Vaticano diz que é preciso garantir direitos civis de casais gays 1

O Papa Bento XVI em audiência no Vaticano TONY GENTILE/Reuters

O Papa Bento XVI em audiência no Vaticano TONY GENTILE/Reuters

Num sinal de mudança da Igreja Católica, o ministro do Vaticano para a Família, monsenhor Vincenzo Paglia, encorajou o reconhecimento de direitos civis de uniões fora do casamento, inclusive entre pessoas do mesmo sexo. Em um encontro com a imprensa, Paglia – que costuma ter posições abertas sobre temas sociais – explicou que são situações que o Estado deve resolver para impedir injustiças e discriminações. Horas depois, em uma entrevista à Rádio do Vaticano, Paglia disse que suas declarações sobre o casamento gay foram mal interpretadas.

– É preciso encontrar soluções no âmbito do código civil para garantir questões patrimoniais e facilitar condições de vida para impedir injustiças com os mais fracos – disse. – Infelizmente, não sou um especialista em direito, mas, pelo que sei, me parece o caminho que precisa ser percorrido.

O arcebispo italiano também manifestou sua total oposição a formas de discriminação contra os homossexuais em alguns países, em particular no Oriente Médio e na África.

– Em vários países, a homossexualidade é considerada um crime. É preciso combater isso.

Apesar da declaração, o religioso, designado no ano passado para administrar um dos ministérios-chave do Vaticano, reiterou sua defesa do casamento tradicional, entre um homem e uma mulher, que considera “elemento fundador” da sociedade. Ele também condenou a aprovação da adoção por parte de casais do mesmo sexo.

– A Igreja conhece o preço do que é uma família sem filhos, dos idosos sozinhos e dos doentes. A família se transformou ao longo de décadas, mas nunca vamos abandonar seu ‘genoma’, ou seja, que é formada por um homem, uma mulher e seus filhos.

Após as declarações, em uma entrevista à Rádio do Vaticano, Paglia afirmou que ficou “muito surpreso” quando alguns veículos de imprensa publicaram que ele apoiava o direito dos casais homossexuais. Para esclarecer sua posição, o religioso explicou que é necessário “verificar nos ordenamentos jurídicos existentes a possibilidade de utilizar normas jurídicas que tutelem os direitos individuais”.

– Isso vai além da aprovação de certas visões. Minhas palavras não foram compreendidas e, por isso, não compreenderam também o carinho com que foram pronunciadas. Na realidade, e também por vontade, foram descarriladas de seus trilhos.

Paglia é um dos fundadores da Comunidade de Santo Egídio, organização que mediou conflitos internacionais, entre eles em El Salvador, e defensor da causa de canonização do monsenhor salvadorenho Arnulfo Romero.

Fonte: O Globo

Católicos pelo casamento gay 1

Casamento

Mais e mais países legalizam o casamento gay. Mais e mais Estados e regiões do Brasil também o fazem, através de decisões judiciais. Isto acontece porque muitas pessoas hoje acreditam que este casamento é legítimo e deve ser reconhecido pelo Estado. Entre elas, o presidente norte-americano reeleito Barack Obama. Todos os cidadãos são iguais em dignidade e direitos, e por isso as uniões entre homossexuais devem ter o mesmo reconhecimento das uniões entre heterossexuais, com os mesmos direitos e deveres. Não há concorrência entre estas formas de união, visto que se destinam a pessoas diferentes, e nem ameaça à família ou à sociedade.

Muitos cristãos também acreditam nisso. Sabem que Deus é amor e compreensão, e que Ele quer a felicidade dos seus filhos. Surge então uma questão aos fieis católicos: como lidar com a oposição da alta hierarquia da Igreja ao reconhecimento do casamento gay, considerado por ela uma ameaça à família tradicional e nociva a um reto progresso da sociedade?

O Concílio Vaticano II, iniciado há mais de 50 anos, afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (GS 1). É hora de olhar para a realidade humana de tantas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Há uma história milenar de homofobia, com diversas formas de brutalidade física, hostilidade verbal e exclusão. Não se pode ignorar o anseio da população LGBT por segurança, liberdade e igualdade. Opor-se ao casamento gay é acrescentar mais uma discriminação nesta longa história de exclusões e hostilidades.

O teólogo Karl Rahner refletiu sobre o conceito de ‘cristão adulto’, que pode contribuir bastante nesta questão. No início do século 20, o magistério da Igreja rechaçava a teoria da evolução. Ensinava que os primeiros capítulos da Bíblia, contendo a narração da criação do homem, deveriam ser entendidos de maneira literal. Se nessa época um paleontólogo estivesse plenamente convencido do vínculo entre o ser humano e o mundo animal, como ele deveria proceder? Neste caso, tal cientista não deveria rejeitar toda a fé da Igreja e nem toda a sua doutrina, mas discernir entre o que é fundamental e o que não é. Ele deve saber quais são as convicções de sua fé realmente centrais e existencialmente significativas, para nelas se aprofundar sempre mais; e progressivamente desconsiderar o que se mostra irremediavelmente inaceitável.

Não se deve nunca colocar as coisas em termos de tudo ou nada. O próprio Concílio Vaticano II diz que há uma ‘hierarquia de verdades’, isto é, uma ordem de importância dos ensinamentos da Igreja segundo o seu nexo com o fundamento da fé cristã (UR 11). Há ensinamentos de mais relevância, com um nexo maior; e outros de menos relevância, com um nexo menor. Isto contribui para o discernimento. O cristão adulto, diz Rahner, é um fiel que vive conflitos semelhantes ao daquele paleontólogo. Ele precisa tomar decisões em assuntos importantes, colocando-se diante de Deus e de sua consciência, e enfrentar as consequências, sem ter necessariamente o desejado respaldo da Igreja.

Os cristãos solidários à população LGBT e aos seus direitos devem ser encorajados a viver esta fé inclusiva, tão necessária ao nosso tempo, mesmo que eles não tenham o devido respaldo de suas igrejas. Isto é ser cristão adulto. Eles não estão sós, pois amam e conhecem a Deus que é amor.

Texto: Equipe do Diversidade Católica

Defensores do casamento gay fazem protesto durante homilia do Papa Resposta

Ativistas gays fazem protesto contra homofobia em Roma neste domingo (16) (Foto: AFP)

Ativistas gays fazem protesto contra homofobia em Roma neste domingo (16) (Foto: AFP)

Defensores dos direitos dos LGBTs e de casamentos entre homossexuais protestaram perto da Praça de São Pedro, no Vaticano, neste domingo (16), durante a homilia do papa Bento XVI, que atacou recentemente, mais uma vez, as bodas entre pessoas do mesmo sexo.

Quinze pessoas exibiram corações onde se lia mensagens como “Casamento gay”, “O amor não tem barreiras” ou “Ame o seu próximo”, mas foram impedidas de chegar à praça, onde dezenas de milhares de pessoas estavam reunidas para o Angelus.

Na mensagem que lerá em 1º de janeiro, por ocasião da Jornada Mundial da Paz, divulgada antecipadamente na sexta-feira (14) pelo Vaticano, o Papa diz que “a estrutura natural do casamento deve ser reconhecida e promovida como a união de um homem e uma mulher, frente às tentativas de equipará-lo de um ponto de vista jurídico com formas radicalmente diferentes de união que, na verdade, danificam e contribuem para sua desestabilização, ofuscando seu caráter particular e seu papel insubstituível na sociedade”.

Itália: adolescente apontado como gay no Facebook suicida-se Resposta

Andrea S. tinha 15 anos e estudava num instituto perto do Coliseu de Roma, onde vivia. Era extrovertido e por vezes chamava a atenção devido à roupa que usava, colorida, e às unhas pintadas.

A sua família e alguns dos seus amigos mais próximos dizem que estava apaixonado, secretamente, por uma menina do mesmo instituto onde estudava. No entanto, toda a gente comentava a sua suposta homossexualidade, mesmo no seu próprio mural do Facebook, praticando cyberbullying chamando-lhe “rapaz das calças cor-de-rosa”. Na terça-feira, de tarde, Andrea suicidou-se em sua casa, com um dos seus lenços.

A polícia de Roma iniciou uma investigação para ver se existiam motivos suficientes para acusar alguém de “indução ao suicídio”. Dois ministros e o presidente da câmara municipal pronunciaram palavras sentidas de pesar e os companheiros da escola acenderam velas e choraram a morte do amigo. O mesmo de sempre, conta o diário espanhol “El País”. No entanto, era o mesmo de sempre com uma agravante: na Itália a homofobia é considerada uma doença grave, diagnosticada, mas a direita e o Vaticano negam-se a combatê-la.

Deputados italianos votam contra a criminalização da homofobia

No Verão de 2011 a Câmara dos Deputados rejeitou a proposta do Partido Democrático para introduzir a agravante da homofobia nos direitos penais,ou seja, criminalizar a homofobia. Votaram contra os partidos conservadores, a Liga Norte e o Pueblo de la Libertad, de Silvio Berlusconi. O então primeiro-ministro considerou “inconstitucional” a proposta para que a “caça aos gays” fosse perseguida nos tribunais.

Os testemunhos de agora, apesar de já demasiado tarde, não deixam dúvidas de que Andrea “pisava areias movediças”. Os seus amigos dizem que “não era homossexual, muito menos declarado” e que estava apaixonado por uma menina. Para eles, as roupas cor-de-rosa e as unhas pintadas eram apenas a sua forma de se expressar. Os colegas admitem que Andrea “provavelmente” escondia por detrás da sua imagem alegre e das suas calças cor-de-rosa, um profundo mal-estar, uma “dor de viver”. Ninguém sabia ou queria saber. Os mais chegados achavam que a atitude bem disposta mostrava que não se importava com o que diziam, que era uma espécie de “armadilha” contra os insultos.

Mas não foi assim. No final de contas, era alguém que só tinha 15 anos e decidiu que o seu lenço era a única forma de escape. Agora, a rede que maximizou a sua angústia com cruéis mensagens anônimas revelou-se: #ioportoipantalonirosa (eu tenho calças cor-de-rosa). Tarde demais.