Formada com destaque em curso para vigilante, travesti diz que transfobia impede trabalho Resposta

Para manter a forma e evitar a depressão, Milena se exercita na academia improvisada pelo companheiro Foto: Rafael Moraes / Extra

Para manter a forma e evitar a depressão, Milena se exercita na academia improvisada pelo companheiro Foto: Rafael Moraes / Extra

É esperado que um vigilante tenha postura firme, coragem e saiba se impor. Essas características não faltam a Milena Sara Sandim. Ela deixou de ser André aos 14 anos e hoje, aos 28, é a primeira travesti formada vigilante no país. A coragem de assumir a identidade de gênero, que marcou a vida pessoal, no entanto, parece atrapalhar a profissional.

– Quando passei a morar com o Alessandro (seu marido), me interessei pela atividade dele, que é vigilante há anos – conta ela, que se formou no curso em maio e, desde então, tenta sem sucesso entrar no mercado de trabalho.

No curso de vigilante, Milena recebeu menção honrosa. Foi nota 10 em prevenção e combate a incêndio e conquistou média 8,51, com aprovação sem ressalvas em armamento em tiro e primeiros socorros. Quando se candidata a uma vaga de trabalho, Milena precisa se identificar como André, com a observação de que é travesti. Nunca foi chamada para uma entrevista sequer.

Milena Sara, formada com menção honrosa no curso profissionalizante para vigilante Foto: Rafael Moraes / Extra

Milena Sara, formada com menção honrosa no curso profissionalizante para vigilante Foto: Rafael Moraes / Extra

– A sociedade me cobra uma profissão que ela considere digna. Me qualifiquei naquilo que gosto e agora a mesma sociedade me fecha as portas e me inclina novamente para as ruas. Entrei para um curso de formação, aprendi a abordar, imobilizar, atirar. Me joguei no chão, rastejei, mas o difícil mesmo é ficar aqui cinco meses, tendo me candidatado a todas as vagas de Barra Mansa e Volta Redonda, e não ter recebido um retorno sequer. Em São Paulo, fiz ponto e consegui ganhar até R$ 4 mil por mês. Já me prostituí quando foi preciso e estou me esforçando para ter uma vida diferente. Travesti não pode ficar restrito à rua ou ao salão de beleza.

Ela mora com Alessandro Mario Sant’Anna (23), em Barra Mansa, na casa que ela construiu com o dinheiro conquistado na rua. A prostituição em São Paulo, onde viveu dos 14 aos 23 anos, também pagou os 600 mililitros de silicone dos seios, o Metacril (substância sintética usada para preenchimento estético) nas nádegas e coxas e a plástica no rosto.

Milena e o companheiro Alessandro: ele não tem dificuldade de encontrar emprego Foto: Rafael Moraes / Extra

Milena e o companheiro Alessandro: ele não tem dificuldade de encontrar emprego Foto: Rafael Moraes / Extra

Desde que se conheceram pela internet em 2010, o marido de Milena nunca ficou desempregado, passando por três firmas diferentes.

– E eu não consigo – lamenta Milena.

Em Volta Redonda, segundo ela, uma travesti consegue R$ 4 mil por mês prostituindo-se. Já o salário base mais benefícios do vigilante, diz Alessandro, chega a R$ 1,4 mil. Mas, enquanto a oportunidade não chega, Milena treina para se manter em forma e longe da depressão.

– Caminho para manter meus 74 quilos. Levantar peso, não é sempre, para não ficar musculosa – conta ela, do alto de seu 1,76m, na academia improvisada pelo marido.

Alessandro herdou o gosto pelo trabalho como segurança do pai adotivo, um oficial do Exército que reprova o casamento do filho. A família de Milena apoia o casal e mora na casa ao lado.

Segundo a diretora do Sindicato dos Vigilantes de Volta Redonda e Sul Fluminense, Valéria Martins, o mercado de trabalho para mulheres já enfrenta preconceitos na profissão.

– As empresas só selecionam homens. Para cada 100 contratados, menos de dez mulheres conquistam uma vaga. Acredito que exista um preconceito ainda maior no caso de uma travesti.

Coordenador do projeto Damas, da Prefeitura do Rio, que busca a capacitação e a inserção de travestis no mercado de trabalho, Carlos Alexandre Lima diz que até mesmo empresas de recurso humanos criam obstáculos para fazer encaminhamento de travestis para vagas de emprego.

– A resistência das empresas é imensa. Nunca deixou de existir. A inexistência de tal dificuldade é exceção.

Cláudio Nascimento, coordenador do programa estadual Rio Sem Homofobia, diz que travestis e transexuais são o segmento mais perseguido na comunidade LGBT.

– Existe um estigma muito grande sobre elas. A maioria não consegue terminar o ensino fundamental. As que conseguem, encontram extremas dificuldades para inserção profissional – afirma Nascimento.

*Informações Extra

Como eu saí do armário: Vitor Panontim 7

Vitor Panontim

Vitor Panontim

Me chamo Vitor, tenho 22 anos, nascido e criado em São Paulo (SP), sou estudante de Administração e trabalho na área, numa metalúrgica no bairro do Tatuapé. Sou metido á escritor também, pois minha imaginação sempre vai além das possibilidades.

+ Como eu saí do armário: Rafael Zveiter (criador do Entre Nós)

Quando criança, eu nunca me enquadrei em nenhum grupo social, seja na escola ou na rua, não gostava de futebol e tampouco achava interessante os papos femininos. Sempre estava mais só do que acompanhado, mesmo sendo muito querido pelos colegas de classe. Era meio que estar com eles, mas não pertencer a eles.

O tempo passou e eu percebi que aquilo não era uma questão social, era mais sexual, pois o que era normal em minha cabeça, na cabeça dos outros não era, eu sempre gostei de garotos, então nunca imaginei que poderia ser errado para alguém, mas também não me inferiorizei, apenas continuei sendo eu mesmo.

Na minha adolescência, eu fiquei com garotos e garotas, em partes para me saciar e em outra parte para saciar aos outros. Mas não deu certo, logo aos 16 anos contei para minha mãe. Ela nunca aceitou, mas sempre respeitou e pediu que não contasse ao meu pai. Consegui manter a minha palavra, ela não. Aos meus 18 anos, ela contou ao meu pai. Ele me expulsou de casa, morei na rua durante algum tempo, vi o pior da vida, mais eu sempre tive um dom natural à sobrevivência, talvez seja isso que não me permiti cair no crime, nem usar drogas. A única coisa que precisei fazer, foi contra mim mesmo, para sobreviver fui obrigado a me prostituir, para conseguir grana para pagar estadias em pousadas ou coisas do gênero. Essa natureza de sobrevivência é tão grande dentro de mim, que sempre me manteve seguro, mesmo nos ambientes mais podres. Me mantive assim até meus 20 anos quando finalmente consegui comprar um apartamento e me estabelecer num emprego fixo.

Apesar disso tudo, sei que minha historia é única e por favor não usem como desculpa para se limitarem a viver uma vida verdadeira. Sair do armário foi á melhor coisa que eu fiz, apesar dele muitas vezes existir em nossa cabeça. É um termo de limite, assim como a virgindade, um termo separatório. Bom é isso.

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