de Laerte”, diz a jovem, se referindo ao cartunista que se tornou adepto do cross dressing (prática na qual alguém passa a se vestir com figurino do sexo oposto). Vamos omitir o nome masculino de Beatriz, porque ele é uma das reminiscências do passado que ela prefere não dividir com (mais) ninguém.

A segunda surpresa referente à mudança de sexo de Beatriz é que, mesmo na pele de uma mulher, ela segue interessada sexualmente em mulheres. “Eu gosto e sempre gostei de MENINAS”, deixa claro Beatriz Calore, de 22 anos. Há apenas um ano fazendo o tratamento de mudança de sexo, a garota é uma prova de que orientação e identificação sexual são coisas completamente diferentes. Desde cedo, a estudante soube que gostava de mulheres, mas não se sentia confortável em um corpo masculino. “Quando era adolescente, eu via um desenho japonês sobre um colégio de lésbicas e achava aquilo o paraíso. Queria ser uma das meninas, se relacionando com outras meninas”, explica, rindo, a jovem violonista.

Atualmente, após passar por uma cirurgia plástica para feminilizar o rosto, Beatriz quer encontrar o amor, como qualquer garota, mas, além do preconceito generalizado contra gays, ela é uma nota destoante dentro da própria população LGBTT. “Eu perguntava para as meninas no Leskut, o Orkut das lésbicas, se elas sairiam com uma trans e a resposta era: ‘Eu não saio com homens’”, explica Beatriz. “As pessoas veem o que era antes e não o que é agora”. A seguir a entrevista que ela deu ao iGay .

iG: Como sua família lidou com a sua decisão?

Beatriz: Eu sou quase orfã. Minha mãe faleceu há uns quatro anos e meu pai não fala comigo. Eu sei onde ele mora, ele sabe da situação em que estou, mas não quer me ver. A última vez que o vi foi no ano passado, quando ainda não tinha contado que eu sou… eu. Quanto ao meu padrasto, que era o marido de minha mãe, é difícil ficar com a família dele. Algumas pessoas se sentem incomodadas, acham que o convívio como uma trans pode atrapalhar a criação do filho. Minha tia também demorou para aceitar. Ela tinha muitos preconceitos baseados em noções erradas, achando que a prostituição era a única opção. Mas ela viu que eu não vou largar os meus estudos para me prostituir.

iG: Quando percebeu que tinha algo de diferente em você?

Beatriz: Quando criança, eu era bem afeminada, mas até uns sete, oito anos, eu não sacava nada. Depois, aprendi a me relacionar com os garotos e por um bom tempo andei com eles. Porque eu gostava e gosto de meninas. Meninas. Na adolescência, fui passando a perceber que as coisas não eram muito bem assim, que eu me sentia diferente. Comecei a ter interesses diferentes.

iG: Que tipo de interesses?

Beatriz: Pode parecer muito ridículo, mas enquanto os meninos assistiam desenhos japoneses de ação, eu tinha me interessado muito por um que era de romance e era sobre um colégio em que só tinha meninas lésbicas. E me apaixonei por aquilo, pensava: “Nossa, como eu queria ser uma dessas meninas”. Não é que eu queria ser um menino dentro desse colégio, eu queria ser uma das alunas, se relacionando com outras alunas. Achava aquilo um paraíso (risos).

iG: Você conseguiu lidar bem com a situação?

Beatriz: Mais ou menos. Comecei a me sentir mal por ser homem, passei a desprezar os homens. Uma espécie de preconceito que se voltava contra mim, de certa maneira. E em certo momento, percebi que gostaria realmente de ser uma mulher. Antes disso, eu tinha muitos problemas com o meu corpo, especialmente com as reações sexuais do corpo masculino, que eu achava que não condiziam com a maneira que eu pensava sobre o amor, o romance, as relações. Eu achava que era algo totalmente diferente, impulsivo, que não tinha nada a ver comigo. Depois que eu comecei a tomar hormônio, acabou.

iG: Você pensa em fazer cirurgia de mudança de sexo?

Beatriz: Eu quero tirar o pênis porque para mim ele não serve para nada (risos). É uma coisa muito inútil, de que não vou sentir absolutamente nenhuma falta. Mas algumas pessoas resolvem fazer cirurgia, outras não. Não é porque quer manter o pênis que ela vai deixar de ser, de pensar e de se vestir como mulher.

iG: No que o pênis te atrapalha?

Beatriz: Estou há 9 meses sem manifestar nada. Tipo: “Por favor, saia daí, que eu preciso viver a minha vida sexual de uma maneira normal”. As pessoas que querem sair com trans que não é operada quase sempre é por causa da ideia da mulher com um pênis. Então é uma coisa fetichista.

iG: Você já teve algum relacionamento anterior?

Beatriz: Não. Já tive um rolo uma vez, quando ainda não tinha começado o meu tratamento, com uma travesti. Eu não tenho problema em sair com uma menina trans. Eu a vejo apenas como uma garota. Nem lembro o que aconteceu depois. Acho que não deu certo, né? (risos).

iG: Que outra mudança física você espera?

Beatriz: Estou procurando uma fonoaudióloga que me ajude na transição de voz porque eu quero poder cantar. Se for profissionalmente, melhor. É mais uma opção para mim como musicista. Não me identifico mais com o violão, que é o instrumento que eu toco. E o canto é super versátil, posso fazer qualquer tipo de música. Me interesso muito pela voz em geral, até porque ela está ligada com a minha transição.

iG: Você sonha em se casar?

Beatriz: Eu penso a respeito. Já pensei que teria filhos, queria poder engravidar, se fosse possível. Mas, por enquanto, é fora da realidade. Estão fazendo testes na Rússia de transplante de útero, mas não sei se é com transexuais ou apenas com mulheres. De qualquer forma, também penso em adotar.

iG: Você quer ser ativista?

Beatriz: Não tenho estilo de ativista. Se posso falar alguma coisa, falo. Acho legal poder dividir minha experiência, mas não sou o tipo de pessoa que vai em passeata, que milita mesmo. Me importo com a causa, me importo quando vejo um pastor Marco Feliciano lá na Comissão de Direitos Humanos. Tem coisas que me preocupam e algumas que não são tão relacionadas a mim. Por exemplo, em alguns movimentos transfeministas, enfatizam muito a quebra da separação de gêneros, o que eu acho muito positivo, mas não me encaixo nessa questão. Não me vejo como uma pessoa que está no meio dos dois sexos, me vejo como mulher mesmo. Eu sou mulher e é isso aí.

iG: Como você escolheu o nome Beatriz?

Beatriz: O primeiro critério foi que eu não queria um nome que tivesse correspondente masculino. Não existe Beatriz masculino. Então sobraram algumas opções e eu escolhi o mais bonito. Eu ainda não tenho RG com esse nome, mas consegui fazer o bilhete único como Bia, com uma foto minha. Eu fico mostrando para todo mundo (risos).